Sôtchi-2014 bate recorde de gastos em Olimpíadas

Sôtchi-2014 enfrentou sérios desafios de engenharia, que foram superados a um custo considerável Foto: Mikhail Mordassov/Focus Pictures

Sôtchi-2014 enfrentou sérios desafios de engenharia, que foram superados a um custo considerável Foto: Mikhail Mordassov/Focus Pictures

Jogos de Sôtchi serão os mais caros da história, superando os US$ 44 bi de Pequim-2014. Custo de Londres-2012 ficou abaixo do estimado, em US$ 13,2 bilhões.

Se o Brasil está se debatendo com problemas de infraestrutura para receber eventos internacionais, tente imaginar as próximas Olimpíadas de Inverno, que serão realizadas em uma região subtropical. Palmeiras enfeitam a Vila Olímpica de Sôtchi, enquanto 450 mil metros cúbicos de neve são mantidos em um depósito, para o caso de o sol derreter a camada de neve que cobre as pistas onde acontecerão as provas, a partir de 7 de fevereiro.

A cidade litorânea de Sôtchi, no sul da Rússia, quase não tinha instalações esportivas quando o presidente russo Vladímir Pútin conquistou a delegação do Comitê Olímpico Internacional, em 2007, e venceu a concorrência para sediar os Jogos Olímpicos de Inverno.

Sua localização, em uma área relativamente pouco desenvolvida do país e onde o clima é semelhante ao do Rio Grande do Sul, explica, em parte, por que os jogos de Sôtchi-2014 estão se tornando os mais caros da história.

Pútin calculou gastar US$ 12 bilhões nos preparativos de Sôtchi-2014, mas o orçamento já alcançou os US$ 46 bilhões, financiados sobretudo pelo governo e empresas estatais. O valor supera os US$ 44 bilhões gastos nas instalações de Pequim-2008, e faz com que os US$ 14 bilhões dos jogos de Londres pareçam uma quantia pequena. 

Sôtchi-2014 enfrentou sérios desafios de engenharia, que foram superados a um custo considerável. A área onde foi instalada a Vila Olímpica de Sôtchi, por exemplo, costumava ser um pântano. Além disso, estradas e ferrovias para locais remotos tiveram de ser construídas antes mesmo do início das obras das instalações esportivas. Uma nova ferrovia proporciona conexão em 30 minutos entre as duas zonas da competição, o Cluster Costeiro e o Cluster de Montanha. 

As arenas do Cluster Costeiro estão a uma curta distância uma da outra, e os atletas vão ficar a apenas cinco minutos de distância da Vila Olímpica. A outra Vila Olímpica, no Cluster de Montanha, que irá sediar as competições de esqui, snowboard e bobsleigh, fica a 15 minutos das demais instalações para as competições.

Enquanto o maior país do mundo se gaba de receber as Olimpíadas mais caras do mundo, outro número dá um tom nostálgico à ocasião: Sôtchi-2014 será a 22ª Olimpíada de Inverno, assim como os Jogos Olímpicos de 1980, em Moscou, foram a 22ª Olimpíada de Verão.

Desta vez, porém, a chama olímpica retorna a um país diferente, que vê Sôtchi-2014 como uma oportunidade de apresentar ao mundo a nova cara da Rússia.

Corrupção na raiz

Os problemas crônicos do país com a corrupção levaram a especular sobre o valor dos recursos voltados à construção que teriam sido desviados para contas bancárias no exterior. 
Também há controvérsia sobre o que fazer com as 11 instalações da competição depois que os jogos chegarem ao fim. A maior arena, o Estádio Olímpico Fisht, não será palco de eventos esportivos durante os jogos – será utilizado somente por ocasião das cerimônias de abertura, encerramento e apresentações de medalhas. 

Após as Olimpíadas, o estádio de US$ 600,5 milhões, cujo nome homenageia o monte homônimo, que pode ser visto através da cobertura transparente da arena, será o local de treinamento e partidas para a seleção nacional de futebol. Ele também receberá alguns jogos da Copa do Mundo de 2018.

Um projeto para redistribuir o que restar das Olimpíadas é desmontar três arenas de Sôtchi após os Jogos e realocá-las em outras cidades. Mas o plano é incerto, já que as autoridades não entram em acordo sobre o destino das instalações. 

É provável que permaneçam em Sôtchi e se tornem parte de uma academia de esportes de inverno para crianças. Independentemente da decisão sobre o futuro das instalações, as Olimpíadas estão proporcionando a Sôtchi uma rara oportunidade de melhorar sua infraestrutura e renovar as instalações turísticas da época soviética.

Sôtchi tem uma longa história como destino tanto de férias de verão como de inverno. Ao longo dos últimos anos, porém, a cidade perdeu terreno para praias e resorts de esqui do Mediterrâneo. Agora, os Jogos Olímpicos representam uma nova oportunidade para Sôtchi atrair turistas e criar uma nova marca para si.

Como os russos veem

O balneário compartilha com Londres pontos de vista semelhantes. Uma pesquisa realizada pelo instituto de pesquisa Centro Levada em agosto revelou que 65% dos russos veem Sôtchi-2014 como um “desperdício de dinheiro”. Antes de Londres-2012, 64% dos britânicos também disseram à BBC que os Jogos Olímpicos eram caros demais. Mas, apenas quatro meses após as Olimpíadas, 80% dos britânicos já consideravam as despesas com o evento como “dinheiro bem gasto” – uma conquista que a Rússia pode ter dificuldade de alcançar, levando em conta os custos astronômicos de Sôtchi-2014.

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