Armas supersônicas podem aproximar Rússia e China

HGVs podem assumir velocidade de 11.000 km/h e realizar manobras aerodinâmicas

HGVs podem assumir velocidade de 11.000 km/h e realizar manobras aerodinâmicas

Global Look Press
À medida que Washington aumenta sua presença militar na Ásia, Pequim demonstra cada vez mais interesse pelas tecnologias hipersônicas russas.

A corrida para construir o sistema de entrega nuclear mais rápido do mundo – o veículo hipersônico de deslize (HGV, na sigla em inglês) – ganhou impulso. Embora os Estados Unidos estejam claramente na liderança, a Rússia e a China não estão muito atrás, e há, inclusive, relatos sugerindo que Moscou – em uma reprise da amigável década de 1950 – estaria influenciando o programa de HGV de Pequim.

Em um novo estudo intitulado “Factoring Russia in the US-Chinese Equation on Hypersonic Glide Vehicles”, o Instituto da Paz de Estocolmo (Sipri) afirma que a Rússia estaria moldando a pesquisa chinesa relacionada a hipersônicos.

Considerando a crescente interseção entre as posturas estratégicas da China e da Rússia e as percepções de ameaças – particularmente na Ásia-Pacífico – é possível que haja, de fato, alguma correlação entre os programas hipersônicos dos países.

De acordo com o Sipri, dois sinais apontam para a integração Rússia-China nessa esfera. Em primeiro lugar, existem 872 textos em língua chinesa sobre HGVs que mencionam a Rússia – o que representa 52% do número total de artigos chineses sobre veículos hipersônicos de deslize. Além disso, o teste de voo do sistema hipersônico chinês DF-ZF em abril de 2016 ocorreu poucos dias depois que a Rússia realizou seu próprio teste com um sistema semelhante.

“Isso é mais do que mera coincidência. A revisão de mais de uma década da literatura chinesa sobre tecnologias hipersônicas e de deslize revela um interesse crescente e pesquisa do programa de veículos hipersônicos da Rússia”, diz o relatório do órgão.

“A combinação dessa tendência com as preocupações comuns de ambos os países sobre as defesas antimísseis dos EUA sugere que é hora de levar em conta como o programa de ‘ataque-relâmpago global’ da Rússia pode estar influenciando as decisões da China em relação às cargas convencionais e nucleares, aos alvos e ao alcance de seu próprio HGV”, continua o documento.

O especialista em política de defesa da Universidade de Ciência Política e Direito de Xangai, He Qisong, concorda que as avaliações da Rússia possam influenciar as decisões de Pequim sobre os objetivos e o alcance de seu próprio veículo hipersônico.

“Os testes hipersônicos conduzidos pela China e pela Rússia tentam causar uma ameaça aos Estados Unidos, que planejam montar um sistema de defesa antimísseis na Coreia do Sul”, disse Qisong ao jornal “South China Morning Post”.

“A China não tem outra opção, especialmente porque os EUA tomaram uma série de medidas provocativas para se envolverem nas disputas territoriais da China com outros países asiáticos no Mar da China Meridional”, acrescentou o professor. “O HGV é, até então, uma das armas de propriedade chinesa que poderiam romper o sistema de mísseis antibalísticos do Exército dos Estados Unidos (THAAD).”

Coalizão necessária

Ao contrário dos mísseis balísticos que viajam ao longo de um trajeto parabólico – e previsível – até o alvo, os HGVs deslizam através da estratosfera após o lançamento. A fase de deslizamento permite que os veículos assumam velocidades de 11.000 km/h ou mais e manobrem de forma aerodinâmica para escapar de interceptações.

Os HGVs são armas altamente desestabilizadoras porque, ao contrário dos mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs), que podem levar até 30 minutos para atingir seus alvos do outro lado do mundo, os veículos hipersônicos podem fazer o mesmo trajeto em uma fração desse tempo.

Os EUA são atualmente líder em tecnologia de armas baseadas no espaço. O programa norte-americano de veículo hipersônico de deslize é um componente-chave de seu sistema de ‘ataque-relâmpago global’, cujo objetivo é permitir ao país atingir qualquer alvo no mundo em menos de 60 minutos.

Embora, atualmente, não haja mais do que uma colaboração acadêmica ou teórica básica entre a Rússia e a China no setor, as ações de Washington estão aproximando os dois países. Uma dessas medidas é a implantação de uma de uma bateria americana THAAD na Coreia do Sul.

Segundo Víktor Poznikhir, tenente-general do Estado-Maior das Forças Armadas russas, Moscou e Pequim acreditam que essa nova geração de armas poderia fornecer aos EUA não só a possibilidade de perpetrar um ataque devastador sobre seus territórios, como também interceptar mísseis chineses e russos.

Para contrapor o potencial dos EUA, os dois países já realizaram em 2016 exercícios conjuntos para evitar ataques de mísseis com o uso de um sistema de defesa próximo a suas fronteiras. Espera-se que uma manobra semelhante seja conduzida este ano.

Mudança de postura

Pequim se mantém na defensiva: a maioria de seus ICBMs estão em silos, enquanto as ogivas nucleares ficam separadas de seus núcleos físseis e sistemas de entrega. Isso é feito para evitar alarde no Pentágono e uma desnecessária corrida de mísseis.

No entanto, a China está gradualmente mudando de abordagem. Acreditava-se que suas armas hipersônicas deslizantes seriam montadas sobre os mísseis DF-21D como uma tipo de sistema A2AD, mas tudo indica que o país está emulando a postura russa de que Moscou deve ser capaz de lançar um primeiro ataque contra alvos nos EUA.

“Se o objetivo final dos sistemas chineses estiver alinhado com o da Rússia e tiver por objetivo derrotar as defesas antimísseis dos EUA, isso sugere uma carga nuclear. Essa tendência poderia alterar não apenas as definições de ‘resposta rápida’ e ‘defesa ativa’, mas também a essência da postura da China de ‘não fazer o primeiro ataque’”, sugere o documento publicado pelo Sipri.

Fato é que as armas nucleares estão no centro da percepção russa e chinesa de poder. Os avanços dos EUA em relação a HGVs ​​têm o potencial de criar uma janela de vulnerabilidade que coloca em risco os arsenais de Moscou e Pequim, bem como seus sistemas de comando, controle e comunicação. É justamente nesse contexto que não se pode excluir uma convergência de interesses entre os dois no setor hipersônico.

Rakesh Krishnan Simha é um jornalista e observador internacional baseado na Nova Zelândia. Também integra o conselho consultivo do Diplomacia Moderna, um portal europeu voltado à discussão de assuntos internacionais.

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