Chuvas elevam vendas de açúcar brasileiro à Rússia

A Rússia tem capacidade produtiva para processar o açúcar bruto. Para tanto, conta com mais de 70 empresas herdadas da ex-União Soviética Foto: PhotoXPress

A Rússia tem capacidade produtiva para processar o açúcar bruto. Para tanto, conta com mais de 70 empresas herdadas da ex-União Soviética Foto: PhotoXPress

Mudanças climáticas em setembro ajudaram a derrubar produção diária russa de açúcar em mais 8%.

A indústria açucareira da Rússia ficou entre a cruz e a espada. Por um lado, o rápido crescimento da produção nacional e a baixa dos preços contribuíram para a diminuição do interesse dos investidores pelo setor. Por outro, as fortes chuvas em muitas regiões do país em setembro impediram a colheita. Como resultado, muitas usinas de açúcar estão ociosas. 

“Devido à falta de matéria-prima, sete usinas de açúcar estão paradas: três na unidade federativa de Bélgorod e outras quatro nas de Kursk, Penza, Krasnodar e Karatchaiev-Tcherkássia. A produção diária de açúcar caiu mais de 8%, chegando a 32 mil toneladas. Desde o início da temporada, produziu-se cerca de 990 mil toneladas de açúcar de beterraba, contra o 1,24 milhão de toneladas no mesmo período de 2012”, disse à Gazeta Russa uma fonte da União de Fabricantes de Açúcar da Rússia. 

Histórico promissor

A produção russa de açúcar atingiu seu ápice na temporada de 2011/12, quando atingiu mais de 5 milhões de toneladas. De acordo com um dos principais especialistas do ICMA (Instituto de Conjuntura do Mercado Agrícola), Evguêni Ivanov, mesmo que as chuvas parem nos próximos dias e o inverno atrase, em2013/14, a Rússia poderá produzir no máximo 4,3 milhões de toneladas de açúcar, e menos de 3,5 milhões de toneladas, caso o cenário seja o mais adverso.

“A baixa tradicional dos preços entre agosto e outubro começou muito mais tarde e foi menos substancial do que nos anos passado e retrasado. Se as perdas de safra forem grandes, a alta dos preços, que se inicia tradicionalmente em novembro e dura até julho, começará mais cedo e será muito maior”

O ICMA calcula o consumo interno de açúcar nesta temporada de comercialização em 5,45 milhões de toneladas. O saldo entre a produção e o consumo terá de ser coberto com as importações, principalmente do Brasil, segundo o especialista. 

Fatores como logística, sazonalidade e tradição fazem com que o Brasil predomine nas importações russas de açúcar bruto. “As importações de açúcar bruto provenientes do Brasil, Guatemala, El Salvador, Cuba e Tailândia cobrirão as necessidades do país entre fevereiro e abril de 2014”, diz Ivanov. 

Devido a medidas de proteção e apoio à indústria açucareira nacional tomadas pelo governo, desde o final dos anos 1990 a produção russa de açúcar de beterraba quadruplicou, crescendo todos os anos, exceto na temporada de 2009/10, quando sofreu uma desaceleração devido às adversidades climáticas. Ao mesmo tempo, ampliaram-se as áreas semeadas de beterraba sacarina.

A Rússia tem capacidade produtiva para processar o açúcar bruto. Para tanto, conta com mais de 70 empresas herdadas da ex-União Soviética.

Segundo estudo especializado do ICMA, a capacidade produtiva disponível permite processar até 8,8 milhões de toneladas de açúcar bruto de beterraba e até 8,5 milhões de toneladas de açúcar bruto de cana.

Com o aumento da produção interna, o país reduziu drasticamente as importações de açúcar. Enquanto na temporada de 2004/05 o país importou mais de 3,5 milhões de toneladas de açúcar bruto e 671 mil toneladas de açúcar branco, em 2011/12, esse número caiu para 419 mil toneladas de açúcar bruto e 284 mil toneladas de açúcar branco. 

Aumento necessário

Na próxima temporada de comercialização, porém, a Rússia terá que aumentar a importação de açúcar bruto para 720 mil toneladas e a de açúcar branco para 390 mil toneladas, mesmo que o cenário interno seja otimista, disse o representante do ICMA. 

Os preços do açúcar no país também subirão, apesar da grande oferta do produto no mercado mundial. 

O superávit global de açúcar é estimado em 4,7 milhões de toneladas, de acordo com analistas da consultoria especializada Kingsman SA. 

Atualmente, os preços russos estão sob pressão da nova safra e são significativamente mais baixos do que em 2010, quando o país foi atingido por uma forte seca. Eles são, porém, mais altos do que no ano passado e nos anos anteriores. 

“A baixa tradicional dos preços entre agosto e outubro começou muito mais tarde e foi menos substancial do que nos anos passado e retrasado. Se as perdas de safra forem grandes, a alta dos preços, que se inicia tradicionalmente em novembro e dura até julho, começará mais cedo e será muito maior”, acredita Ivanov. 

Mercado sazonal

A produção e o consumo de açúcar na Rússia são sazonais. O açúcar de beterraba é produzido principalmente entre setembro e novembro. O de cana, entre março e julho. 

O maior consumo costuma ser registrado no verão e no quarto trimestre, e se refere ao varejo - cerca de 45%. A tradição de se fazer conservas com frutas do próprio pomar é forte na Rússia, razão pela qual as donas de casa compram açúcar em grandes quantidades. 

A adesão da Rússia à OMC (Organização Mundial do Comércio) não teve impacto negativo direto sobre o regime de importação de açúcar. Cinco fabricantes dominam mais de 50% do mercado interno: Prodimeks, Rusagro, Razguliai, Sucden e Cargill.

Para o analista do FIBO Group, Vassíli Iakímkin, as mudanças deste ano serão benéficas para o setor, que sofre com a queda nos preços. “Em 2012, os preços da matéria-prima seguiram uma tendência de baixa. Muitos produtores colheram mais de 10 toneladas por hectare e não conseguiram vender sua safra para as usinas. Isso levou à redução da área de plantação da beterraba sacarina ”, disse.

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