Rússia pode deixar de receber bilhões de dólares devido a sanções no ramo petrolífero

Como observa a Fitch, as empresas russas ainda não dominam satisfatoriamente o emprego de alta tecnologia, por isso precisam de parcerias com empresas do Ocidente Foto: ITAR-TASS

Como observa a Fitch, as empresas russas ainda não dominam satisfatoriamente o emprego de alta tecnologia, por isso precisam de parcerias com empresas do Ocidente Foto: ITAR-TASS

A Rússia, que esperava ter um lucro de US$ 54 bilhões (cerca de 2 trilhões de rublos) com a extração adicional de petróleo nos próximos 20 anos, pode ter seus planos ameaçados pelas sanções impostas pelos Estados Unidos à indústria petrolífera do país, que limitam o fornecimento de equipamentos para a exploração de petróleo de difícil extração.

As restrições americanas são mais rigorosas do que as da União Europeia, que já tinha proibido o fornecimento para a Rússia de tecnologia para extração de petróleo em grandes profundidades, exploração da plataforma ártica e desenvolvimento das reservas de óleo de xisto, segundo informou o canal de televisão RBK. O Ministério do Comércio dos Estados Unidos restringiu o fornecimento de equipamentos para projetos a uma profundidade maior que 152,4 metros, enquanto nas sanções da UE o conceito de águas profundas não foi especificado.

A lista de equipamentos sujeitos ao controle de exportação no âmbito das sanções dos Estados Unidos quase coincide com a lista da UE e inclui, entre outras coisas, plataformas de perfuração, componentes para perfuração horizontal, equipamento de mergulho, equipamentos marítimos para trabalho no Ártico, software para fratura hidráulica, veículos submarinos operados remotamente e bombas de alta pressão.

As novas regras americanas também mencionam gás natural, diferentemente da União Europeia, que retirou os projetos de gás do alcance das sanções, dando a entender que as licenças para exportação de equipamento utilizado para projetos relacionados a gás serão analisadas caso a caso.

Especialistas acreditam que as sanções podem acelerar o declínio da produção dos campos de petróleo maduros da Sibéria Ocidental, segundo declarou a agência de classificação de risco Fitch. As reservas desses campos estão se esgotando e seu desenvolvimento complementar requer tecnologias avançadas, que estão sofrendo embargo da União Europeia e dos Estados Unidos.

As empresas petrolíferas russas ainda serão mantidas com o petróleo tradicional relativamente acessível por alguns anos. Mas o futuro da indústria petrolífera russa depende do desenvolvimento da exploração das fontes de petróleo de difícil extração no Ártico e em outros campos ao longo do litoral do país, bem como do desenvolvimento de campos maduros da Sibéria, que estão se esgotando.

Por enquanto, do volume total de 523 milhões de toneladas de petróleo produzidas na Rússia em 2013, cerca de 1 milhão de toneladas são de petróleo de difícil extração. No entanto, as reservas de hidrocarbonetos líquidos não convencionais são enormes. Segundo estimativas preliminares, elas podem chegar a 40 bilhões de toneladas. Até 2020, o Ministério da Energética esperava aumentar em 11% a participação do petróleo de difícil extração no volume total de extração. Foi estimado que durante todo o período de desenvolvimento do petróleo de difícil extração até 2032, as receitas do Estado seriam de 2 trilhões de rublos (US$ 54 bilhões dólares), com a produção adicional de cerca de 350 milhões de toneladas.

"Há muito tempo planejava-se compensar o declínio da produção dos campos de petróleo da Sibéria Ocidental pela produção de hidrocarbonetos de difícil extração, inclusive na plataforma ártica. No entanto, devido às sanções, o início da realização dos novos projetos nessa área pode ser adiado, reduzindo assim a velocidade de crescimento da extração de petróleo na Federação Russa", disse Elizaveta Belugina, chefe do departamento de análise da empresa de corretagem FBS.

Como observa a Fitch, as empresas russas ainda não dominam satisfatoriamente o emprego de alta tecnologia, por isso precisam de parcerias com empresas do Ocidente, que têm experiência na utilização de tais equipamentos. Um novo pacote de sanções pode dificultar essas parcerias. Atualmente, as empresas russas estão trabalhando em conjunto com as petrolíferas Total, ExxonMobil e Shell.

O desenvolvimento de tecnologia própria, e a busca de outros parceiros internacionais exigem tempo e custos financeiros consideráveis​​. Além disso, o impacto negativo se intensifica devido às restrições do Ocidente ao financiamento de longo prazo para empresas russas. "Nos próximos dois anos, a situação não irá causar problemas graves, mas visto que as sanções afetam precisamente os interesses estratégicos da Rússia, é necessário rever a política energética do país", resumiu Belugina.

"Por enquanto, podemos supor que o declínio da produção causará aumento do preço do petróleo, o que deve, em termos materiais, compensar um pouco do impacto negativo", sugeriu a analista.

"É provável que as empresas terão de utilizar equipamentos e técnicas de países do Pacífico asiático ou de produção russa, cuja qualidade não compete com os do Ocidente", disse ao serviço de notícias RBTH Grigori Birg, analista da Investkafe. No entanto, segundo ele, não se espera um impacto instantâneo das sanções sobre a extração, já que a maioria dos projetos de trabalho na plataforma continental e de desenvolvimento das reservas de difícil extração, nos quais empresas estrangeiras têm trabalhado com as russas, estão nos primeiros estágios de implantação.

É interessante notar que já existem casos especiais em que as empresas encontraram meios de contornar as sanções do Ocidente. A petrolífera estatal russa Rosneft, por exemplo, contornou a proibição da União Europeia de fornecimento de tecnologias e equipamentos por meio de um acordo com empresas da Noruega e da Suíça. A Rosneft receberá dos suíços uma divisão que trabalha com perfuração e reparação de sondas geológicas na Rússia e na Venezuela, e dos noruegueses receberá equipamentos de perfuração para extração de petróleo em plataformas marítimas, incluindo a do Ártico.

 

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