Vkontakte, a rede social que virou política

Foto: ITAR-TASS

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Há três meses, a mais popular rede social do país perdeu seu carismático fundador e diretor, Pável Durov. Observadores se dividem sobre causas do ocorrido: enquanto uns atribuem a razões políticas, outros sugerem a existência de interesses próprios. Confira abaixo o histórico da empresa que supera o Facebook no mercado nacional.

O Vkontakte (VK) surgiu em 2006 e, em pouco tempo, conquistou o mercado nacional. Antes do seu lançamento, o estudante de São Petersburgo, Pável Durov, já havia criado o fórum spbgu.ru, que se tornou o lugar preferido de comunicação dos estudantes da Universidade Estatal de São Petersburgo. Mas ele queria construir uma rede mais complexa e maior.

O Facebook se desenvolvia rapidamente nos EUA, ainda não tivesse aberto cadastro livre e fosse praticamente desconhecido na Rússia. Na época, Durov observou atentamente o desenvolvimento da rede social americana e criou um projeto semelhante que lembrava o Facebook até nos mínimos detalhes. O primeiro investidor foi Mikhail Mirilashvili, pai do colega de classe de Durov.

Logo, o VK se tornou a rede social mais popular da Rússia. Com o tempo, as semelhanças com o Facebook diminuíram, e mais ideias próprias foram introduzidas. Uma delas foi o serviço musical que gerou muitos conflitos com titulares de direitos autorais ao permitir que os usuários trocassem livremente arquivos. Durov insistia não se tratar apenas de um recurso para aumentar visitas ao site, mas uma questão de princípio: “O método tradicional de venda de música está condenado ao fim”.

Seus princípios se manifestavam em outras decisões – na rejeição da monetização agressiva, no quadro reduzido de funcionários e na falta de disposição para bloquear pornografia. Por causa disso, em vez de simples administrador, Durov tornou-se uma figura de destaque, que tomava decisões ousadas e controlava todo o desenvolvimento do projeto.

Entretanto, o VK precisava de novos investimentos para seu desenvolvimento, e o Mail.ru Group, uma das principais empresas da internet russa, comprou 39,99% de participação na rede social. Quando a corporação sinalizou interesse de adquirir 100% da VK, Durov postou uma foto do seu dedo do meio no Instagram com a legenda: “Resposta oficial à holding-lixo Mail.ru sobre as atuais tentativas de incorporar o VK”.

Durov detinha apenas 12% do VK, de modo que precisava do apoio dos outros sócios para a realização das decisões mais ousadas. As relações com Viatcheslav Mirilashvili e seu amigo Lev Leviev, detentores de 48% da rede social, foi se deteriorando até, eventualmente, Durov os deletou de sua página no VK.

Na sequência veio a notícia de que Mirilashvili e Leviev estariam vendendo seus 48% ao fundo UCP, que antes não investia em projetos on-line. Mas logo foi descoberta uma relação indireta com o vice-premiê, Igor Sétchin, o que foi visto como a “mão do Kremlin” sobre a rede social.

Em agosto de 2013, Durov lançou o serviço de troca de mensagens Telegram. Como o  escritório do Telegram foi instalado em um espaço conectado ao do VK, bem como parte dos programadores foi para transferida para a nova empresa, a UCP declarou que o Telegram deveria pertencer a eles por utilizar ativos do VK.

Assim, Durov passou a dedicar cada vez menos atenção ao VK. A UCP queria destituí-lo do posto de diretor, mas os ex-adversários do Mail.Ru Group, ao contrário, queriam mantê-lo. Em janeiro deste ano, soube-se que o fundador da rede vendera a sua parte da empresa (que passou ao Mail.Ru Group), e, em 21 de março, pediu demissão.

Durov declarou esse fato publicamente no Dia da Mentira, em 1º de abril, fazendo com que muitos tomassem suas palavras por brincadeira, e depois de dois dias disse que havia decidido ficar no VK. Entretanto, os sócios optaram pelo contrário. O ex-diretor anunciou, então, que o VK havia passado “ao controle completo de Igor Sétchin e Alicher Usmanov” – comprovando a versão sobre a “mão do Kremlin” por atrás da UCP.

Segundo ele, a venda da sua parte do VK foi resultado de pressão do Serviço de Segurança Nacional (FSB), que exigia dados dos criadores de comunidades relacionadas à Euromaidan, na Ucrânia. Depois disso, Durov deixou a Rússia, afirmando que não havia sentido para voltar. Mas o que será da rede social no futuro?

Temporariamente administrado por Boris Dobrodeev e Dmítri Sergueev, o VK sofre com os diferentes posicionamentos dos seus acionistas: enquanto o Mail.Ru Group os quer como administradores permanentes, a UCP já se opôs a tal possibilidade. Ainda assim, segundo palavras e atitudes de ambas as partes, é possível supor algumas coisas.

No lugar de um brilhante rebelde, como Durov, virá um administrador tradicional, que não irá revirar a empresa de cabeça para baixo, mas tentará aparar as arestas. Enquanto Durov lutava pela livre distribuição da música e limitava duramente propagandas, o novo diretor deve buscar um diálogo construtivo com os titulares de direitos, anunciantes e autoridades.

 

Evguêni Trifanov é jornalista especializado em Tecnologia da Informação

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