Saga pós-soviética ‘Compartimento nº 6’ estreia neste domingo (12) no Festival do Rio

Juho Kuosmanen/CTB Film Company, 2021
Filme de diretor finlandês que venceu o Grande Prêmio do Júri em Cannes revela vulnerabilidade escondida na força bruta. Sem estreia definida para o circuito comercial, longa chega ao Brasil neste domingo (12) no Festival de Cinema do Rio.

Na turbulenta década de 1990, uma jovem finlandesa e um russo casca grossa se encontram em um trem que vai de Moscou a Murmansk. Mas o que começa como um pesadelo toma um rumo oposto, e ‘Compartimento nº 6’ se revela uma relíquia culturalmente importante do passado soviético.

O filme do diretor finlandês Juho Kuosmanen teve sua estreia mundial no Festival de Cinema de Cannes de 2021, onde ganhou o Grande Prêmio do Júri e uma enxurrada de boas críticas. Atualmente, está em exibição em cinemas na França, Suíça, Finlândia e Itália e deve ser lançado nos Estados Unidos e no resto da Europa no início de 2022. No Brasil, ‘Compartimento nº 6’ estreia no Festival de Cinema do Rio de Janeiro neste domingo (12).

Seidi Haarla as Laura and Yuri Borisov as Lyoha in 'Compartment No. 6'.

Estrelado por Iúri Borisov, um dos atores mais promissores da Rússia, o longa de Kuosmanen é a entrada finlandesa deste ano para Melhor Filme Estrangeiro no Oscar.

Cenário e atmosfera

Antes de tudo, é bom esclarecer: ‘Compartimento nº 6’ não tem nada a ver com uma das histórias mais pungentes da literatura russa, ‘Enfermaria nº 6’, de Anton Tchékhov, ambientado em um antigo asilo psiquiátrico. 

É um tipo de road movie com autenticidade, empatia e humor gentil. Em segundos, faz parecer que eles entraram na máquina do tempo e viajaram de volta à Rússia pós-soviética dos anos 1990.

O drama de Juho Kuosmanen ecoa o estilo cru característico de Aleksêi Balabanov, cuja franquia ‘Brat’ (do russo Irmão) foi considerada uma das criações cinematográficas mais importantes da Rússia pós-soviética.

Sergei Bodrov Jr. as Danila Bagrov in 'Brat'.

‘Compartimento nº 6’ conta com Serguêi Selianov, o mesmo produtor russo independente que trabalhou com Balabanov em todos os seus filmes, incluindo os dois longas de ‘Brat’.

Aqui, o cineasta finlandês de 42 anos consegue girar o relógio de volta no tempo, recriando uma atmosfera de liberdade irresponsável e abertura para o mundo característica da realidade do início pós-soviético. O espírito audacioso dos anos 1990, que se instalou após o colapso da União Soviética, é retratado pelo diretor e seu diretor de fotografia J-P Passi com uma rara combinação de honestidade e humanidade, bem como grande autenticidade. Ao ouvir ‘Voyage, voyage’, o hit internacional no final dos anos 1980 da cantora francesa Desireless (imensamente popular na URSS e no Brasil também), a viagem ao tempo é real.

Personalidade russa como ela é

Um grupo de intelectuais está dando uma festa em um espaçoso apartamento em Moscou nos anos 1990. Pessoas felizes e embriagadas tentam identificar os romances de Victor Pelevin a partir de citações icônicas, levantando questões filosóficas sobre o sentido da vida.

Seidi Haarla as Laura in 'Compartment No. 6'.

Laura (Seidi Haarla), estudante de arqueologia da Finlândia, divide este apartamento boêmio com sua namorada falante e sexy Irina, professora de literatura. É o último dia de Laura em Moscou. Depois de uma noite de amor, ela e sua namorada deveriam visitar petróglifos (pinturas rupestres) na cidade portuária de Murmansk, a cerca de 2.000 km da capital russa.

Mas Irina termina com Laura na hora de partir, e a garota finlandesa, que fala russo fluentemente, embarca no trem sozinha – somente para descobrir que seu vizinho de assento no ‘Compartimento nº 6’ é um minerador russo grosseirão chamado Lyokha , que fuma como uma chaminé e bebe como se não houvesse amanhã. Ódio à primeira vista. No início Laura faz o melhor para se esquivar de Lyokha e de suas piadas sujas e obscenas, até que fica evidente que seu companheiro de viagem não é o que ela pensava.

Russian actress Yulia Aug and Finland's Seidi Haarla in 'Compartment No. 6'.

Com o passar do tempo, Lyokha mostra sua verdadeira face como um homem sensível, sentimental e compassivo que precisa de amor. Laura e Lyokha exibem uma tensão honesta e uma química sólida à medida em que seus personagens tentam encontrar uma linguagem comum. Ambos estão amargurados, necessitados e desesperados para serem amados.

Como Danila Bagrov, personagem de cult de Aleksêi Balabanov, que se tornou a voz da geração pós-soviética da década de 1990, o protagonista desta história triste, porém inspiradora, também é uma espécie de anti-herói, cuja vida está fadada a descarrilar a menos que um milagre aconteça ( russos gostam de arriscar e, como já falamos, depositam sua esperança nos “avôs”, uma confiança na ajuda de Deus e forças sobrenaturais).

Seidi Haarla and Yuri Borisov in 'Compartment No. 6'.

As pessoas raramente são o que parecem, e Lyokha não é exceção. Após uma análise mais detalhada, o protagonista de ‘Compartimento nº 6’ acaba sendo a epítome da compaixão altruísta e do altruísmo, sempre pronto para dar uma mão a um completo estranho. Laura, por outro lado, é a personificação da indiferença, solidão e incerteza nórdicas.

O engraçado é que os opostos se atraem e os dois, que precisam de uma pausa de sua solidão, vivenciam alguns dos melhores momentos de suas vidas em um trem sujo e fedorento, atravessando nevasca em direção ao futuro indefinido. “Chegar lá” é um verdadeiro desafio. Não é à toa que um dos personagens diz a seguinte frase de efeito: “Para se entender, você precisa entender o seu passado”. 

Yuri Borisov as Lyoha in 'Compartment No. 6'.

‘Compartimento nº 6’ é uma história de dúvidas da mente, autoquestionamento e busca da alma. Embora aparentemente sombrio, é cheio de promessas e esperança.

‘Compartimento nº 6’ estreará neste domingo (12) às 22:00 na sala Estação NET Botafogo , no Rio de Janeiro. Estão previstas mais duas sessões durante o Festival do Rio. Para saber mais detalhes, acesse http://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/hytti-nro-6    

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