Gastos militares russos não representam ameaça à paz mundial

Foto: Anton Denisov / RIA

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Na contramão dos EUA e Europa Ocidental, Rússia aumenta despesas com defesa. Autoridades garantem, contudo, que país está preocupado apenas com a atualização do arsenal.

O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres (IISS, na sigla em inglês) publicou na semana passada o anuário “The Military Balance-2013” em que confronta os gastos militares de diferentes países, entre outros fatores. De acordo com o documento, nos últimos anos a Rússia aumentou seus gastos militares, enquanto os EUA e os países europeus tiveram de cortá-los devido à crise econômica mundial.

“Em consequência do clima econômico ruim, as despesas globais com defesa apresentaram um declínio pelo segundo ano consecutivo. Paralelamente, observamos o aumento dos orçamentos militares no Oriente Médio, Norte da África, Rússia, Ásia e na América Latina”, disse o diretor-geral do IISS, John Chipman, durante o discurso de apresentação dos resultados. “Como previmos, em 2012, os gastos militares da Ásia ultrapassaram, pela primeira vez, o valor das despesas com defesa assumidas pelos países europeus membros da Otan".

O anuário dedica 45 de suas 600 páginas à Rússia, às ex-repúblicas soviéticas e à reforma das Forças Armadas russas. Os autores do documento acreditam que, depois da demissão de Anatóli Serdiukov, em novembro do ano passado, e da nomeação de Serguêi Choigu como novo titular da pasta da Defesa, a reforma militar na Rússia continuará seguindo o mesmo rumo.

Apesar de o relatório apontar que “os gastos militares da Rússia estão crescendo, enquanto nos EUA e na Europa eles estão diminuindo”, essa afirmação pode impressionar apenas aqueles que não sabem que os gastos militares russos são muito inferiores aos dos EUA, Reino Unido ou da França.

De acordo com as estatísticas oficiais, o orçamento de defesa dos EUA para 2013 aprovado pelo Senado e Congresso norte-americanos equivale a US$ 550 bilhões, isto é, US$ 100 bilhões inferior em relação aos orçamentos de 2012 e 2011. O país segue atrás da China que, com US$ 120 a 150 bilhões, ocupa a segunda posição. Na sequência estão Reino Unido e França, com US$ 90 bilhões e US$ 70 bilhões, respectivamente. Por fim, a Rússia, com US$ 55 a 60, ocupa a 5ª posição.

Fato é que os EUA, assim como muitos países ocidentais, enfrentam graves dificuldades econômicas. Quando os orçamentos do Estado são reduzidos, os gastos militares também acabam sendo cortados. O Pentágono, por exemplo, deu um fim à guerra no Iraque, diminuindo assim consideravelmente os gastos militares dos EUA, está retirando as tropas norte-americanas do Afeganistão e desistiu de operações ativas, pelos menos terrestres, contra o regime de Kadafi. Além disso, reduziu a carteira de encomendas do avião de quinta geração F-22 de 700 para 200 unidades e de sua versão mais leve F-35. Os aliados dos EUA na Europa Ocidental seguem a mesma tendência.

Atualmente, o F-22 não tem pares no mundo, a não ser o avião russo T-50 (mais conhecido por PAK FAT-50, na sigla em russo), que será construído em 2015. Como os EUA e a Otan não têm intenção de lutar contra a Rússia, seus arsenais militares existentes são suficientes para travar guerras semelhantes às desencadeadas nos últimos anos no Iraque, Afeganistão e Iêmen, por exemplo.

Paralelamente, os gigantes da indústria armamentista como a Boeing, Lockheed,  Dassault, Grumman, BAE Systems ou AEDS não querem perder encomendas bilionárias de equipamento militar sofisticado. Portanto, mesmo ao reduzir as verbas para a defesa, inclusive aquelas para o escudo antimíssil na Europa, os EUA e seus aliados ocidentais dificilmente se contentarão com o montante de US$ 60 bilhões dos gastos militares russos.

A Rússia, por sua vez, segue na contramão. Nos 20 anos posteriores à extinção da URSS, o Estado não liberou verbas significativas para o rearmamento das Forças Armadas do país. Como resultado, a fatia de equipamento militar moderno nas tropas diminuiu para 10%. A guerra de agosto de 2008, quando as tropas georgianas atacaram a força de paz russa na Ossétia do Sul, mostrou claramente as tristes consequências dessa política. Os soldados russos só venceram graças à sua coragem e bravura militar, e não porque usaram material de guerra moderno.

Diante dos fatos, o governo decidiu disponibilizar US$ 700 bilhões em 2011 para um programa de rearmamento que vai durar 10 anos. No total, o governo russo liberou para a defesa 1,3 trilhões de rublos (cerca de US$ 42 bilhões) em 2011 e, no ano seguinte, 1,4 trilhões (cerca de US$ 45 bilhões). Em 2013, é estimada a aplicação de mais 1,5 trilhões de rublos (cerca de US$ 48 bilhões), de modo que, até 2020, 70% dos arsenais militares russos sejam atualizados. Assim, fica evidente que os gastos militares russos não são secretos nem representam nenhuma ameaça para a paz no mundo.

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