Rublo sobrevive a pressão máxima de especuladores

Apesar da tendência negativa do rublo, queda da moeda nacional se mostra vantajosa para diversas empresas russas Foto: Reuters

Apesar da tendência negativa do rublo, queda da moeda nacional se mostra vantajosa para diversas empresas russas Foto: Reuters

No final de setembro, o rublo atingiu o mínimo histórico em relação ao dólar dos EUA. Apesar disso, o Banco Central não realizou intervenções cambiais maciças nem vendeu dólares para estabilizar o câmbio. A queda da taxa cambial é vantajosa para os exportadores russos, mas tem grande impacto nos atores do mercado interno.

Apesar da pressão nunca antes vista a que foi submetida a moeda nacional, o Banco Central decidiu não vender dólar norte-americano. Na época, fontes do jornal financeiro “Vedomosti” afirmaram que o Banco Central poderia ter vendido “algumas dezenas de milhões de dólares”. Por outro lado, segundo o veículo “RBK-Daily”, o regulador sequer participou do processo.

“O Banco Central fornece com atraso as informações sobre suas operações cambiais, pois o pagamento das transações se efetua no dia seguinte. Mesmo que tenha havido intervenções, elas não tiveram significado, já que não se pode fazer oscilar a taxa de câmbio com menos de US$ 350 milhões”, explicou à Gazeta Russa Mikhail Khromov, cientista do Centro de Pesquisas Estruturais.

Cabe lembrar que, em março passado, quando a situação política se agravou devido aos acontecimentos na Crimeia, o Banco Central fez uma injeção cambial de US$ 11 bilhões em um único dia. Para os especialistas entrevistados pela Gazeta Russa, esse foi o primeiro teste da transição para o câmbio flutuante do rublo declarado pelo governo federal.

Com base nas informações de Anton Soroko, analista da holding de investimentos Finam, as últimas transações do gênero em apoio do rublo datam do início de maio. Depois disso, o regulador se viu obrigado a vender rublos, mas durante um curto espaço de tempo. “Foi observada uma tendência de enfraquecimento do rublo desde o começo do ano, mas, , até agora, não se viu qualquer intervenção do Banco Central. Não acho que sejam necessárias intervenções da envergadura das efetuadas em março”, opina.

O recente ataque ao rublo foi o maior desde então. Desta vez, foi suscitado pela informação da agência Bloomberg, segundo a qual a Rússia estaria planejando controlar o movimento de capitais além das fronteiras – informação que foi posteriormente desmentida pelo Banco Central.

“Ainda é cedo para dizer se o ataque ao rublo foi neutralizado”, ressalta Aleksêi Kozlov, analista-chefe da companhia de investimentos UFS. De acordo com o analista, os agentes do mercado percebem que, ao ficar mais barato, o petróleo pressiona o rublo, o que os leva a realizar manobras para debilitar ainda mais a moeda russa.

“A pouca dinâmica da economia russa nos últimos tempos, a própria instabilidade do rublo e o inevitável endurecimento da política de créditos pelo Banco da Rússia tornam os investimentos no país pouco atrativos. Ora, tudo isto conduz à fuga de capitais”, conclui Kozlov.

Consequências econômicas

A queda do rublo é extremamente vantajosa para muitas empresas russas, uma vez que os exportadores se aproveitam da debilidade da moeda nacional. Por exemplo, o resultado financeiro da Rusal, a maior empresa de alumínio do mundo, foi mais positivo em virtude da queda do rublo. Com a alta de preços de alumínio, logo no primeiro semestre a empresa apurou um lucro superior ao que arrecadava durante o ano.

Outra grande empresa nacional, o Complexo Metalúrgico de Magnitogorsk (CMM), se orienta para o mercado interno, onde coloca 82,2% de sua produção. Com a desvalorização do rublo, acabou sendo igualmente beneficiada. “Apenas 50% das despesas do complexo estão discriminadas em rublos. Por isso, quando o rublo cai em relação ao dólar, o investimento fica mais barato”, esclarece um representante do CMM.

De acordo com os cálculos do complexo, uma desvalorização de 2,5% do rublo provoca um aumento de 0,9% no indicador financeiro Lajida (Lucros Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização). Caso a moeda nacional caia 15%, esse indicador atinge 4,9%.

Para as unidades industriais voltadas exclusivamente ao mercado interno, o efeito da depreciação do rublo não é tão sensível. “A importação fica mais cara, e o consumidor dá preferência aos produtos nacionais. A nossa empresa se situa na zona do rublo, e, como não temos créditos em moeda estrangeira, a desvalorização gera pouca diferença”, garante Aleksandr Kóstikov, que representa o grupo Tcherkízovo, um dos líderes russos na área da criação de gado. Segundo ele, a desvantagem é que parte das despesas é feita em moeda estrangeira, como é o caso da compra de medicamentos veterinários.

Os analistas financeiros são mais cautelosos nas avaliações do cenário. Por enquanto ainda é cedo para afirmar que o passo do Banco Central em direção ao rublo flutuante foi bem-sucedido. “A volatilidade do rublo ainda é alta, e a queda anual do poder de compra da moeda nacional parece ser demasiado grande”, sugere Soroko, acrescentando que vale a pena esperar a pressão política sobre o rublo se afrouxar, tornando sua dinâmica mais gradual e previsível.

“Teoricamente, ainda é possível que o Banco Central venha a intervir para aliviar a pressão sobre o rublo, mas ninguém sabe em que circunstâncias isso poderá acontecer”,  alerta Khromov.     

 

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