Rússia fecha mercado para carne norte-americana

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Funcionários de agência reguladora russa dizem que as restrições são temporárias, mas perspectivas de revogação são incertas. Produtores da América Latina poderão levar vantagem com o aumento de sua participação no mercado russo e possível aumento de preços.

A partir de 11 de fevereiro, os fazendeiros norte-americanos ficarão mais uma vez proibidos de fornecer carne à Rússia. No entanto, diferentemente do embargo à carne de frango na década de 1990, as novas restrições sobre o fornecimento se referem somente à carne de porco e bovina, assim como a matéria prima da carne de porco e bovina e produtos acabados.

Os representantes da Rosselkhoznadzor (Serviço Federal de Inspeção Veterinária e Fitossanitária da Rússia) explicaram que a decisão foi tomada pelo fato de a carne norte-americana apresentar constantemente resíduos de ractopamina, um estimulante de crescimento que proibido no território dos países membros da União Aduaneira (Rússia, Bielorrússia e Cazaquistão).

Em novembro do ano passado, a Rússia já havia advertido quatro países que utilizam essa substância na produção (Estados Unidos, Canadá, México e Brasil) sobre a impossibilidade de futuros fornecimentos. “Três países concordaram em corrigir a questão”, disse à Gazeta Russa o assistente do diretor da agência federal, Aleksêi Alekseienko.

Os EUA, entretanto, ignoraram as exigências russas e deram continuidade ao fornecimento da carne com ractopamina, de modo que a Rússia se viu obrigada a impor restrições mais severas.

De acordo com as regras da União Aduaneira, toda carne encontrada com tal substância deve ser destruída, gerando prejuízo duplo para os importadores, que ainda são obrigados a providenciar uma nova leva de importação. “Também não faz sentido algum repetir o trabalho dos veterinários americanos nem vamos gastar dinheiro do orçamento para isso”, disse Alekseienko.

Na última quarta-feira (30), o vice-diretor do Rosselkhoznadzor, Evguêni Nepoklonov, enviou uma carta ao representante de segurança alimentar do Ministério da Agricultura do Estados Unidos, Ronald Jones, na qual explicava que o lado americano não havia apresentado garantias de que as mercadorias fornecidas estariam isentas de ractopamina.

Apesar de Nepoklonov ter classificado as restrições como “temporárias”, os representantes da agência estatal se recusaram a definir a duração do embargo.

As autoridades fitossanitárias russas negam as especulações de que as novas normas sejam mais uma resposta da Rússia à lei Magnitski.

“Apresentamos nossas exigências antes que começassem as discussões sobre a lei Magnitski nos EUA”, lembrou o funcionário da Rosselkhoznadzor, rejeitando também a ideia de que esse passo seja contrário às regras da OMC, na qual a Rússia entrou recentemente. Os mesmos requisitos para as carnes são apresentados pela China e países da União Europeia.

Flutuação de preço

A participação dos Estados Unidos no mercado russo da carne já vinha caindo de forma acentuada mesmo antes da decisão. Isso se deve não só ao crescimento da produção interna de carne de aves e porco, mas ao êxito dos produtores da América Latina no mercado russo.

De acordo com a Associação Nacional de Carne da Rússia, a importação de carne bovina refrigerada dos Estados Unidos atingiu apenas 2,8% do volume total durante 11 meses de 2011; a de carne bovina congelada, 7,7%; e a de carne de porco, seus subprodutos e bacon, 12,1%.

Diante desses números, a posição das autoridades dos Estados Unidos surpreendeu os representantes de negócios russos, sobretudo porque existem nos EUA empresas que produzem carne sem adição de ractopamina e a fornecem aos países da União Europeia, China e outros países.

“Fica a impressão de que os funcionários americanos estão politizando a questão”, pensa o representante da Associação, Serguêi Iuchin. “De qualquer modo, os EUA vão ter que acatar as exigências da Rússia antes de retomar o fornecimento.”

Os especialistas esperam um aumento das importações para o mercado russo nas próximas duas semanas, antes que a medida entre em vigor. “O volume de produção da Rússia não é grande o suficiente para atender toda a demanda”, lembra a analista do Investkcafe, Daria Pichugina.

Os cidadãos russos vão sentir os efeitos do embargo no bolso, uma vez que as restrições devem gerar aumento nos preços. “A situação complica para alguns fabricantes de enlatados que precisam de tipos de carne mais baratos para a sua produção fornecidos pelos Estados Unidos”, notou Pichugina.

Por outro lado, os produtores latino-americanos levarão vantagem com a medida, pois, além de ampliar a sua participação no mercado russo, serão capaz de obter uma margem adicional por conta do possível aumento de preços.

“Os três países que adotaram as nossas condições [Brasil, México e Canadá] estão dispostos a compensar o volume de produtos que os americanos não poderão fornecer. Também os australianos demonstraram otimismo e prontidão para exportar 1,5 vezes mais do que agora”, arremata Alekseienko.

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