Introdução de Basileia 3 pode levar à consolidação

Especialistas acreditam que a adoção de Basileia 3 na Rússia pode desencadear onda de consolidação Foto: PhotoXpress

Especialistas acreditam que a adoção de Basileia 3 na Rússia pode desencadear onda de consolidação Foto: PhotoXpress

Novas regras bancárias devem desencadear a consolidação entre bancos russos, uma vez que pequenas e médias instituições financeiras terão que se adaptar para cumprir as novas regras. A mudança também pode conceder aos bancos estrangeiros uma nova porta de entrada para o país.

Por lei, a partir de 1° de janeiro de 2014, os credores russos devem adotar os padrões internacionais Basileia 3. Vladímir Klimov, proprietário de um pequeno banco nos Urais, luta para manter seus negócios durante todo o ano. Para cumprir, o banco de Klimov deve levantar um capital adicional que não possui.

O jovem aspirante a banqueiro diz que já recorreu a diversas soluções, mas sobraram apenas duas opções: vender o banco a um investidor endinheirado por um pouco mais do que o valor de seu capital, ou vender a sua base de clientes e devolver a sua licença bancária ao Banco Central. “A venda será o menor de dois males”, lamenta Klimov.

A adoção de Basileia 3 na Rússia, que obriga os credores a elevar a razão de capital para aumentar a transparência e evitar potenciais crises bancárias, pode desencadear uma onda de consolidação, uma vez que proprietários de pequenos e médios bancos ficarão propensos a vender seus negócios em vez de enfrentar as novas regras.

Como Basileia 3 está sendo introduzida na Rússia

Neste verão, a presidente do Banco Central, Elvira Nabiúllina, anunciou que a Rússia iria introduzir as exigências de Basileia 3 ao mesmo tempo que a UE e os EUA, no início de 2014. Sob a liderança de Nabiúllina, o Banco Central decidiu aliviar parcialmente os requisitos para os bancos russos: os requisitos para ações ordinárias serão fixados em 5%, os bens de capital em 5,5% (com um aumento para 6% a partir de 1° de janeiro de 2015) e o capital agregado em 10%.

“Ao contrário dos sistemas bancários na Europa e os EUA, a estrutura de ativos do setor bancário [da Rússia] continua a ser relativamente básica, sem grande dependência do capital bancário sobre os instrumentos de capital híbrido. E, por outro lado, as estruturas de balanço são provenientes do mercado de derivativos financeiros”, explica Mikhail Nikítin, analista de crédito do VTB Capital.

“A capitalização é maior nos bancos russos do que nos europeus. Considerando a maior volatilidade da economia russa e o ritmo de crescimento do setor bancário, os nossos bancos precisam ser mais forte para corresponder ao nível de risco”, comenta Svetlana Pávlova, analista na agência de classificação de risco Moody.

A mudança também pode criar uma nova oportunidade para bancos estrangeiros de abocanhar novos ativos na Rússia, garante Mikhail Kuzmin, diretor-executivo do Centro para Pesquisa Econômica.

“Muitos pequenos e médios bancos não estão preparados para essa transição”, explica Víktor Tchetvérikov, diretor-geral da Agência Nacional de Classificação. “Eles fazem empréstimos a mutuários e projetos com fraco desempenho, ao contrário dos grandes bancos que gozam de financiamento e taxas de empréstimo baratas.”

Após a queda da União Soviética, os  bancos pequenos começaram a brotar em massa na Rússia, e os bancos estrangeiros correram para entrar no país com variados graus de sucesso. Hoje em dia, embora muitos dos jogadores menores tenham persistido, o cenário é dominado por dois gigantes nacionais.

O Sberbank, uma encarnação revitalizada do banco nacional de poupança da União Soviética, é responsável por quase metade dos depósitos de varejo do país. O VTB24, ex-banco de comércio exterior soviético, responde por cerca de 7,3% dos depósitos de varejo do país e tem alcançado progressos significativos como um banco de investimento.

Porta de entrada

Os bancos internacionais, como o americano Citibank, o austríaco Raiffaissen e o italiano UniCredit, conseguiram estabelecer grandes operações na Rússia. Mas outros jogadores globais tiveram maior dificuldade em entrar no país.

O britânico Barclays adquiriu o Expobank em 2008, mas vendeu a empresa por um valor inferior ao preço de compra durante a crise financeira subsequente. O também inglês HSBC recuou suas operações de banco de varejo na Rússia, em 2011, como parte de uma reorganização internacional em grande escala, depois de apenas dois anos de esforços no país.

“Grandes bancos globais ainda à procura de um ponto de entrada para a Rússia poderão tirar proveito da situação atual, já que bancos regionais rentáveis buscam compradores”, diz Pável Lóguinov, presidente do conselho administrativo do Metcombank.

De acordo com a legislação russa, os bancos estrangeiros não podem abrir filiais diretamente no país, mas estão autorizados a manter subsidiárias que pertencem integralmente a tais instituições, tornando a aquisição uma opção atraente em comparação com qualquer iniciativa de começar do zero.

Muitos grandes bancos russos também disseram estar enfrentando dificuldades em obter liquidez antes da aplicação das novas regras. Segundo a agência internacional de classificação Fitch, quatro dos maiores bancos da Rússia em termos de ativos enfrentarão escassez de capital – incluindo VTB, Alfa Bank, NOMOS Bank e Rússki Standart –, assim como outras 20 instituições de médio porte.

No entanto, os maiores bancos vai ser ajudado por seus acionistas, sobretudo pelo Estado russo ou por investidores individuais com alto patrimônio líquido, enquanto pequenos e médios bancos terão de sobreviver por conta própria. Tchetverikov acredita que a introdução de Basileia 3 pode significar que o fim do setor de bancos de médio porte na Rússia em favor dos maiores jogadores e filiais de bancos estrangeiros.

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