Guerra moderna é econômica

Depois de sofrer sanções mais duras da UE e EUA, Rússia embargou produtos alimentícios como resposta. Importações deverão ser substituídas por países latino-americanos e asiáticos Foto: Aleksêi Nikólski / RIA Nóvosti

Depois de sofrer sanções mais duras da UE e EUA, Rússia embargou produtos alimentícios como resposta. Importações deverão ser substituídas por países latino-americanos e asiáticos Foto: Aleksêi Nikólski / RIA Nóvosti

Prejuízos causados por proibição de importações europeias serão da ordem de 12 bilhões de euros. Produtos devem encarecer de 5 a 10%.

Tudo começou com a reintegração da Crimeia, ainda em março deste ano. Depois de um referendo em que 96% da população da península se disse a favor da união à Rússia e da efetivação de sua reintegração, União Europeia e Estados Unidos reforçaram suas acusações de que o país interferia na soberania ucraniana e ameaçaram aumentar as sanções contra ele.

Durante meses, enquanto no leste ucraniano parte da população se rebelava contra a Ucrânia, as intimidações não tiveram eco na vida real. Mas a queda de um avião civil da Malaysia Airlines na região separatista em 17 de julho mudou o cenário. Depois de ucranianos e separatistas pró-Rússia se acusarem mutuamente pela queda da aeronave sem provas definitivas por semanas, as potências ocidentais finalmente levaram a cabo suas ameaças.
Fim da brincadeira

Ainda no final de julho, União Europeia, Estados Unidos e Japão listaram pessoas e empresas russas que seriam sancionadas. As empresas foram escolhidas a dedo: todas tinham alguma relação com a Crimeia. A corporação Almaz-Antei, por exemplo,produz equipamentos de defesa antiaérea para a proteção da península. A companhia aérea de baixo custo Dobrolet faz voos de Moscou para a capital da Crimeia, Simferopol, e o Banco Comercial Nacional da Rússia, que se tornou um grande player no mercado financeiro da península. O Japão, por sua vez, impôs sanções contra 40 pessoas e duas empresas responsáveis pela exploração e transporte de gás na península, a Chernomorneftegaz e a petrolífera Teodósia.

As sanções provocaram perdas. A Dobrolet, por exemplo, teve que encerrar seu funcionamento depois da proibição de que empresas europeias fizessem voos combinados com os da companhia. Todos os bens da Dobrolet na UE também serão congelados em breve.

O Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento também se recusou a financiar novos projetos na Rússia. “Só em 2013, o banco investiu US$ 2,5 bilhões em projetos russos”, conta o analista de macroeconomia, Vassíli Ukhárski. Entre seus projetos mais recentes na Rússia estão o financiamento de equipamentos agrícolas John Deere, assim como a renovação de sistemas de energia e de abastecimento de água.
Mas as sanções setoriais contra bancos e petrolíferas foram as que tiveram maior impacto. Três bancos russos foram incluídos na lista de sanções dos EUA: o Banco de Moscou, o VTB e Banco Russo da Agricultura.

Euro-obrigações

Os empréstimos a pessoas jurídicas ligadas a esses bancos e às próprias instituições foram proibidos. Em seguida, o Conselho da União Europeia aprovou medidas semelhantes contra os bancos Sberbank, VTB, Gazprombank, Banco para o Desenvolvimento e Assuntos Econômicos Exteriores e Banco Russo da Agricultura.

A esses, foi proibida a venda de ações e obrigações na Europa. De acordo com a agência financeira Cbonds, no momento, o VTB dispõe de euro-obrigações denominadas em várias moedas que somam o equivalente a US$ 16 bilhões, o Banco Russo da Agricultura, US$ 8 bilhões, e o Banco de Moscou, US$ 1,5 bilhão.
Além disso, as empresas europeias também estão proibidas de transferir para os russos equipamentos petrolíferos para grandes profundidades, o que dificulta a produção de hidrocarbonetos na plataforma ártica. A venda de instrumentos de perfuração, torres móveis, bombas de óleo, assim como plataformas flutuantes de perfuração.

Impacto de longo prazo

De acordo com a consultoria financeira Morgan Stanley, as sanções podem influir não só nas empresas listadas, mas também em todos os players ligados a esses setores da economia.
Um estudo do Deutsche Bank mostra ainda que, no curto prazo, as empresas financeiras e os produtores de gás russos serão as que mais sofrerão os efeitos das sanções, o que aumentará a fuga de capital e o custo de empréstimos para empresas russas.

“As atuais sanções contra a Rússia são uma forma da guerra econômica, e todas as partes terão perdas”, afirma o sócio-diretor da consultoria FinExpertiza, Aghvan Mikaelian.
Para a consultoria Oxford Economics, as sanções afetarão tanto a economia russa, como a global. Em particular, os analistas argumentam que, no caso de sanções mais severas contra a Rússia, que possivelmente incluirão o embargo ao transporte de petróleo e gás, os preços do petróleo poderão saltar para mais de US$ 200/barril.
Nesse cenário, o PIB da Europa poderá cair 3,5% até o início de 2015; o dos Estados Unidos, 3%; o do Japão, 2,4%; e o da Rússia, 10%. Para efeito de comparação, durante a crise financeira global em 2009, o PIB russo caiu 7,8%.

A Rússia anunciou um embargo a produtos alimentícios da União Europeia, Estados Unidos, Canadá, Noruega e Austrália. O Japão, apesar de ter aderido às sanções, não foi incluído na lista.
Entre os produtos atingidos estão a carne bovina e suína, aves e produtos derivados, embutidos e linguiças, leite e demais produtos lácteos, incluindo queijos, assim como peixe, legumes, tubérculos, frutas e nozes.
Indo às compras

Para contornar a falta de produtos básicos, a Rússia negocia com países latino-americanos e asiáticos a substituição dessas importações, mas ainda há receio de que os preços disparem devido à medida.

As medidas de resposta da Rússia devem afetar sobretudo a UE, a principal exportadora de alimento para o país. De acordo com o Instituto de Estudos Estratégicos Integrados, 31,5% da carne consumida na Rússia provém da Europa, assim como 42,6% dos laticínios e 32% das verduras.

“Para a UE o prejuízo pode chegar a 12 bilhões de euros, já que vendemos à Rússia cerca de 10% do que produzimos”, estima o representante da União Europeia em Moscou, Vygaudas Usackas.

Quem sai perdendo?

A Rússia também é fortemente dependente dessas importações. De acordo com o serviço de alfandegário, as importações de alimentos na Rússia atingiram os US$ 43,1 bilhões em 2013. Segundo o Instituto de Estudos Estratégicos Integrados, o país compra do exterior 70% de todas as frutas e cerca de 50% do leite em pó e queijo que consome.

Já as importações dos Estados Unidos, Canadá e Austrália, em geral de carnes, peixes, verduras e tubérculos, corresponde a uma pequena parcela das compras russas.

Mas o impacto negativo também deverá ser sentido do lado russo. Somente a Organização Mundial do Comércio poderá cancelar as restrições, e a Rússia deverá cumprir as decisões de arbitragem da entidade. Até lá, porém, haverá tempo para a substituição das importações.

Os principais candidatos para fazê-lo são fornecedores asiáticos e latino-americanos. Para tanto, o chefe do Serviço de Vigilância Fitossanitária da Rússia teve conversações com diplomatas de diversos países a respeito da ampliação de importações desses. Além disso, durante visita do presidente egípcio à Rússia, na semana passada, também se falou de um aumento de 30% das importações desse país.

“As prateleiras russas certemente não ficarão vazias. O único problema será o aumento dos custos de transporte, que serão incorporados ao preço final das mercadorias”, acredita o o chefe do departamento de Economia Regional e Geografia Econômica da Escola Superior de Economia, Aleksei Skopin Skopin. Segundo ele, o aumento dos preços deve ficar entre 5 e 10%.

 

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