Moscou justifica ações para “evitar repetição de crises”

Políticos ocidentais alertaram que o desejo de Moscou em proteger os seus interesses na Ucrânia não ficará sem consequências e ameaçaram o país com sanções Foto: AFP/East News

Políticos ocidentais alertaram que o desejo de Moscou em proteger os seus interesses na Ucrânia não ficará sem consequências e ameaçaram o país com sanções Foto: AFP/East News

Instabilidade na Ucrânia cria ameaça de colapso do sistema administrativo e focos de conflito em áreas próximas à Rússia. Apesar de Ocidente ameaçar com sanções, autoridades russas mantêm posição para garantir segurança dos locais e interesses na região.

De acordo com o presidente do Comitê da Duma para os Assuntos Externos, Aleksêi Puchkov, embora os veículos internacionais estejam focando no papel da Rússia, o principal problema na Ucrânia está nas relações de Kiev com as regiões do sudeste do país. “Após a revolução, as novas autoridades deveriam ter se ocupado com a consolidação do país, implementação da ordem e resolução dos problemas econômicos. Mas eles fizeram exatamente o contrário”, alega.

O primeiro decreto das autoridades foi a demissão ilegítima do presidente Viktor Ianukovitch, a eliminação do estatuto da língua russa como língua regional, a declaração do estado de ilegalidade dos combatentes das forças especiais antidistúrbios Berkut, que defendiam a ordem em Kiev, além das declarações sobre uma possível “limpeza” dos adversários políticos e a prontidão em assinar um acordo de associação com a União Europeia, ao qual se opõe o sudeste do país.

Também nada vem sendo feito para conter os abusos dos radicais vindos da Ucrânia Ocidental, cujas suas milícias, sob o pretexto de “controlar a lei e a ordem”, praticam atos violentos nas ruas das cidades ocidentais e centrais, ameaçando seguir para a Crimeia.

“Moscou não poderia assistir calmamente aos processos destrutivos na vizinha Ucrânia”, defende a presidente do Conselho da Federação, Valentina Matviienko, justificando que é preciso “garantir a segurança tanto da Frota do Mar Negro, como dos cidadãos russos”. Mas a senadora garante que isso não significa arrancar da Ucrânia a região sudeste e anexá-la à Rússia.

“Por enquanto ninguém está falando em nenhuma invasão em larga escala à Ucrânia – a recente decisão do Conselho da Federação apenas abre a Vladímir Pútin essa porta mas não o obriga a começar a intervenção”, explicou àGazeta Russa o conselheiro para a Política Externa e Defesa da Rússia, Fiódor Lukianov. Segundo ele, a recente decisão tem caráter de conversação e simbólico, mostrando que o Kremlin está pronto para considerar todas as opções. 

A mesma opinião é compartilhada pelo vice-diretor dos programas de pesquisa do Conselho de Política Externa e Defesa da Rússia, Dmítri Suslov.  “Moscou quer, desse modo, exercer pressão sobre o Ocidente, e demonstrar o desacordo com o status quo implementado em Kiev. Precisamos que seja criado em Kiev um governo de unidade nacional que represente todas as regiões da Ucrânia, incluindo a sudeste”, afirma.

Motivação tripla

As discussões sobre a intervenção das tropas russas e o apoio político maciço às autoridades da Crimeia que se rebelaram contra Kiev se explicam não apenas com o desejo de fazer pressão sobre o Ocidente, sugerem os especialistas. 

Após a elite política do leste do país ter se rendido às novas autoridades de Kiev, Moscou quis deixar claro para os moradores locais que eles podem se manifestar sem as ameaças da repressão ou de linchamento por nacionalistas ucranianos. 

Como resultado, bandeiras russas foram agitadas em Donetsk, Lugansk e Kharkov, e as autoridades locais decidiram realizar um referendo para conferir poderes adicionais aos conselhos regionais.

Parlalemanente, os políticos ocidentais alertaram que o desejo de Moscou em proteger os seus interesses na Ucrânia não ficará sem consequências e ameaçaram o país com sanções. “Mas Moscou está pronta para ir até o fim, porque se recusa a colaborar com os radicais”, disse à Gazeta Russa o cientista político russo, professor da Escola Superior de Economia, Dmítri Evstafev.

O Kremlin também entende que se conseguir se manter no limiar, e não dar início a uma invasão em larga escala, “o Ocidente não terá verdadeiros instrumentos para exercer pressão. Se Moscou se render e concordar com o status quo em Kiev, isso será uma derrota geopolítica colossal para a Rússia e para Pútin pessoalmente”, explica Suslov.

Lukianov também sustenta que a liderança russa sentiu-se tentada a “resolver a questão ucraniana, porque talvez no Kremlin tenham decidido que os custos associados com a implementação desse cenário sejam menores do que a repetição de crises”.

 

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