Mercado lácteo do Brasil se agita com demanda extra russa

Rússia abriu mão de algumas exigências imediatas para aumentar importação de lácteos brasileiros Foto: PhotoExpress

Rússia abriu mão de algumas exigências imediatas para aumentar importação de lácteos brasileiros Foto: PhotoExpress

Além de quatro marcas autorizadas, outras já estão aguardando concordância entre os dois governos. Expectativa é enviar as primeiras encomendas ainda em 2014.

A agitação que a demanda extra da Rússia está causando no mercado de proteína animal do Brasil, depois que o país virou substituto preferencial das cotas sancionadas dos fornecedores europeus e americanos, está levando as indústrias lácteas a tentarem fechar os primeiros embarques até o final do ano. Ao contrário das carnes, cujas portas estão abertas, os derivados de leite caíram no gosto dos russos nas últimas semanas, que liberaram as primeiras empresas e levaram novas negociações à mesa.

Itambé, Tirolez, Polenghi, Confepar e Brasil Foods (BRF) já estão habilitadas para exportação à Rússia, liberadas a toque de caixa pelo Serviço Federal de Vigilância Veterinária e Fitossanitária (Rosselkhoznadzor). Quase dez novas companhias deverão ser autorizadas nos próximos dias, assim que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) concluir a análise dos documentos e condições de qualidade e enviar os ofícios à Rússia, segundo o diretor-executivo da Associação Brasileira de Laticínios (conhecida como Viva Lácteos), Marcelo Costa Martins. Ele está na linha de frente nas tratativas entre o setor privado e os órgãos federais brasileiro e russo.

A Rússia abriu mão de algumas exigências imediatas e adequou o Certificado Sanitário Internacional (CSI). “O Brasil não precisará do documento de Zona Livre de Brucelose e Tuberculose, mas mantiveram as regulamentações quanto às condições físico-químicas, microbiológicas e de embalagem”, diz o diretor da recém-formada entidade nacional.

A flexibilização do governo russo, no entanto, não tem só a ver com a necessidade urgente de suprir seu mercado com leite, queijos, manteiga e soro, entre outros, no vácuo dos europeus, australianos e neozelandeses, “mas porque eles sabem que o Brasil está ausento de problemas sanitários há muito tempo”. Essa garantia é dada por Carlos Humberto Mandes Carvalho, presidente do Sindileite de São Paulo, um dos estados que tem mais a ganhar com a nova janela na Eurásia, pois concentra muitas processadoras.

Destino inverso

O curioso é que o Brasil é um importador líquido de lácteos desde 2008, quando as vendas externas nacionais atingiram um ápice de US$ 540 milhões. Em 2013, a balança comercial teve um déficit de US$ 478,2 milhões, pois, enquanto importou US$ 595,2 milhões (159,1 mil toneladas), exportou apenas US$ 116,9 milhões (42,4 mil toneladas).

Essa questão não tem grande importância, segundo Costa Martins, da Viva Lácteos, porque as importações, transformadas em litros, representaram apenas 3,2% da produção nacional. Produção essa – na captação do leite – que não teria acompanhando o alto consumo interno dos últimos anos. Além disso, existia certa pressão sobre os produtores para evitarem o excesso de oferta de leite.

Em 2014, a resposta no campo é mais positiva, “especialmente pelo crescimento dos estados do Sul”, explica Mendes Carvalho, bem como os melhores preços pagos ao produtor e a estagnação no consumo interno. A oferta de importados vem caindo. De janeiro a agosto houve uma queda de 21,2% em valores (total de US$ 291,4 milhões) e de 33,6% em volume (total de 69,2 mil toneladas), em comparação com o mesmo período no ano anterior.

Diversidade para exportação

 A posição externa da indústria láctea brasileira, até então dominada pelo leite em pó (em torno de 70%), queijos e creme de leite (concentrado e não concentrado), e basicamente alcançando apenas países em desenvolvimento, pode se tornar mais diversificada – tanto em produtos, quanto em destinos.

A entidade nacional Viva Lácteos aposta em queijos, manteigas e soro (basicamente usado na confecção de iogurte). A Polenghi e a Tirolez, por exemplo, são exclusivamente focadas em queijos e outros itens pasteurizados.

“A demanda russa veio na hora certa, pois temos mais leite para processar e uma indústria apta em qualidade e variedade”, anima-se o presidente do Sindileite, que traça para o futuro um paralelo com a indústria de carnes. Há menos de 20 anos, o Brasil não tinha uma posição relevante no mercado mundial de bovinos, frangos e suínos – o mesmo que hoje ocorre com o setor lácteo nacional.

Dessa nova realidade que se impõe via Rússia, a maior beneficiária será a mineira Itambé, líder tradicional nos embarques internacionais brasileiros. Terceira maior indústria láctea do Pais, com US$ 2 bilhões em faturamento em 2013, detém 50% das exportações, com um mix liderado por leite em pó integral e leite condensado. “Pena que leite condensado não é muito consumido na Rússia”, brinca Ricardo Cotta, diretor de gestão e relações institucionais da empresa.

Mas a manteiga da Itambé já está sendo negociada com os russos, em fase mais adiantada que o próprio leite em pó, de acordo com o executivo. Os contatos começaram antes mesmo da autorização oficial.

Nesse cenário movimentado, o mercado se deparou com uma situação no mínimo curiosa: a gigante de carnes e alimentos processados BRF vendeu sua área de lácteos à francesa Lactalis (dona da Parmalat), mas o processo de transferência dos ativos ainda não foi concluído. 

 

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