Com fim de desconto russo, Ucrânia busca gás na Europa

O fornecimento de gás revertido da Eslováquia à Ucrânia está sendo planejado desde novembro de 2013 Foto: AP

O fornecimento de gás revertido da Eslováquia à Ucrânia está sendo planejado desde novembro de 2013 Foto: AP

De acordo com a declaração do Ministério da Energia da Ucrânia, em 2014, o país importará 15 bilhões de metros cúbicos de gás russo; os outros 35 bilhões serão compostos pelo gás revertido da Europa. Especialistas, no entanto, alertam para dificuldades.

Com o fim dos descontos da Gazprom para a Ucrânia, o preço do gás subiu para US$ 485 por mil metros cúbicos. As autoridades ucranianas esperam reverter a situação com as entregas feitas para a Europa: eles planejam comprar o mesmo gás enviado para outros consumidores europeus. Por enquanto, a gigante estatal russa Gazprom tem conseguido bloquear com sucesso tal solução.

De acordo com a declaração do Ministério da Energia da Ucrânia, em 2014, o país importará 15 bilhões de metros cúbicos de gás russo; os outros 35 bilhões serão compostos pelo gás revertido da Europa. Os trabalhos deste projeto tiveram início ainda com Victor Ianukovitch. Em 2012, a Ucrânia firmou contrato a respeito de gás reverso com a alemã RWE, provindo da Polônia, e em 2013, sobre aquele vindo da Hungria.

No entanto, os preços ainda estavam muito elevados –uma média de US$ 390 por mil metros cúbicos, que era cerca de US$ 100 mais caro do que o preço russo com os descontos. O contrato entre a Naftogaz e a RWE prevê acordos mensais adicionais sobre o preço e o volume das trasnferências de gás. Vale lembrar que o preço está realmente ligado àqueles praticados no mercado europeu.

Como resultado, a quantidade total de suprimentos de gás reverso vai de 2 bilhões de metros cúbicos para 6 bilhões possíveis. Agora, devido ao aumento dos preços do gás russo, a compra do gás europeu poderá ficar ainda mais rentável do que aquele da Gazprom. Nesta situação, as autoridades da Ucrânia se voltam para a Eslováquia: este país pode reverter para a Ucrânia até 30 bilhões de metros cúbicos por ano (de acordo com o Ministério de Energia da Ucrânia).

A exportação de gás reverso é tecnicamente possível. “Para que isso aconteça, um país pronto a fornecer uma oferta de gás reverso deve ter um excedente de gás local. Devido ao fato de que os contratos com a Gazprom estarem no regime ‘take and pay’, é possível encontrar excedentes em muitos países”, afirma o analista-chefe da UFS IC Ilia Balakirev.

Ao abrigo desse esquema, o país comprador deve pagar uma parte da entrega total feita, não importando o volume de gás comprado. Assim, surgem os excedentes nos países compradores –incluindo a Eslováquia. Por outro lado, é improvável que o governo eslovaco possua reservas físicas de gás.

“Na Eslováquia, não há encanamentos adicionais que permitiriam o país organizar uma exportação reversa. Os gasodutos existentes estão cheios de gás russo, fornecido alguns anos atrás através de um acordo entre a Gazprom e o operador Slovak Eustream”, diz o especialista chefe da empresa Finan Management, Dmítri Baranov.

Assim, talvez o discurso oficial se refira ao chamado reverso virtual. O professor-assistente da RANEPA Ivan Kapitanov falou à Gazeta Russa que os mostradores das estações de gás mostram certos volumes de gás supostamente enviados para a Europa que na realidade eles já estava lá antes.

“Dessa forma, não há reservas técnicas, mas uma seleção de gás para a Ucrânia a partir de gasodutos russos”, afirma o especialista. A Gazprom, pela lei, pode se recusar ao pagamento do trânsito deste gás, e a Ucrânia não quer perder esta renda, por isso denomina o esquema de reverso.

Veto da Gazprom

O fornecimento de gás revertido da Eslováquia à Ucrânia está sendo planejado desde novembro de 2013, por iniciativa do então presidente Victor Ianukovitch, mas a decisão foi vetada pela Gazprom. Desde então, a posição da empresa não mudou. Em entrevista a um dos maiores canais russo, o “Russia 24”, em abril, um dos diretores do consórcio, Aleksêi Miller, questionou a legalidade da reversão do gás para a Ucrânia. De acordo com Ilia Balakirev, a maneira mais eficiente seria uma rejeição da fórmula “take and pay” e a apresentação de descontos para a Eslováquia –a fim de que a formação de reservas se torne antieconômica.   

A companhia Eustream já divulgou uma declaração em que diz que o fornecimento reverso de gás à Ucrânia sem o consentimento da Gazprom é impossível. Apresentou o mesmo ponto de vista ao jornal ucraniano “Delo” o vice-primeiro-ministro dos Negócios Estrangeiros da Eslováquia, Miroslav Lajcak. Um representante da Eustream também explicou à agência Reuters que a reversão do fornecimento de gás através de quatro gasodutos de gás russo pela Eslováquia quebra termos do contrato com a Gazprom.

A Comissão Europeia compartilha dessa posição. Além disso, para começar uma reserva de gás para reversão física é preciso melhorias na infraestrutura de transporte, ressalva o representante. A solução seria construir um novo gasoduto que permita a real reversão.

A Eustream está pronta para investir na construção de um gasoduto que permita tecnicamente trasnferir gás reverso para a Ucrânia, que vai custar até 20 milhões de euros –algo que os ucranianos não tem. O pagamento pela obra está pronto pela Eslováquia, mas apenas se a Ucrânia garantir a compra do gás. As empresas europeias temem que a Ucrânia não possa pagar pelo gás revertido. Desde 3 de abril, o montante da dívida da Naftogaz do gás comprado era de US$ 2,2 bilhões, de acordo com a Gazprom.  

 

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