Investidores estrangeiros retornam ao mercado de ações russo

Não é a primeira vez que o mercado financeiro russo se depara com a alta volatilidade provocada por um aumento das tensões políticas externas Foto: AP

Não é a primeira vez que o mercado financeiro russo se depara com a alta volatilidade provocada por um aumento das tensões políticas externas Foto: AP

Durante as duas primeiras semanas de março, a crise na Ucrânia derrubou os índices das ações russas. No entanto, no dia seguinte ao referendo da Crimeia, os indicadores da bolsa já demonstraram crescimento e, em dois dias, recuperaram um total de 7%. Especialistas comparam os eventos atuais com a crise de 2008 e acreditam que dinâmica positiva será mantida.

Ao longo das duas últimas semanas, os fundos de ações estrangeiros que investem em ações russas registraram uma entrada líquida de recursos no valor de 340 milhões de dólares. Para efeito de comparação, de janeiro passado a 1° de março, os fundos haviam registrado uma saída líquida de recursos no valor de 425 milhões de dólares. A reversão teve início após o Conselho da Federação (senador russo) autorizar o presidente russo Vladímir Pútin a enviar tropas russas para a Crimeia.

Um quadro análogo foi observado em relação aos fundos mútuos que investem em ações russas. “Desde o início de março, os fundos mútuos de ações russos atraíram 196 milhões de dólares. Também observamos um afluxo nos fundos de títulos russos”, destaca Oleg Poddimnikov, chefe de operações de investimento do Lanta-bank”.

O dinheiro está retornando à Rússia graças aos especuladores ansiosos em lucrar com os títulos russosque ficaram mais baratos. “Os clientes americanos já começaram a caçar ofertas vantajosas na Rússia. Alguns estão à procura de uma oportunidade de comprar ações, cujos preços encontram-se em um nível mínimo, e outra parte está interessada na possibilidade de conceder empréstimos para as empresas russas”, afirma Vladimir Osakovskii, do Bank of America Merrill Lynch.

A atuação ativa de investidores americanos foi confirmada pela própria Casa Branca. A agência de notícias Reuters noticiou, na quarta-feira passada (19), que Jay Carney, porta-voz da Casa Branca, exortou as empresas americanas a não comprarem ações russas no contexto de deterioração política associada com a integração da Crimeia ao país. Segundo Carney, a incorporação da região terá impacto negativo na economia russa e que o país sofrerá prejuízos em resultado das sanções.

“Os investidores estrangeiros estão comprando as ações russas por causa de sua acentuada depreciação, que ocorreu no âmbito do conflito geopolítico, na esperança de um crescimento significativo no futuro”, explica Serguêi Nekrasov, analista da MFX Broker, acrescentando que isso não será possível se forem impostas sanções econômicas mais rigorosas contra a Rússia.

O estrategista da JPMorgan, Nikolaos Panigirtsoglu, defende, contudo, que o mercado está levando em consideração que as sanções contra a Rússia permanecerão simbólicas e não serão tão severas como as limitações econômicas impostas ao Irã, por exemplo.

Recuperação à vista

Não é a primeira vez que o mercado financeiro russo se depara com a alta volatilidade provocada por um aumento das tensões políticas externas. Na história da Rússia houve, no mínimo, mais um episódio que traz alguma semelhança com o atual. A condução de ações militares no território da Ossétia do Sul e na Abecásia, em agosto de 2008, é exemplo disso.

“A reação do mercado foi semelhante em relação a muitos parâmetros”, lembrou Maksim Petronevich, vice-diretor do Centro de Previsões Econômicas do Gazprombank à Gazeta Russa. A desvalorização atual do rublo girou em torno de 1,9%, enquanto, em agosto de 2008, chegou a 2,8%. “Na situação atual, a queda dos índices da bolsa foi mais acentuada - 12% contra 6,5%. Isso está relacionado ao fato de que cerca de 80% do gás russo exportado para os países da UE é transportado pelo território da Ucrânia, bem como, à maior expansão dos negócios russos", explicou Petronevich.

De acordo com Igor Susin, especialista sênior do Centro de Comportamento Econômico (TSEP, na sigla em russo), após o envio de tropas adicionais para o território do leste da Ucrânia, os investidores temiam sanções muito mais severas da parte dos EUA e da UE, bem como o desenrolar de uma guerra comercial em grande escala. “Mas isso não aconteceu. Os EUA e a UE limitaram-se às sanções focadas em pessoas físicas específicas e que não ameaçam a economia ou as finanças do país como um todo”, esclarece Susin.

Também com base na experiência de 2008, os especialistas preveem uma recuperação rápida do mercado. "Considerando os sinais recebidos dos políticos, é possível esperar uma normalização gradual da situação, apesar de que a cautela nos mercados financeiros irá persistir. E se supormos que o paralelo histórico com os eventos de 2008 é válido, então o mercado irá recuperar as perdas com suficiente rapidez e retornará aos seus níveis estáveis”, concluiu Petronevich.

 

Publicado originalmente pelo Vzgliad

 

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