Brics não chegam a consenso sobre novo banco

Líderes do Brics não conseguiram chegar a um conceito claro sobre o banco de desenvolvimento conjunto. Na foto (da esq. à dir.), presidentes da Rússia, Vladímir Pútin, da África do Sul, Jacob Zuma, e da China, Xi Jinping Foto: ITAR-TASS

Líderes do Brics não conseguiram chegar a um conceito claro sobre o banco de desenvolvimento conjunto. Na foto (da esq. à dir.), presidentes da Rússia, Vladímir Pútin, da África do Sul, Jacob Zuma, e da China, Xi Jinping Foto: ITAR-TASS

A 5ª cúpula do Brics, que terminou no último dia 27 em Durban, na África do Sul, resultou em vários acordos significativos, incluindo a criação de um Conselho Empresarial. Entretanto, não houve consenso sobre os detalhes do banco do Brics, um dos frutos mais esperados do encontro deste ano.

A 5ª cúpula do Brics teve a agenda mais ambiciosa da história das reuniões envolvendo os líderes das cinco grandes economias não-ocidentais: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o último membro a se juntar ao bloco.

Os cinco chefes de Estado tinham planejado abordar uma série de questões, desde a tradicional discussão sobre a reestruturação da economia global à tomada de ações reais sobre o projeto de criação do banco do Brics. No entanto, nem todos os temas da agenda resultaram em acordos.

Após uma série de reuniões, os cinco líderes do Brics adotaram o Plano de Ação e a Declaração de eThekwini, nome dado em homenagem à região de Durban que sediou o encontro.

“Esses documentos apresentam a percepção da atual situação política e econômica no mundo e registra as abordagens comuns das economias do Brics em relação às questões mais relevantes da cooperação multilateral”, disse o conselheiro do Kremlin para política exterior, Iúri Uchakov.

Ele acrescentou que o Plano de Ação especifica as atividades para o próximo ano e cobre novas áreas promissoras de compromisso entre os países.

O presidente russo, Vladímir Pútin, declarou também que as comunidades empresariais dos países do Brics foram capazes de criar condições para garantir a segurança, estabilidade e prosperidade no mundo.

“O Brics consiste em cinco países e cinco é um número especial para a África. Os grandes animais da África, as cinco espécies mais respeitadas entre os caçadores, são o elefante, o rinoceronte, o búfalo, o leão e o leopardo”, disse o chefe de Estado russo em referência ao poder e influência dos Estados-membros.

Essa declaração coincide perfeitamente com a retórica habitual sobre o Brics. O grupo das principais economias não-ocidentais fixou, desde o início, a tarefa de reorganizar a ordem mundial e tirar do Ocidente sua dominação econômica.

Ao comentar sobre a cúpula de Durban, Kirill Likhatchev, membro do Comitê Nacional de Estudos sobre o Brics, disse que os resultados do encontro de dois dias eram previsíveis. De acordo com o especialista, duas grandes iniciativas foram estimuladas.

A primeira foi a proposta de Vladímir Pútin para formular a estratégia internacional do Brics e o conceito para cooperação econômica a longo prazo. A área de projetos comuns de infraestrutura também apresentou progresso, uma vez que as agências estatais envolvidas estão ansiosas para assinar e implementar projetos conjuntos.

São também notáveis os esforços feitos para envolver a África do Sul na estrutura do Brics.

Outra importante conquista dos cinco países foi a criação do Conselho Empresarial do Brics, uma instituição que vai reunir as principais estruturas de negócios dos cinco membros.

“A Rússia será representada pela Câmara de Comércio e Indústria e pelo Vnecheconombank”, disse Likhatchev. “A participação de organizações privadas deve dar um poderoso impulso aos investimentos significativos em projetos conjuntos.”

A ausência de um consenso sobre um banco do Brics,, cujo debate foi iniciado durante a cúpula anterior, na Índia, passa por uma “complicação temporária”, de acordo com Likhatchev.

Apesar da declaração do presidente sul-africano, Jacob Zuma, de que os líderes “instruíram os ministros das Finanças a estudar a questão a fundo, bem como a aprontar o terreno para iniciar o banco”, o lançamento do projeto parece mais distante do que nunca.

Os Estados-membros não conseguem chegar a um consenso sobre a localização do banco (todos gostariam de abrigá-lo) nem sobre as taxas de adesão e os projetos a serem financiados pelo banco comum (se seriam apenas projetos exclusivos do Brics ou também de terceiros).

Leonid Gusev, especialista do Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscou (Mgimo, na sigla em russo), duvida que o banco do Brics consiga ser eficaz nessa fase.

“O Brics consiste em economias de peso, como China e Índia, mas a economia chinesa é tão integrada à americana que eles quase têm um mercado comum. O mesmo vale para a Índia, portanto, é bem improvável que esses laços sejam rompidos”, diz Gusev. “Tudo vai depender da evolução nos EUA e na zona do euro”, acrescenta.

Fiódor Lukianov, editor-chefe de revista “Russia in Global Affairs”, mencionou o fenômeno do bloco ao comentar sobre o status atual do Brics e a 5ª cúpula do grupo.

“Trata-se de uma comunidade que não pressupõe a existência de metas específicas”, disse. “A composição do grupo e suas reuniões frequentes são a essência do bloco. A própria existência do Brics e seu formato se adequam aos objetivos e abordagem da política externa russa – não contra, mas contornando o Ocidente.”

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