O dote da Crimeia

Antes do referendo sobre a adesão da Crimeia, a Rússia prometeu investir US$5 bilhões na infraestrutura da região Foto: Serguêi Savostianov

Antes do referendo sobre a adesão da Crimeia, a Rússia prometeu investir US$5 bilhões na infraestrutura da região Foto: Serguêi Savostianov

Ativos da Crimeia podem ser transferidos para a Rússia, mas o país precisará fazer investimentos em vários setores na região.

O Parlamento da Crimeia já anunciou a sua intenção de nacionalizar as empresas estatais ucranianas situadas na península. No entanto, para seu bom funcionamento, será preciso gastar bilhões de dólares – entre US$ 4 e 5 bilhões, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento Econômico da Rússia, que acredita que no futuro a Crimeia será uma região rentável e seus moradores terão um alto padrão de vida.

No início de 2014, no registro dos bens estatais e dos direitos corporativos da região, foram listadas cerca de 300 empresas da Crimeia e de Sevastopol, parte das quais pertence ao Estado. Mas muitas dessas empresas estão enfrentando uma crise, como uma companhia de construção naval de Feodosia, que ficou perto da falência diversas vezes devido a dívidas com funcionários e fundos sociais.

 Na verdade, apenas um pequeno número de empresas, cujo valor total poderia ultrapassar US$ 2 bilhões, é a atração principal da Crimeia. De acordo com a revista “Forbes”, a empresa Chernomorneftegaz, que supre quase todas as necessidades de gás na península e tem planos de aumentar a produção, vale sozinha mais de US$ 1 bilhão.

Em breve, a empresa participará de um leilão, e o comprador mais provável é a companhia russa Gazprom. Mas a situação do sistema energético ainda não está definida. Em 2013, o governo ucraniano anunciou planos de privatização de centrais de aquecimento das empresas Kamish-Burunsk e Simferopol. Cerca de 37%  da parte estatal das companhias deveria ser vendida em leilão,  por US$ 26 milhões, em um só pacote.

O Parlamento da Crimeia também prometeu nacionalizar as empresas de vinhos da região, onde 18% de todos os vinhos e espumantes produzidos são destinados à exportação para a Rússia. Esses ativos são bastante caros. “Os próprios equipamentos e a construção de fábricas não custam muito,  o mais caro talvez seja o estoque  das fábricas de produção final ou de insumos para o vinho, junto com as vinhas, pertencentes a essas fábricas”, comentou o representante da União de Produtores e Enólogos da Rússia, Leonid Popovitch, à rede de televisão russa RBK. Segundo suas estimativas, o valor total das vinhas da Crimeia pode exceder US$ 250 milhões. 

Mas especialistas acreditam que a vinicultura também precisará de investimentos. De acordo com um dos fundadores da União de Sommeliers da Rússia, Artur Sarquisyan, a legislação russa, que em breve entrará em vigor na Crimeia, não foi configurada para promover a indústria de vinho. Apesar disso, o especialista considera que as empresas locais têm potencial, pois o clima e o solo permitem criar um bom produto. “Por exemplo, os vinhos fortificados do tipo Massandra há tempos são conhecidos por sua qualidade”, disse o especialista.

Antes do referendo sobre a adesão da Crimeia, a Rússia prometeu investir US$5 bilhões na infraestrutura da região, com recursos vindos de fundos públicos e de investidores privados. O montante inclui projetos de infraestrutura básica, como a reconstrução da estrada Kherson- Kerch, com investimentos no valor  estimado de US$ 1,4 bilhão, a construção da ponte sobre o estreito de Kerch, cuja construção custará pelo menos US $ 1,5 bilhão, bem como a reconstrução de portos e aeroportos e a modernização de ferrovias.

Segundo especialistas, bilhões de dólares em investimentos serão necessários não só para o setor de infraestrutura, como também para empresas estatais, que poderiam ser nacionalizadas. De acordo com Volodymyr Omelchenko, diretor do programa de energia  do centro ucraniano de Razumkov, para ser autossuficiente no setor energético, a Crimeia precisa de investimentos de longo prazo de US$ 5 bilhões. Esse dinheiro é necessário para o aumento da produção de gás, a renovação de usinas antigas e instalação de novas, que funcionariam com fontes alternativas de energia.

Algumas indústrias poderão se tornar um recurso valioso para a Rússia não só por causa de investimentos, mas graças aos possíveis clientes russos. A fábrica Fiolent, por exemplo, que produz equipamentos de radio-navegação e de eletricidade, será capaz de cooperar com as Forças Armadas e empresas civis russas.

Na área turística, não está claro o destino da maioria dos resorts da Crimeia, que ainda pertencem ao Estado ucraniano. A famosa colônia de férias Artek não está mais sob o controle de Kiev. No entanto, esse acampamento, junto com outras pousadas locais, exige muitos investimentos, uma vez que se encontra em mau estado.  De acordo com cálculos do Ministério do Lazer da Ucrânia, feitos no outono passado, a modernização completa de apenas um resort custará cerca de US$ 6 milhões. No final de 2013, metade dos 128 resorts da península controlados por Kiev necessitava de obras. Se todos eles se tornassem russos, seriam necessários gastos da ordem de US$ 400 milhões. Se houver fundos suficientes para o investimento, a Crimeia com seu clima suave, beleza natural e lugares históricos poderá atrair muitos turistas.

 

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