Skoltech perderá financiamento das empresas estatais

Residente do parque tecnológico de Skôlkovo Foto: Skolkovo / Press Photo

Residente do parque tecnológico de Skôlkovo Foto: Skolkovo / Press Photo

Revogação das contribuições compulsórias para fundo de capital não significará o colapso do instituto de ciência do Centro de Inovação Skôlkovo, nos arredores de Moscou. Especialistas acreditam que medida não terá impacto negativo no projeto.

O presidente Vladímir Pútin revogou a determinação de seu antecessor, Dmítri Medvedev, de que as empresas estatais devem alocar recursos para o orçamento do Instituto de Ciência e Tecnologia de Skôlkovo (Skoltech). Mais tarde, entretanto, o porta-voz do Kremlin, Dmítri Peskov, explicou que as empresas estatais poderão continuar a financiar o projeto, mas de forma voluntária.

O projeto Skoltech foi criado em um parceria da Fundação Skôlkovo com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, em 2010. Desde o início do ano passado, o financiamento do centro deveria ser obtido por meio de doações de empresas estatais. Ao longo de três anos, essas companhias iriam remeter 1% dos programas próprios de desenvolvimento de inovação ou de 0,5 a 3% do lucro líquido anual.  A previsão era arrecadar 30 bilhões de rublos, mas até o início deste ano só foram recebidos 4 bilhões de rublos.

Um passo de cada vez

O presidente do grupo de empresas de consultoria GCE, Aleksander Moskalenko, defende que o governo continue investindo em pesquisa científica tanto aplicada como básica. “A pesquisa básica é, de uma maneira geral, a satisfação da curiosidade humana, já que os seus resultados não têm aplicação prática imediata prevista”, explica Moskalenko. Já a pesquisa aplicada tenta aproximar os conhecimentos da pesquisa básica do campo da aplicação prática – o seu produto não é uma tecnologia funcional, mas a ideia. “As empresas russas estão atualmente investindo em P&D [Pesquisa e Desenvolvimento] com a intenção de obter retornos rápidos”, comenta o especialista, ao criticar que não é possível obter um produto para o mercado dessa forma. “Pode-se ficar investindo infinitamente e não obter um avanço, porque podemos estar nos amparando em conhecimentos desatualizados.”

A decisão do presidente foi recebida com tranquilidade pelos funcionários do projeto, que já aguardavam a revogação da medida “há alguns meses”, informou uma fonte interna. Segundo ele, se as corporações estatais deixarem de colaborar, haverá uma situação um pouco menos confortável, mas não crítica. “Além disso, o Skoltech é apenas um dos diversos ramos de atividades e não exerce um papel decisivo na vida do Skôlkovo”, explicou.

O jornal “Vedomosti” alega que os gestores das empresas estatais solicitaram o fim da  prática de transferência obrigatória de fundos para o Skoltech, por não terem quaisquer direitos na gestão do projeto ou na requisição de um programa de formação de especialistas. “A contribuição para o "Skoltech parecia mais com um tributo do que com um investimento”, justificou um alto executivo de uma das empresas estatais.

“A decisão de transferir a pesquisa para o financiamento privado é boa, mas é preciso entender como essa estrutura irá funcionar futuramente. Mesmo que as empresas não precisem mais pagar, pode ser como se elas estivessem sendo coagidas”, contrapõe Pável Kudiukin, professor associado do Departamento de Administração Pública e Gestão Municipal da Escola Superior de Economia.

Kudiukin acrescenta que só será possível avaliar o prejuízo da medida depois de um período não inferior a um ano, para avaliar as verbas antes e depois da revogação da determinação.

O analista sênior da Associação Russa de Comunicações Eletrônicas, Karen Ghazarian, está certo de que o governo não vai deixar os projetos do Skôlkovo sem  apoio. “Na minha opinião, a redução das receitas das estatais será compensada pelo orçamento federal”, diz Ghazarian. “Mas no futuro será fundamental a criação de um fundo de capital para garantir a autonomia e a independência do projeto, a exemplo dos principais centros de pesquisa nos EUA e na Inglaterra”, completa o analista, acrescentando que essas fontes devem ser patrocinadores verdadeiramente interessados no projeto.

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