Hora de reciclar a mentalidade

Cada vez mais países exigem que madeira russa seja certificada Foto: flickr.com

Cada vez mais países exigem que madeira russa seja certificada Foto: flickr.com

Consumidores russos vêm mostrando grande interesse e demanda por embalagens ecológicas. Porém, de acordo com pesquisa divulgada nesta semana pela gigante mundial de embalagens Tetra Pak, o país ainda está classificado na base do ranking dos 11 grandes mercados em termos de reciclagem. Enquanto responsabilidade ambiental é paulatinamente enraizada na sociedade russa, exportação de matéria-prima para países desenvolvidos estimula iniciativas de manejo florestal.

Para identificar o comportamento em relação à reciclagem e embalagens ecológicas, a Tetra Pak conduziu pesquisas pela internet com 7 mil consumidores em 11 países. Mais de três quartos dos consumidores russos afirmaram ter comprado um produto com embalagem ecológica, apesar do custo ser superior aos seus semelhantes. Esse índice foi maior que em países desenvolvidos como Japão, Reino Unido e EUA.

Porém, em relação à reciclagem, a Rússia ficou em penúltimo lugar entre os 11 países envolvidos na pesquisa, ficando à frente apenas da África do Sul. Enquanto pouco mais de 50% dos russos afirmaram que separam itens para reciclagem, as taxas no Brasil, China e Índia foram 84%, 97% e 93%, respectivamente.

“Os consumidores nos Brics [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul] são muito abertos e realmente compreendem a importância dos produtos ecológicos. Esses são os nossos mercados de maior crescimento”, disse o vice-presidente da Tetra Pak, Charles Brand, ao “The Moscow Times”. “A dificuldade não vem dos consumidores. O problema maior é encontrar a melhor maneira possível de reciclar.”

De acordo com Andrêi Ptítchnikov, chefe do Conselho de Manejo Florestal da Rússia (CMF), a Rússia apresenta menor desenvolvimento da reciclagem em comparação aos outros países do Brics, porque tem uma menor densidade populacional, de modo que sempre houve muito espaço para o descarte de lixo. Outro obstáculo importante é o fato de o governo russo não ter programas para promover a indústria da reciclagem.

“Não há vontade nem desejo de trabalhar nessa área”, diz Ptítchnikov. “As empresas de reciclagem que trabalham com lixo na Rússia são entusiastas; elas só têm entre 3 e 4% de lucro, no máximo”, acrescenta.

Proteção florestal

Enquanto os russos adquirem aos poucos hábitos ecologicamente corretos, os ambientalistas afirmam que os consumidores ocidentais podem levar os produtores de embalagens a garantir que os recursos naturais russos por eles utilizados sejam explorados de forma mais sustentável​​.

A relação entre a mentalidade ecológica dos consumidores no exterior e as práticas sustentáveis de extração de recursos ​​na Rússia é particularmente forte no setor da engenharia florestal. Aproximadamente dois terços da madeira russa são exportados, a maior parte para a Europa. Além do fornecimento de matérias-primas, os europeus também obtêm benefícios ecológicos das florestas russas.

Paralelamente, as florestas russas têm uma importante função no controle do clima. “As florestas absorvem mais dióxido de carbono do que é liberado no local e, assim, agem como um ‘acumulador global’ do composto em nome de outros países”, explica Ptítchnikov.

“O maior problema da engenharia florestal russa não é o volume de exploração, uma vez que a área total de floresta não está encolhendo”, comenta o ambientalista. Os problemas, segundo ele, surgem com práticas ilegais de exploração. O desmatamento nas regiões de Arkhanguelsk e Irkutsk, por exemplo, deixa o solo desprotegido e menos capaz de reter a umidade, levando à desertificação. “É aí que os europeus podem usar seu poder de consumo para influenciar a forma como as florestas são manejadas na Rússia”, completa.

Floresta sustentável

O Conselho de Manejo Florestal (CMF) é uma organização não governamental que emite certificados comprobatórios de práticas sustentáveis ​​de manejo florestal a empresas madeireiras e seus clientes. O reconhecimento global do logo do CMF – o emblema de uma árvore verde impresso nas embalagens de produtos certificados – é de 19%, mas apenas 9% dos consumidores russos conhecem a marca.

“Nosso desafio é aumentar o nível de reconhecimento junto ao consumidor”, diz Marcelle Peuckert, diretor de desenvolvimento de negócios na sede do CMF em Bonn. “Nós nunca tivemos uma perspectiva internacional sobre o que precisamos dizer sobre nós mesmos. O manejo florestal é um assunto incrivelmente complexo, transmitir isso ao consumidor é realmente desafiador.”

Apesar do baixo nível de reconhecimento do CMF na Rússia, o número de certificados que qualificam empresas florestais emitidos pelo escritório local continua crescendo até 60% ao ano, em grande parte porque os consumidores ocidentais exigem a certificação ecológica, e os fornecedores instalados na Rússia precisam seguir esse padrão para manter a competitividade.

“Os europeus­ estão influenciando efetivamente as práticas florestais na Rússia”, afirma Ptítchnikov, acrescentando que as locais empresas estão sendo obrigadas a fornecer produtos certificados e de acordo com as normas internacionais. “Isso significa que eles devem começar a fazer coisas que não faziam antes, como proteger a biodiversidade e diminuir o desmatamento excessivo”, completa.

A exportação de madeira aumentou após a adesão da Rússia à Organização Mundial do Comércio, uma vez que a transação passou a ficar 2,5 vezes mais barata. Hoje em dia, os compradores de países menos desenvolvidos, incluindo o Egito, também passaram a exigir que a madeira russa seja certificada pelo CMF.

 

Publicado originalmente pelo Kommersant

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