Sanções econômicas podem aumentar importação de carne brasileira na Rússia

A maior parte da carne processada presente nas prateleiras dos supermercados russos compõe-se de produtos nacionais Foto: AP

A maior parte da carne processada presente nas prateleiras dos supermercados russos compõe-se de produtos nacionais Foto: AP

Por conta da reunificação da Crimeia, Moscou se prepara para possíveis sanções da Otan e quer diversificar fornecedores de alimentos.

Com o objetivo de se preparar para as possíveis sanções econômicas e a consequente perda dos atuais fornecedores dos Estados-membros da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), as autoridades de Moscou recentemente realizaram uma análise da situação no mercado local de alimentos. Segundo Aleksêi Nemeriúk, diretor do Departamento de Comércio e Serviços, a possível perda dos fornecedores dos países-membros da aliança atlântica obrigaria as redes de varejo a sair em busca de outras fontes de abastecimento, principalmente de produtos como frutas, carne suína e carne bovina. Conforme informações fornecidas pelo departamento, Moscou pretende estreitar laços comerciais com os países do Brics para evitar uma crise de desabastecimento.

"Os primeiros comunicados da Otan que citam possíveis sanções econômicas nos estimularam a avaliar a carteira de nossos fornecedores", explica Nemeriúk. "A colaboração com os países do Brics é uma solução que ajudaria a evitar a interrupção do abastecimento alimentar da cidade de Moscou", acrescenta. 

Além disso, o diretor ressaltou a importância de "relações comerciais satisfatórias" com os Estados do grupo de países emergentes e afirmou que a população de Moscou não sofre da falta de alimentos.

A aplicação de sanções econômicas por parte dos atuais fornecedores teria consequências principalmente nos mercados de carne e de frutas frescas.  De acordo com informações do Departamento de Comércio e Serviços, as empresas moscovitas importam 67% de toda a carne vendida na cidade, dos quais 40% vem dos países-membros da Otan.

"A maior parte da carne processada presente nas prateleiras dos supermercados russos compõe-se de produtos nacionais, porém estes são produzidos por equipamentos importados preparados para receber apenas a matéria-prima estrangeira", afirmam representantes do departamento. Atualmente Moscou abriga seis fábricas de processamento de carne, e cada uma delas depende de importações em algum grau.

Representantes do Departamento de Comércio e Serviços afirmam que atualmente 20% de toda a carne bovina vendidas na capital russa vêm do Brasil. "Ao contrário de alguns países, o Brasil poderá se beneficiar da atual crise política", explicam especialistas do departamento. "Caso as sanções sejam aplicadas, nós pretendemos mudar a geografia da nossa busca por fornecedores, focando na região da América do Sul."

Enquanto a localização de novos vendedores de carne suína e bovina está sendo definida, algumas unidades federativas da Rússia, assim como a república da Bielorrússia, já foram escolhidas como possíveis fornecedores da carne de frango.

Serguêi Iúchin, diretor do Comitê Executivo da Associação Nacional das Empresas de Carne (ANC), explica que apesar de as empresas processadoras de carne do país dependerem das importações, a perda de uma parte de fornecedores não trará grandes problemas.

"Há cerca de 45 dias deixamos de receber carne suína dos Estados-membros da União Europeia, tais como a Lituânia e a Polônia, devido a alguns casos de peste suína africana registrados nestas regiões", lembra Serguêi Iúchin. "No entanto, não houve nenhuma catástrofe. Atualmente os preços atacadistas deste produto são 15% inferiores do que no segundo semestre de 2012, exceto o toucinho, cujo valor subiu significativamente", explica.

Segundo o especialista, as processadoras moscovitas poderão aumentar o volume de importação da carne brasileira, deixando de estabelecer parcerias com os produtores indianos e chineses devido às doenças de animais e péssimas condições sanitárias na maioria das indústrias alimentícias destes países.

Para Iúchin, a imposição de um embargo sempre afeta ambas as partes, portanto, além das importadoras e consumidores russos, as possíveis sanções econômicas atingirão grandes empresas "importantes para a Otan", assim como os "agricultores, que têm poder de voto".

Frutas e laticínios

Segundo estatísticas do Departamento de Comércio e Serviços, 85% das frutas frescas vendidas nos supermercados de Moscou são importadas, sendo que 50% vêm dos Estados-membros da Otan, tais como Espanha, Polônia e Holanda. Na opinião dos especialistas, a agricultura nacional não será capaz de satisfazer a demanda por estes produtos devido às condições climáticas desfavoráveis para o cultivo de grande parte desses vegetais, portanto, seria necessário o estabelecimento de parcerias comerciais com outros países.

Já o fornecimento de laticínios não deve enfrentar problemas. "Conforme os resultados de pesquisas da União das Indústrias Lácteas, o aumento do volume de importações da Bielorrússia será capaz de compensar a redução na quantidade de produtos recebidos de outros países. Podemos enfrentar algumas dificuldades apenas com a manteiga, já que uma parte significativa deste produto é fornecida pela Nova Zelândia", explicam os representantes do departamento.

Eles também afirmam que os produtos ucranianos não farão falta no mercado moscovita por motivo de "baixo desenvolvimento da agricultura ucraniana nos últimos anos" e, consequentemente, pela quantidade mínima de mercadoria ucraniana oferecida nas redes varejistas de Moscou.

Representantes do departamento afirmaram ainda que as negociações referentes ao estabelecimento das novas parcerias comerciais cabem ao governo federal.

Na opinião de Nikita Masslennikov, diretor do departamento de Economia do Instituto das Tendências Modernas de Desenvolvimento, as empresas moscovitas podem ainda aumentar o volume de suas importações vindas dos países da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), tais como Uzbequistão, Tadjiquistão, Moldávia e Azerbaijão. A indústria agrária da Geórgia também oferece uma grande variedade de opções para o mercado consumidor de Moscou, até agora não usufruídas. "Acredito que os agricultores destes países estão começando a aumentar as suas safras. É uma reação normal de qualquer produtor à presente situação", explica Maslennikov. 

No entanto, o especialista não apoia a importação de frutas e legumes da China, membro do Brics, devido à "constante violação das normas sanitárias". 

 

Publicado originalmente pela Izvéstia

 

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