Bielorrússia vai extraditar diretor-geral da russa Uralkali

Canais de venda de potássio foram motivo de desavença entre empresas dos dois países Foto: Kommersant

Canais de venda de potássio foram motivo de desavença entre empresas dos dois países Foto: Kommersant

Vladislav Baumgertner foi preso em Minsk e feito refém na disputa entre os dois países. Especialistas acreditam que, ao chegar na Rússia, executivo será libertado, mas a intriga em torno dos ativos de potássio terá continuidade.

A primeira rodada da disputa em torno dos ativos de potássio travada entre a Rússia e a Bielorrússia está concluída. A Procuradoria Geral da Bielorrússia decidiu entregar à Rússia o diretor-geral da empresa de potássio russa Uralkali, Vladislav Baumgertner,  preso em agosto passado.

O principal motivo da prisão foi o fato de um pequeno grupo de altos executivos ter supostamente concentrado todas as vias de venda externa de potássio e afastado o lado bielorrusso desse processo. Ao mesmo tempo, alguns veículos de imprensa russos apontam a postura intransigente do presidente bielorrusso, Aleksandr Lukachenko, que se recusa a vender à empresa russa a  BielorusKali buscando investidores internacionais.

Antes do conflito, a Uralkali e a Belaruskali eram aliadas e vendiam seus produtos por meio da Belarus Potash Company (BPC). No final do ano passado, o lado bielorrusso deixou a aliança, depois de o presidente Lukachenko ter anulado, por um decreto presidencial, o direito exclusivo da BPC de vender externamente o potássio.

Com o início do processo de dumping dos preços do potássio, a Uralkali alterou sua estratégia, deixou de vender seus produtos através da BPC e aumentou o volume de vendas em detrimento dos preços. “De fato, a decisão da Uralkali significava o início de uma guerra de preços. Outras empresas do gênero, principalmente brasileiras e indianas, seguiram o exemplo da Uralkali, produzindo um impacto negativo sobre os preços do cloreto de potássio”, diz Vasíli Iakimkin, do Grupo FIBO Group.

A disputa provocou um declínio acentuado nos preços FOB Baltic do cloreto de potássio padrão de US$ 400 por tonelada em julho passado para os atuais US$ 305. No segundo trimestre do ano, os fertilizantes fosfatados DAP também apresentaram uma queda de preços. Os fabricantes responsabilizaram a Uralkali. Pelas estimativas da vice-diretora do departamento de análise da empresa Alpari, Daria Gelânnova, a novela da prisão do diretor-geral da Uralkali fez o mercado do potássio cair US$ 20 bilhões.

Para possibilitar a entrega de Baumgertner à Rússia, Moscou mudou o proprietário da Uralkali. O grupo Onexim, um dos maiores fundos de investimentos russos controlado pelo bilionário e político Mikhail Prôkhorov, se mostrou interessado em adquirir a participação de 21,75% (avaliada em US$ 3,7 bilhões) do maior acionista da produtora de fertilizantes e o 20º empresário mais rico da Rússia no ranking da revista “Forbes”, Suleiman Kerimov. O valor da transação não foi divulgado. Para Gelânnova, ele será calculado com base na capitalização da empresa avaliada em US$ 20 bilhões.

“A extradição do diretor-geral da Uralkali à Rússia tornará a situação mais construtiva e acabará com a chantagem direta por parte da Bielorrússia”, afirma o analista da Zerich Capital Management Oleg Dúchin. No entanto, isso não significa necessariamente que Moscou tenha perdido a disputa. Essa novela vai ter fim só depois de a Belaruskali ter seu futuro decidido. Como a Rússia está interessada em tomar a empresa sob seu controle, a novela não terá fim enquanto isso não acontecer, acredita Kostantin Símonov, presidente do Fundo Nacional de Segurança Energética.

"A Rússia resgatou Baumgentner feito refém em Minsk e cumpriu a exigência de Lukachenko de mudar o maior acionista da Uralkali. Na Rússia, Baumgentner será colocado na cadeia por pura formalidade e será solto em pouco tempo. Mas a trama está apenas começando", disse o especialista à Gazeta Russa. Símonov não duvida que Lukachenko perdeu ao aceitar a candidatura de Prókhorov como novo maior acionista da Uralkali.  Enquanto Karimov usava o dinheiro emprestado, Prókhorov irá investir seus próprios capitais. "Depois de se desfazer de seus ativos produtivos (empresa Polius Zoloto), Miklhail Prókhorov ficou com muitos ativos não produtivos. Sem conseguir grandes êxitos na política, o bilionário entediado decidiu testar seus limites no setor de mineração", disse Dúchin.

Com avultados recursos não comprometidos disponíveis, Prókhorov dará muito mais problemas a Lukachenko. “Ele vai continuar a política de dumping e torcerá os braços de Lukachenko para obrigá-lo a vender a Belaruskali”, acredita Símonov.

A Belaruskali é um ativo muito atrativo. Juntas, as duas empresas podem controlar 40% do mercado mundial. Se o novo acionista for capaz de unir as duas empresas, a Belaruskali e a Uralkali, ele terá a possibilidade de fixar os preços no mercado mundial. Outro dia Lukachenko disse estar defendendo o ressurgimento do cartel de potássio composto pela Belaruskali e a Uralkali.

“Ele sonha em fazer com que os preços voltem a atingir US$ 900 por tonelada, mas o trem já partiu. Os preços anteriores não voltarão mais”, diz Vasili Iakimkin.

Konstantin Simonov acredita que somente o controle de um ativo permite falar sobre a integração, o resto são "conversas ocas". “Acredito que, se a Rússia obtiver o controle sobre os principais ativos da Bielorrússia, terá menos dificuldades em resolver os problemas políticos com Lukachenko”, disse o especialista.

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