O preço da estabilidade

Com a nova rodada de sanções aprovada pela UE, as instituições financeiras russas perdem o acesso aos mercados de crédito, tanto europeus, como americanosFoto: Kommersant

Com a nova rodada de sanções aprovada pela UE, as instituições financeiras russas perdem o acesso aos mercados de crédito, tanto europeus, como americanosFoto: Kommersant

Seguindo os EUA, a União Europeia aprovou o terceiro pacote de sanções contra a Rússia. As restrições, que têm impacto maior sobre as empresas russas, devem também limitar o acesso dos bancos aos mercados financeiros europeus. Entenda o que isso significa na prática e quais suas consequências para o sistema bancário russo.

Desde março passado, as sanções do Ocidente vêm prejudicando os maiores bancos russos – Sberbank, Gazprombank, Vnesheconombank, Bank Moskvi, VTB e Rosselkhozbank. Porém, com a nova rodada de sanções aprovada pela UE, as instituições financeiras russas perdem o acesso aos mercados de crédito, tanto europeus, como americanos, exceto em relação às obrigações de dívida a curto prazo.  Logo, surgem duas questões: que influência essas sanções terão no futuro sobre o setor financeiro da Rússia e que medidas é preciso tomar para reduzir as consequências negativas?

Consequências 

Para os anos 2014 e 2015, os principais fatores de risco são as elevadas quantias para pagamento da dívida externa e possíveis restrições em transferências interbancárias realizadas por bancos russos. A longo prazo, mostra-se necessário concentrar os interesses financeiros mais nos mercados de capitais asiáticos e dos países dos Brics do que nos ocidentais.

Os pagamentos da dívida externa – mais de US$ 60 mil milhões até ao final de 2014 – já começaram a influenciar a liquidez em moeda estrangeira e, indiretamente, a taxa de câmbio do rublo. Com o fechamento dos mercados financeiros ocidentais para as grandes empresas, os respetivos montantes deverão ser obtidos no próprio mercado interno. O mais provável é que as empresas com a presença de capital estatal elevado recebam a liquidez do Estado, de modo que as restantes comprarão moeda estrangeira no mercado, pressionando a taxa de câmbio do rublo.

A necessidade de apoiar as empresas estatais, associada à pressão do rublo, deve obrigar o Banco Central da Rússia a gastar parte das reservas internacionais. Caso essas reservas fiquem consideravelmente reduzidas, será quase inevitável o estabelecimento de um controle de câmbio. O nível atual das reservas internacionais russas é mais do que suficiente para manter a estabilidade do sistema financeiro durante os próximos dois anos. No entanto, é fundamental aproveitar esse período para entrar em mercados internacionais alternativos aos dos EUA e da UE. A imposição de atrair investimentos deve levar à reivindicação de construção de um Centro Internacional Financeiro, em Moscou.

Pela dinâmica das sanções, é possível perceber que os ativos russos no Ocidente estão em risco. Não há proibição oficial para uso do sistema SWIFT, porém, os reguladores que estão determinando seu funcionamento podem dar ordens aos bancos subordinados para não executarem transferências dos bancos russos submetidos às sanções. Essas medidas permitirão bloquear de fato o uso do sistema SWIFT para pagamentos, sem ter que excluir oficialmente os bancos russos do mesmo sistema – o que seria extremamente complicado de se fazer juridicamente. Foi o que aconteceu com os sistemas de pagamento Visa e MasterCard, fazendo com que o risco de bloqueio de transferências internacionais deixasse de ser meramente teórico, tornando-se uma ameaça real. 

A última, mas não menos importante, sequela das sanções foi a devolução de uma sensível parte dos ativos russos no estrangeiro para o Depósito Financeiro da Rússia. Por outro lado, talvez o projeto de construção em Moscou do Centro Internacional Financeiro desta vez ganhe vida, sobretudo porque alguns tipos de ativos devem permanecer na Rússia.

Esquema defensivo 

Os riscos relacionados com as sanções impõem uma elaboração de certos esquemas de transferências internacionais em uma outra moeda estrangeira que não seja o dólar norte-americano nem euro. É uma tarefa complicada, pois o rublo, na qualidade de moeda estrangeira de contrato, não é conveniente para compradores estrangeiros de matérias-primas russas, tanto devido à instabilidade de câmbio, como por causa de insuficiência de liquidez fora da Rússia. O yuan chinês é tampouco uma alternativa válido, pelo menos no futuro próximo. Talvez, o dólar de Hong Kong seja mais conveniente durante algum tempo, devido à sua ligação fixa ao dólar dos EUA, embora sua emissão seja feita fora da jurisdição dos Estados Unidos e da UE.

A necessidade de atrair investimentos nos mercados externos, diante do fechamento dos mercados ocidentais, incentivará a emissão de instrumentos de dívida do gênero de eurobonds, embora sem serem relacionados com os EUA nem com a UE. Por exemplo, pode ser iniciada a emissão de eurobonds dos Brics.

A atração de capitais no Ocidente estava condicionada aos custos mais baixos do que na Rússia. Agora, as sanções estão elevando os riscos de tal maneira que é preciso procurar soluções alternativas – mas a procura em si não será fácil nem difícil. Obviamente, será observado um aumento de custos (que já ultrapassou 2% desde o início das sansões) e, por conseguinte, acesso restrito a empréstimos na Rússia.

Tanto as próprias sanções, como as medidas russas contra as mesmas, podem desencadear a substituição de produtos importados pelos nacionais. No entanto, a primeira consequência desse processo será a alta de preços (além da qualidade mais baixa), o que vai acelerar a inflação. Por outro lado, sem limitar a importação, a substituição de mercado supracitada se torna impossível. A troca de sanções proporciona, assim, novas oportunidades aos produtores nacionais. Mas, se eles darão conta do recado, é outra história...

A criação de agências nacionais de classificação de risco será mais um efeito do mencionado processo no mercado russo. Claro que ainda faltaria muito até atingirem um nível equiparado às Big Four (PricewaterhouseCoopers, Deloitte Touche Tohmatsu, KPMG e Ernst & Young), mas é importante desenvolver rankings adequados para, entre outras coisas, aumentar a eficácia do trabalho dos reguladores. 

Previsões

Do ponto de vista de um cidadão comum, a consequência mais notável do programa de defesa contra as sanções será a implementação urgente de novos sistemas de pagamentos em substituição ao Visa e MasterCard. É provável que a alternativa seja UnionPay, da China, que pode ser inserido de modo mais fácil e rápido, além de mais outro sistema russo.

Para a diminuição de riscos em transferências bancárias, é possível a criação de um sistema de pagamentos próprio, semelhante ao SWIFT, mas totalmente independente. As principais complicações nessa área estão relacionadas não tanto com a elaboração do sistema, mas quanto à sua rápida implementação. A força do SWIFT se deve, em primeiro lugar, a sua onipresença. Propagar um sistema nacional no estrangeiro será bastante difícil, mas é bem possível obrigar os bancos a possuírem um sistema de pagamentos nacional. O mais provável é que o Banco Central da Rússia tome tal decisão.

Quanto à defesa do sistema financeiro russo contra as sanções, os efeitos de curto prazo serão os seguintes: diminuição de liquidez, sobretudo em moeda estrangeira, e aumento das taxas de crédito, o que levará a uma significativa estagnação do crescimento econômico. Nesse contexto, o rublo sofrerá uma forte desvalorização. Após a gradual adaptação às novas circunstâncias, o sistema financeiro russo deve se tornar mais estável em relação aos choques externos – embora o preço dessa estabilidade seja bem alto.

 

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