Rússia inicia embargo econômico em resposta a sanções

Foto: Aleksêi Danitchev / RIA Nóvosti

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Restrição à importação de produtos da União Europeia e EUA pode contribuir para aumento de preços no mercado russo.

Os países da União Europeia podem sofrer um prejuízo de 12 bilhões de euros devido ao embargo de produtos alimentícios que a Rússia impôs aos Estados que aderiram às sanções contra o país. Além da proibição da importação de produtos da UE, as medidas se aplicam também a uma série de produtos dos Estados Unidos, Canadá, Noruega e Austrália. O Japão não foi incluído na lista, embora também tenha aderido às sanções.

Os russos estão preocupados com a possibilidade de verem as prateleiras das lojas vazias e os preços dos produtos dispararem por conta do embargo. Muitos comerciantes estão confiantes de que seus negócios não serão afetados, já que os importadores de produtos poderão contornar as sanções e, além disso, a Rússia deve aumentar as importações da América do Sul e Ásia.

O embargo russo terá duração de um ano. Na lista dos produtos atingidos estão a carne bovina e suína, aves e produtos derivados, embutidos e linguiças, leite e demais produtos lácteos, incluindo queijos, bem como peixe, legumes, tubérculos, frutas e nozes.

Perdas para os importadores

A maioria das sanções de produtos alimentícios vai afetar a UE, cujos países são os principais exportadores de alimento para a Rússia. De acordo com o Instituto de Estudos Estratégicos Integrados (IKSI, na sigla russa), a Rússia compra da Europa 31,5% da carne, 42,6% de produtos lácteos e 32% dos legumes que consome.

"Para a UE o prejuízo pode chegar a 12 bilhões de euros, uma vez que a produção de alimentos representa cerca de 10% do que vendemos para a Rússia", estimou o representante da União Europeia em Moscou, Vygaudas Usackas, em entrevista à emissora de rádio Govorit Moskva (Fala Moscou).

Especialistas salientam que a Rússia também é fortemente dependente das importações. De acordo com o Serviço de Alfândega Federal, em 2013 as importações de alimentos na Rússia atingiam US$ 43,1 bilhões. Segundo o Instituto de Estudos Estratégicos Integrados, o país compra do exterior 70% de todas as frutas e cerca de 50% do leite em pó e queijo que consome.

Analisando separadamente o impacto do embargo nos países da UE, os mais dependentes das exportações de comida para a Rússia são a Letônia, a Lituânia, a Polônia e a Finlândia. Eles fornecem principalmente manteiga e queijo ao mercado russo. Por exemplo, a Finlândia direciona 41% da exportação de manteiga para a Rússia e tem também uma grande cota (47%) de fornecimento de peixe congelado. A Letônia e Lituânia enviam 43% das suas exportações de embutidos para o país, e vegetais, frutas e nozes da Polônia e da Lituânia têm boa parte de sua produção direcionada ao mercado russo.

Ainda de acordo com o Instituto de Estudos Estratégicos Integrados, na Alemanha, Itália, Reino Unido e Espanha somente alguns produtos específicos poderão vir a sofrer impacto com o embargo russo. O país responde por apenas 9% e 6% das exportações da carne congelada da Espanha e Itália, respectivamente, e por 6% das exportações alemãs de carne de porco e frutos secos.

No que diz respeito aos Estados Unidos, Canadá e Austrália, a Rússia também recebe desses países carne, peixe, legumes e tubérculos, mas o peso destas importações no volume total de vendas desses países é extremamente pequeno.

Risco de prateleiras vazias

O impacto negativo também deverá ser sentido do lado russo. O jornal “Kommersant”, com base em uma fonte do Kremlin, explica a lógica das sanções impostas. A Rússia enfrentará as restrições impostas pelo embargo da exportação de alimentos ao mesmo tempo em que o governo russo atua para impulsionar a substituição das importações por produção nacional. Somente a OMC (Organização Mundial do Comércio) poderá cancelar as restrições, e a Rússia pretende cumprir as decisões de arbitragem da entidade. Até lá, as disputas comerciais terão dado aos agricultores nacionais tempo para preencher os mercados carentes dos produtos exportados.

 

No entanto, especialistas acreditam que é improvável conseguir restabelecer rapidamente a produção interna russa e que o mais provável é que seja necessário encontrar novos fornecedores. "A Rússia não será capaz de preencher instantaneamente a demanda com produção nacional. Com uma política pública bem feita, será possível dentro de um ano garantir a substituição de 15 a 20% dos produtos embargados por produtos nacionais. Mas por enquanto a Rússia vai recorrer a outros fornecedores estrangeiros", disse ao serviço de notícias RBTH o chefe do departamento de Economia Regional e Geografia Econômica da Escola Superior de Economia, Aleksei Skopin.

Os principais candidatos para a substituição de importações são fornecedores da Ásia e da América do Sul, com o aumento de parcerias comerciais já existentes.

"As prateleiras das lojas russas com certeza não vão ficar vazias: a Turquia e os países da América Latina estão prontos para cobrir por completo o ‘vazio europeu’ que se formou. O único problema é o aumento dos custos de transporte, que serão incorporados ao preço final das mercadorias. Além disso, alguns novos produtos poderão ser de qualidade inferior aos dos europeus", acredita Skopin. Segundo ele, o aumento dos preços dos produtos agrícolas deve ficar entre 5 e 10%.

Empresários entrevistados pelo RBTH também confirmam que os preços dos alimentos vão subir. Representantes de pequenas empresas garantem que, diante de um potencial déficit temporário, os fornecedores podem, inclusive, aumentar os preços até mesmo dos produtos russos.

Mas existe uma opção: os produtos europeus poderiam permanecer nas prateleiras russas com outros rótulos. Segundo Dmítri Potapenko, da empresa Management Development Group, é possível que o fornecimento de produtos europeus continue a ser feito, mas apenas através de países da União Aduaneira, território aduaneiro único entre a Rússia, Belarus e Cazaquistão, onde não há taxas e restrições econômicas.

 

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