"Não podemos dizer que as sanções não afetarão empresas russas”

"A situação atual é relacionada com problemas estruturais da economia russa e com a falta de um clima de investimento favorável", diz Chôkhin  Foto: RG

"A situação atual é relacionada com problemas estruturais da economia russa e com a falta de um clima de investimento favorável", diz Chôkhin Foto: RG

O presidente da União Russa de Industriais e Empresários, ex-vice-primeiro-ministro da Rússia e um dos autores das reformas de mercado dos anos 90, Aleksandr Chôkhin, falou à Gazeta Russa sobre substituição de importações e reestruturação da economia nas condições das sanções mútuas na esteira do agravamento da crise na Ucrânia.

“Não podemos dizer que as sanções não afetarão empresas russas. Há duas áreas principais: a atração de recursos financeiros e de novas tecnologias. De acordo com alguns cálculos, a restrição de acesso a financiamento de longo prazo já afetou o custo de financiamento das empresas russas no mercado externo.”

Essa é a opinião do presidente da União Russa de Industriais e Empresários, ex-vice-primeiro-ministro da Rússia e um dos autores das reformas de mercado dos anos 90, Aleksandr Chôkhin, que conversou com a Gazeta Russa sobre este tema e outros envolvendo o cenário econômico atual do país.

Gazeta Russa - Vários economistas afirmam que a economia russa vai ganhar com as sanções através do desenvolvimento da substituição de importações. Essas expectativas são justificadas?

Aleksandr Chôkhin - Para muitos setores, especialmente para a agroindústria, aparecem novas possibilidades para "reconquistar" uma parte do mercado interno. O índice mensal de negócios da União Russa de Industriais e Empresários (RSPP, na sigla em russo) mostra aumento da demanda por produtos de empresas russas. Isso aconteceu por causa da desvalorização do rublo no início do ano e por causa das restrições às importações.

Em geral, o clima empresarial melhorou em comparação com os meses anteriores, embora ainda não tenha atingido um nível positivo: em agosto, o indicador estava em 49,6 pontos, quando a avaliação neutra é de 50 pontos. Além disso, a substituição de importações, especialmente na área de alta tecnologia, exige tempo, é impossível encontrar uma solução em apenas dois meses. No entanto, isso não significa que a Rússia pode esperar. É preciso começar a modernização das indústrias agora.

Como a instabilidade política ligada à crise ucraniana afetou os negócios russos? É possível dizer que a a Rússia está perdendo seus parceiros tradicionais?

Não podemos dizer que as sanções não afetarão empresas russas. Há duas áreas principais: a atração de recursos financeiros e de novas tecnologias. De acordo com alguns cálculos, a restrição de acesso a financiamento de longo prazo já afetou o custo de financiamento das empresas russas no mercado externo. A capitalização das empresas russas poderá diminuir de 15% a 20% em comparação com 16 de julho de 2014 (da queda do índice MICEX até 1250-1180 pontos).

É difícil avaliar as restrições sobre a exportação de tecnologias, mas provavelmente terá efeitos negativos sobre a modernização da economia russa a longo prazo. Temos parceiros que são forçados a congelar vários projetos, principalmente no setor de investimento. Durante os últimos dois anos a empresa estatal Rosnano e o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD) trabalharam na criação de um fundo de investimentos diretos. Os investimentos do BERD deveriam ultrapassar US$ 100 milhões. Na situação atual, é pouco provável que essas expectativas se tornarão realidade, o que afetará a atração de investimentos privados e o desenvolvimento de novas tecnologias.

No entanto, temos vários parceiros tradicionais que não planejam sair do mercado russo: Raiffeisenbank, Deutsche Bank, Morgan Stanley, Royal Dutch Shell,  BP, E.ON Ruhrgas AG, Scheneider Electric, Fortum Corporation, Philips, Nestle, Unilever, LG Electronics, entre outros.

Muitas empresas ocidentais temem que a Rússia vai se virar ao protecionismo e isolacionismo econômico. É possível dizer que a Rússia mudou suas prioridades de política econômica?

A comunidade empresarial russa interage ativamente com seus colegas estrangeiros, não podemos falar de isolacionismo. O apoio às empresas nacionais é uma prática normal para todos os países, desde que não contradiga as obrigações internacionais. O processo de adesão da Rússia à Organização Mundial do Comércio foi muito difícil e o país cumpre todas as obrigações. Temos que usar todas as oportunidades oferecidas pela OMC, devemos usar ativamente os instrumentos da organização na resolução de disputas comerciais, como, por exemplo, nos procedimentos antidumping.

Apesar da suspensão do processo da adesão da Rússia à Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), continuamos a implementar o plano de trabalho legislativo para que a legislação russa corresponda às normas da OCDE. Consideramos isso muito importante para as empresas russas e para empresas estrangeiras que operam na Rússia. 

O crescimento econômico continua a desacelerar. Quais são as razões e como o governo pode melhorar a situação?

A situação atual é relacionada com problemas estruturais da economia russa e com a falta de um clima de investimento favorável. O nível de imprevisibilidade nas decisões estratégicas é muito alto, mesmo quando tudo depende de órgãos governamentais e não de fatores externos. O nível de preocupação das empresas russas com a corrupção caiu, mas  esse problema continua a ocupar um dos 5 primeiros lugares no ranking de obstáculos para o desenvolvimento das empresas.

A Rússia não conseguiu eliminar todas as barreiras administrativas. No entanto, algumas regiões conseguiram criar um ambiente de negócios mais favorável do que o país em geral. Este ano, quatro principais associações empresariais russas, incluindo a RSPP e a Agência de Iniciativas Estratégicas, criaram o Ranking Nacional de Investimentos das Regiões da Rússia.

As regiões de Kaluzhskaia, Ulianovskaia e Kostromskaia, a República do Tartaristão e o Território de Krasnoiarsk ocupam os primeiros lugares nesse ranking. Em 2015, todas as regiões da Rússia serão avaliadas pelas associações empresariais.

A Rússia planeja melhorar os laços com os países-membros da União Aduaneira. O que isso significa para empresas estrangeiras e exportadores?

O estabelecimento da União Aduaneira da União Econômica da Eurásia cria novas oportunidades para empresas estrangeiras, sob a forma de um mercado de bens, serviços, capital e trabalho em expansão que funcionaria de acordo com as regras da Organização Munduial do Comércio.

Em 2013, a Rússia presidiu o G-20 e a RSPP presidiu o B-20. A União conseguiu estabelecer contatos com parceiros estrangeiros?

De acordo com os nossos colegas do B-20, a presidência da Rússia na organização foi um grande sucesso. Sem minimizar as conquistas dos predecessores, gostaria de observar que elaboramos mais de 140 propostas. Mais de 70 propostas foram incluídas nos documentos finais do G-20. Continuamos a colaborar estreitamente com os países do G-20.

O governo russo introduziu o programa de substituição de importação. Como a RSPP participa na elaboração desse programa?

Um dos problemas mais graves é a falta de pessoal qualificado. A RSPP está trabalhando na resolução desse problema. De acordo com dados de uma pesquisa realizada pela RSPP,  cerca de 70% das empresas russas estão enfrentando um déficit de trabalhadores qualificados. Sem mudanças radicais nesse setor, é impossível realizar o programa de substituição de importações.

Além disso, afirmamos que não é admissível aumentar a carga fiscal. Tentamos convencer o governo sobre a necessidade de promover o negócio, e não limitá-lo tirando o dinheiro para o orçamento.

 

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