Adesão à OMC só foi vantajosa para gigantes do comércio varejista, aponta Moody’s

Pascal Lamy, diretor-geral da OMC (esq.) Foto: AP

Pascal Lamy, diretor-geral da OMC (esq.) Foto: AP

Um ano depois de a Rússia aderir à OMC (Organização Mundial do Comércio), as empresas nacionais que operam no mercado internacional ainda não têm suas expectativas atingidas e continuam a ser alvo de aproximadamente 100 restrições. Entre os setores mais afetados, estão a agricultura e indústria ligeira. Porém, segundo os especialistas da agência de classificação de risco Moody’s, o país tem potencial para crescimento das exportações, assim como para a proteção de seu mercado interno.

A adesão à OMC teve um efeito realmente benéfico para grandes empresas importadoras de comércio varejista e distribuidores de grandes redes internacionais no setor de consumo. Mas, apesar de a classificação dessas empresas ter melhorado significativamente no último ano, a conjuntura externa desfavorável impede a expansão de mercadorias russas a novos mercados.

Os autores do estudo recente conduzido pela Moody’s apontam que serão necessários, pelo menos, de três a cinco anos para que o acesso aos mercados externos seja facilitado e a legislação atual garanta um impacto positivo sobre a nota de crédito das empresas russas. Até lá, a pesquisa demonstrou que 68% das empresas não registraram quaisquer mudanças, 17% passaram por mudanças negativas e 15%, positivas.

Ao entrar na organização como o 157º país-membro em 22 de agosto de 2012, após 18 anos de negociações multilaterais, a Rússia prometeu, entre outras coisas, diminuir gradualmente o imposto médio de importação de 10% para 7,8%. Isso levou muitos especialistas a falar sobre eventuais problemas para os setores orientados ao mercado interno. E suas previsões se realizaram em parte.

Os analistas da Global Counsel ressaltam as dificuldades na indústria ligeira e na agricultura. Enquanto a importação de alguns alimentos, sobretudo laticínios, cresceu entre 5 e 8%, a de roupas e calçados sofreu um aumento de 12,8%. Ainda assim, os especialistas garantem que o país tem como apoiar o setor agrícola.

Nas negociações com a OMC, a Rússia conseguiu compensações para seu setor agrícola no valor máximo de US$ 9 bi por ano, prometendo, contudo, diminui-las para US$ 4,5 bi até 2017. Por enquanto, as quantias pagas ao setor agrícola como compensação não atingem o valor acordado, razão pela qual foram usadas outras técnicas para proteger seu mercado. Uma delas foi embargo à importação de suínos vivos provenientes dos EUA, Brasil e União Europeia, justificado pelo uso de substâncias proibidas (ractopaminas) na alimentação dos animais em seus países de origem.

Falta representação

Alegando que os interesses das empresas russas não são devidamente defendidos, os economistas locais estão estimulando a entrada do Cazaquistão e da Bielorússia na OMC como uma reforço à produção russa. Outro problema também é evidenciado pelos especialistas da Global Counsel: a falta de pessoal qualificado e familiarizado com os procedimentos das disputas na OMC.

“As empresas e autoridades russas ficaram despreparadas para enfrentar todas as consequências da adesão do país à OMC”, dizem os analistas. A Rússia, por exemplo, não tem um representante permanente sequer na sede da organização.

“Mais de 100 medidas restritivas continuam em vigor em relação aos produtos russos. São, em sua maioria, medidas antidumping em relação aos produtos dos setores metalúrgico e químico”, diz Vladímir Chikin, sócio na empresa Goltsblat BLP.

Enquanto a União Europeia restringe as importações de trigo proveniente da Rússia, países como China, México e Índia limitam as importações de tubos e aço, e os EUA e a Austrália reforçam a barreira contra os fertilizantes russos. Entre as empresas com maiores restrições no mercado internacional, o estudo da Moody’s listou a Severstal, NLMK e Fosgaro.

 

Publicado originalmente pelo Kommersant

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