Gás produzido na Rússia será negociado na Bolsa de Valores

No novo formato, a produtora estatal Gazprom irá vender na Bolsa até 17,5 bilhões de metros cúbicos de gás por ano Foto: ITAR-TASS

No novo formato, a produtora estatal Gazprom irá vender na Bolsa até 17,5 bilhões de metros cúbicos de gás por ano Foto: ITAR-TASS

Para especialistas, negociação pode contribuir para a queda nos preços do combustível.

O gás será novamente negociado na Bolsa de Valores da Rússia, seis anos após a primeira experiência nesse sentido. O presidente Vladímir Pútin instruiu o governo a implantar até 25 de dezembro a negociação do gás na Bolsa Internacional de Commodities de São Petersburgo (Spimex, na sigla em inglês).

De acordo com o Ministério da Energia da Rússia, a ideia de recriar o comércio do gás natural é uma iniciativa da Spimex. Até o final do ano serão organizadas vendas à vista, terá início a formação de indicadores de mercado e, em seguida, serão lançados contratos futuros. 

A Rússia já havia tentado criar uma bolsa de gás há alguns anos. De 2006 a 2008, a Gazprom, empresa estatal de produção de gás, organizou pregões de gás na plataforma eletrônica Gazprom Mejregiongaz, em caráter experimental. No entanto, os pregões nessa plataforma não tiveram continuidade devido ao pequeno volume de negócios, apesar do anseio dos grandes consumidores desse combustível de aumentar a transparência dos preços. 

Novo mecanismo de preços

De acordo com a opinião dos especialistas entrevistados pela Gazeta Russa, a criação de uma Bolsa de gás é um indicador de desenvolvimento do mercado de commodities russo. A negociação de um rol cada vez maior de ativos de commodities no mercado acionário é basicamente positiva para a economia. Em primeiro lugar, isso significa que os fornecedores irão competir uns com os outros, o que sugere que no mercado será estabelecido um preço mais justo. Em segundo lugar, tanto os fabricantes como os consumidores poderão comprar e vender com antecedência a quantidade necessária de mercadorias a preços competitivos, bem como se proteger de eventuais alterações desses preços.

"Sem dúvida, o surgimento da negociação em Bolsa de contratos de gás é uma nova fase na história da Rússia", declarou Natalia Samoilova, chefe do departamento de análise da companhia de investimentos Golden Hills-Capital. De acordo com ela, há muito tempo o preço do gás nos Estados Unidos é definido exclusivamente através dos contratos da Bolsa e a Europa está se movendo gradualmente nessa direção.

Samoilova acredita que a criação da Bolsa pode garantir uma precificação mais transparente e essa é a principal condição que permitirá à Rússia consolidar a sua influência na região e atrair mais clientes europeus. "É na transparência da precificação, há muito desejada pela Rússia, que consiste o acesso ao mercado da UE. O mercado monopolizado da Rússia não era conveniente à Europa e a criação da Bolsa é um passo na direção exigida por ela", explica. Além disso, “quanto mais transparentes forem os preços do gás, mais fácil será para os países de trânsito calcular a tarifa adequada. Nesse caso, já estarão sendo aplicados mecanismos de precificação baseados no mercado", diz a especialista.

Por que o preço poderá cair?

A principal tarefa da Bolsa é criar um indicador de mercado do preço do gás, e isso só é possível diante da venda de um volume significativo do produto.

No novo formato, a produtora estatal Gazprom irá vender na Bolsa até 17,5 bilhões de metros cúbicos de gás por ano e os produtores independentes serão responsáveis por uma quantidade igual. Dessa forma, até 10% das vendas no mercado interno passarão pela Bolsa, o que já pode ser considerado um volume significativo. Um contexto de diminuição da demanda e de aumento de ofertas provenientes dos produtores independentes pode levar à redução dos preços do combustível.

Em toda a Rússia, 258 empresas de mineração extraem gás natural e gás associado ao petróleo. Entre elas estão 16 empresas da Gazprom, 2 empresas da Novatek (a maior produtora privada de gás), 140 empresas independentes de mineração, 97 empresas que fazem parte da estrutura das companhias petrolíferas verticalmente integradas (como Lukoil, Bashneft, Rosneft, Surgutneftegaz,) e três são empresas estrangeiras que trabalham em conjunto com a Gazprom, no âmbito do Contrato de Partilha de Produção.

Até hoje, o mercado interno russo continua a ser altamente dependente do setor externo de energia: independentemente da situação econômica do país, os preços do gás natural estão se aproximando rapidamente dos preços do produto exportado, descontando-se o componente do transporte. Um considerável papel é desempenhado pelo atrelamento ao dólar americano, que sob a influência dos acontecimentos na Ucrânia se fortaleceu significativamente em relação ao rublo. Mas, se no contexto das negociações em Bolsa se formarem indicadores de preço do gás não vinculados aos preços do petróleo, a comercialização será realizada não só em rublos, mas também em outras moedas e esse fato também poderá levar a uma redução dos preços do gás no mercado interno.

Os especialistas concordam que a abolição do monopólio do mercado irá desagradar a Gazprom. Ao mesmo tempo, isso é vantajoso para a Rosneft, petrolífera majoritariamente controlada pelo Estado, e para outros produtores independentes. Não é à toa que há muito tempo eles buscavam o retorno da comercialização do gás em Bolsa e agora conseguiram. A Gazprom não emitiu quaisquer comentários sobre a situação.

No entanto, os analistas duvidam que a criação da Bolsa de gás seja capaz de reduzir significativamente o impacto da influência da Gazprom. "Na realidade, ela se tornará uma formadora de mercado e praticamente a única vendedora", explicou Viktor Neustroev, analista sênior da Wild Bear Capital. De acordo com o especialista, em função disso, pouca coisa vai mudar no mercado. O mais provável é que os preços permanecerão no mesmo nível, tanto no mercado interno, como para os consumidores estrangeiros.

Além disso, uma série de especialistas acredita que existe grande probabilidade de que, considerando as tarifas sobre transporte, os preços praticados na Bolsa e em contratos de longo prazo serão iguais. 

 

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