Kremlin herda orçamento deficitário da Crimeia

Nos últimos anos, a península dependeu fundamentalmente da Ucrânia Continental Foto: Serguêi Savostianov/RG

Nos últimos anos, a península dependeu fundamentalmente da Ucrânia Continental Foto: Serguêi Savostianov/RG

Governo calcula investimentos de até US$ 5 bilhões anuais para modernizar infraestrutura e equiparar benefícios sociais.

Na segunda-feira passada (17), enquanto o governo russo ainda se preparava para assinar o acordo de integração sobre a adesão da Crimeia ao país, quase 400 milhões de dólares foram enviados para a região. E isso é apenas o começo.

De acordo com as previsões de diferentes especialistas e fontes do governo, o valor total dos gastos com a Crimeia poderá ser de 3 a 5 bilhões de dólares ao ano. O montante inclui não só o pagamento de benefícios sociais, mas também transferências para compensar o déficit orçamentário e as despesas com infraestrutura, incluindo fornecimento de energia, água e combustível e até a construção de uma ponte no Estreito de Kerch.

Nos últimos anos, a península dependeu fundamentalmente da Ucrânia Continental. De acordo com o deputado do Conselho Supremo da Crimeia, Leonid Pilunskii, a região possui independência financeira de apenas 34% e, ao longo de 2014, mais da metade da receita orçamentária de US$ 580 milhões seria garantida por subsídios de Kiev.

O ministro do Desenvolvimento Econômico russo, Aleksêi Uliukaev, reconheceu também a necessidade de ajuste dos valores dos pagamentos das pensões e de outros benefícios sociais aos padrões russos, cuja diferença chega a quase 2,5 vezes.

Cerca de 200 mil funcionários estão empregados no setor público da Crimeia e, segundo os dados de fevereiro da Agência Federal de Estatísticas da Ucrânia, o salário médio convertido para rublos é de 12,5 mil rublos (340 dólares). Como na Rússia esse indicador é quase três vezes maior (800 dólares), será preciso US$ 1,4 bilhões anuais para equiparar os salários.

Reforma geral

O setor de infraestrutura também exigirá grandes investimentos da Rússia. “Será necessário construir linhas de transmissão através do Estreito de Kerch para garantir o fornecimento de energia”, lembra Aleksandr Khurudji, presidente do conselho das Organizações de Redes Territoriais. Pelas estimativas, cerca de US$ 490 milhões deverão ser investidos para garantir a potência adequada.

Além dos gastos urgentes com infraestrutura, haverá necessidade de recursos complementares para os grandes projetos de desenvolvimento da península, incluídos em uma lista elaborada pela Missão Comercial da Rússia na Ucrânia e que chegam a quase 5 bilhões de dólares.

“Esses investimentos se tornarão um impulso para o crescimento econômico, se levarmos em conta que o volume da economia da Crimeia é atualmente avaliado em apenas 10 bilhões de dólares”, diz o analista da FC AForex, Narek Avakian.

Entre as principais iniciativas figuram a reconstrução da autoestrada entre Kherson e Kerch (com custo estimado em US$ 1,4 bilhões) e projetos relacionados aos portos marítimos de Evpatoria, Feodosia, Kerch e Ialta, cujo custo total se aproxima de 1,8 bilhões dólares.

A lista apresenta ainda a construção de instalações de turismo, agricultura e uma via de transporte para a travessia através do Estreito de Kerch, que exigirá um montante estimado em 1,2 bilhões de dólares.

Regime fiscal

Para reduzir a carga sobre o orçamento russo, a península deverá receber um status fiscal especial semelhante ao que existia de 1994 até 2007 entre o Tatarstão e o governo central. Em vez do padrão de 15%, o Tatarstão retinha 50% do IVA (imposto sobre o valor acrescentado) recolhido e dos impostos especiais sobre o álcool, petróleo e automóveis de passeio, para o financiamento dos Programas de Metas.

No entanto, o Serviço Federal Tributário se recusou a comentar a possibilidade de aplicar um regime análogo na Crimeia. “A transição para as regras russas de cobrança de impostos e para um sistema unificado de relações monetárias e de crédito pode levar entre 9 e 12 meses”, sugere o diretor de finanças públicas internacionais da agência de classificação de risco Fitch, Vladímir Redkin.

 

Com material dos veículos RBC Daily e Vzgliad

 

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