Especialistas questionam funções de nova Guarda Nacional

Guarda também poderá atuar em operações de paz no exterior, segundo decreto

Guarda também poderá atuar em operações de paz no exterior, segundo decreto

Serguêi Pivovarov/Ria Nôvosti
Órgão de segurança poderia ter como objetivo a repressão de protestos, justificam. Estrutura foi anunciada na semana passada como um novo recurso na luta contra o terrorismo e o crime organizado.

Após o anúncio do presidente russo Vladímir Pútin sobre a criação de uma nova Guarda Nacional (Rosgvardia), no último dia 5, surgiram dúvidas acerca da política de segurança na Rússia frente às eleições parlamentares, que serão realizadas em setembro deste ano. 

Em princípio, a nova força de segurança se concentrará na luta contra o terrorismo e o crime organizado, incluindo o tráfico de drogas. No entanto, alguns especialistas acreditam que, ao anunciar o novo órgão independente, Pútin estaria preocupado com seu futuro político.

As suspeitas foram levantadas após Víktor Zólotov, membro do Conselho de Segurança da Rússia, ex-guarda-costas de Anatóli Sobtchak (prefeito de São Petersburgo entre 1991 e 1996) e mentor político do atual presidente no início de sua carreira política, ser anunciado como chefe do órgão.

O professor na Universidade de New York e especialista em segurança da Rússia, Mark Galeotti, destaca o fato de a estrutura “provir de um pequeno círculo em torno de Pútin”.

“Não há nenhuma outra razão para a criar a Guarda Nacional como um órgão alheio ao Ministério do Interior e a outras forças senão a preocupação com a agitação social”, escreveu Galeotti em seu blog. 

Segundo ele, o órgão “terá pouco peso quando se trata de combater o crime ou o terrorismo” e atuará como “forças de segurança pública para evitar tumultos”, controlando “não só as massas, mas também a elite”. 

Opinião semelhante é sustentada por Tatiana Stanovaia, diretora do departamento de análise do Centro Carnegie de Moscou, que justifica a recente decisão do Kremlin de criar a Guarda Nacional pela preocupação com possíveis protestos políticos decorrentes da atual crise econômica.

“O Kremlin quer se reafirmar com uma ferramenta poderosa para evitar tumultos”, diz Stanovaia, ressaltando a preocupação das autoridades com o aumento da instabilidade política em meio às divergências com o Ocidente. “Segundo as autoridades, o Ocidente espera uma oportunidade para mudar o regime político na Rússia, enfraquecendo o Estado para dividi-lo em diferentes territórios.”

No entanto, um dos membros da Câmara Civil da Rússia, Serguêi Markov, alega que a Guarda Nacional teria apenas como alvo os membros da oposição. “Instituições especiais poderiam ser criadas para impedir um possível golpe de Estado”, disse à Gazeta Russa Markov, relembrando os protestos orquestrados na Ucrânia em 2013 e 2014.

Já o ativista Leonid Gozman, não acredita que Pútin tema novos protestos públicos, mas que o presidente queira criar uma nova força de segurança sob o seu controle, uma vez que, atualmente, o ministro da Defesa, Serguêi Choigu, controla as Forças Armadas, e o Ministério do Interior segue os comandos de Vladímir Kolokoltsev.

“Pútin quer ter suas próprias forças de segurança, controladas por ele mesmo”, disse Gozman à Gazeta Russa. “O novo diretor é um amigo em quem ele confia. É uma questão de contatos pessoais. Eu não acredito que a criação da Guarda Nacional vise a refrear a indignação das pessoas. Para isso, já existem recursos suficientes”, arremata.

De acordo o decreto apresentado pelo presidente russo, as unidades do novo órgão de segurança também poderiam ser envolvidas em operações de paz no exterior.

“[A Rosgvardia] garante, por decisão do presidente da Federação Russa, a participação das tropas da Guarda Nacional [bem como de] oficiais [e dos] os funcionários públicos federais nos esforços para manter ou restabelecer a paz e a segurança internacionais”, lê-se no documento.

Publicado originalmente pelo Russia Direct

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