Cena dos Urais, o verdadeiro berço do rock russo

Aleksandr Pantíkin, líder da banda de rock Urfin Dzhjus.

Arquivo pessoal
Achou que o rock russo se resumia ao grupo Kino? Errou! Os roqueiros de Iekaterimburgo fazem sua barulheira desde tempos soviéticos, dão shows dançando com machados o folclórico khorovôd e – pasmem! - gravam discos em bunkers desativados.

No centro de Iekaterimburgo, a grande capital dos Urais com população de 1,5 milhão, atrás de uma discreta porta de ferro na rua Clara Zetkin fica instalada uma lenda da cidade: o bunker do marechal Gueórgui Júkov. É um fenômeno bastante comum que os velhos abrigos antiaéreos sejam transformados em museus no país, mas este, em especial, virou um estúdio. E seu diretor é uma lenda nos Urais: Aleksandr Pantíkin, o "vovô do rock de Sverdlovsk", como é conhecido, com todo o respeito, por ali.

É que a própria cidade de Iekaterimburgo se chamou Sverdlovsk, entre 1924 e 1991, em homenagem ao político comunista Iákov Sverdlov. A região onde fica, antes temporariamente intitulada Oblast dos Urais, também se tornou, em 1934, depois de dividida, Oblast de Sverdlov - nome que carrega até hoje. 

Aleksandr Pantíkin.

Vinte e cinco metros abaixo do solo, não há nada que distraia uma pessoa em seu processo criativo – ou vizinhos para reclamar do som dos instrumentos musicais.

"Quando a gente tinha um estúdio em um apartamento na cidade, os vizinhos reclamavam da gente para a polícia o tempo todo porque a gente fazia barulho. Daí a gente começou a procurar outro lugar e, no final das contas, encontramos este bunker, já há 10 anos", conta Pantíkin.

O bunker de Júkov, no centro de Iekaterimburgo. Você reparou no teclado de piano na parede?

"No bunker dá para sobreviver a qualquer coisa, até mesmo uma explosão nuclear. Todo mundo vai morrer, mas o rock dos Urais vai continuar vivo", brinca Pantíkin.

Os roqueiros usam o bunker gratuitamente. Lá dentro há uma sala de ensaios, um estúdio de gravação e edição de vídeo e  um escritório com as paredes recheadas de premiações culturais que eles ganharam.

Entre os prêmios, há um Nika, o mais importante do cinema nacional, e um Máscara de Ouro (em russo, Zolotáia máska), o principal do teatro russo - ambos arrebatados por Pantíkin devido a suas composições musicais para produções teatrais. Além disso, estão expostos ali prêmios que ele conquistou por sua contribuição ao rock.

A sala de ensaio nos fundos do bunker.

Na década de 1980, Pantíkin foi o líder da Urfin Dzhjus, uma banda de rock “cult”, que marcou o início da história da cena de rock dos Urais.

Da ideologia ao show business

No período soviético, a cidade industrial de Iekaterimburgo, que então ainda levava o nome de Sverdlovsk, foi uma das capitais da música rock, lado a lado com Moscou e São Petersburgo (que, então, se chamava Leningrado).

Bandas como Nautilus Pompilius, Chaif ​​e Smyslovye Gallyutsinatsii nasceram ali, no coração dos Urais. Todas estavam ligadas ao clube de rock local, cujos membros foram autorizados a usar as instalações da Casa da Cultura para ensaios e ganharam roupas e cenografia para as apresentações, além de outro presentão: a gravação de seus álbuns.

Pantíkin conta que o Urfin Dzhjus ganhava 5.000 rublos por um álbum, uma quantia colossal na época, equiparável ao custo de um carro Volga – e não se esqueça que ter um carro na União Soviética era coisa para pouquíssimos. Em  geral, os clubes de rock foram criados para controlar as atividades dos músicos e mantê-los dentro da lei, em uma época em que a ideologia restringia fortemente a liberdade pessoal.

Nautilus Pompilius no início da banda.

Sob a influência da música ocidental, surgiram na URSS, durante as décadas de 1970 e 1980, diversas bandas de rock quase underground que davam "shows caseiros", em apartamentos de amigos – os chamados “kvartírnik”.

Por isso, os chefes do partido decidiram: se não se pode abafar o movimento, vamos tomar conta dele. Assim foram criados os clubes de rock oficiais - o Leningrad Rock Club, que tinha bandas como Zoopark, Secret e Kino; o Moscow Rock Laboratory, com grupos como Mashina Vremeni, Bravo e Brigada S; o Sverdlovsk Rock Club e outros.

O paradoxo é que, quando o rock foi oficializado, Borís Grebenschikov, do Aquarium, escreveu sua famosa canção “Rock n’ Roll miôrtvi” (do russo, “O Rock n’ Roll está morto”), sobre um exaurimento do gênero musical.

A música também ficou conhecida em sua versão traduzida para o inglês por Joanna Stingray, uma grande admiradora do rock soviético que estava, na época, casada com Iúri Kasparian, o guitarrista do lendário grupo Kino.

Foi graças a ela que, o álbum “Red Wave”, todo gravado por músicos soviéticos, saiu em 1986 nos EUA e os nomes de Víktor Tsói e Borís Grebenschikóv se tornaram conhecidos pelo público estrangeiro.

Mas a União Soviética logo entraria em colapso e, depois de ser música de protesto, o rock virou show business. Muitos artistas da época, porém, são populares até hoje, mesmo com o público jovem.

Alain Delon e a mística do rock dos Urais

"Em geral, sempre amei e preferi o Sverdlovsk Rock Club. Se Moscou tinha um rock alegre e São Petersburgo, um desesperançado e melancólico, a música dos Urais tinha sua própria mística, que era muito atraente", diz a moscovita Daría Sokolóva, em visita à região de Sverdlovsk para ver o berçoo de sua banda de rock favorita, a Agatha Christie, e visitar o museu do rock.

"Se você pegar, por exemplo, o Nautilus, com sua música que diz ‘Alain Delon não bebe eau-de-cologne’... Onde está Alain Delon e onde está Iekaterimburgo?", pergunta retoricamente. Relembrando: a ingestão de água de colônia foi uma prática comum em tempos de lei seca no país.

Aleksandr Pantíkin.

"Os Urais têm mesmo uma atmosfera especial. A região é o berço de muitos dos que tiveram forte influência na história russa: o marechal Gueórgui Júkov, o presidente Borís Iéltsin, o diretor de cinema Aleksêi Balabánov. E, claro, muitos jovens músicos talentosos vivem aqui, apesar de a música deles ser mais amadora que profissional, o que só mostra uma falta de treinamento adequado", diz Pantíkin.

O "vovô" do rock dos Urais lembra que, no passado, o Estado costumava apoiar os jovens que queriam fazer música. Mas, segundo ele, hoje é muito mais difícil eles chegarem aos palcos e se profissionalizarem.

Mas não é à toa que Iekaterimburgo é considerada a capital da música na Rússia: é ali que é realizado anualmente um dos festivais de rock mais famosos do país, no qual todos os jovens músicos sonham em participar.

Danças de roda com machado

Todos os anos, em 13 de janeiro, quando a Rússia celebra o Ano Novo de acordo com o calendário juliano, o músico Ievguêni Gorenburg apresenta o festival Old New Rock.  Das centenas de músicos que se inscrevem, apenas algumas dezenas são escolhidos.

A seleção é feita por um conselho de especialistas composto pelos gigantes do rock de Sverdlovsk, entre eles Vladímir Chakhrin e Vladímir Begunov (do Chaif), Aleksêi Khomenko (do Nautilus Pompilius) e Aleksandr Pantíkin.

Nos últimos anos, o festival tem sido realizado no Centro Iéltsin, um museu dedicado à queda da URSS e aos primeiros anos da nova Rússia. Ali, podem-se ver prateleiras de lojas vazias - um símbolo das compras (ou da falta delas) nos anos 1990, famosos por seu déficit no abastecimento soviético - e tirar fotos com a enorme pintura "Liberdade", de Erik Bulatov, no fundo.

Evguêni Gorenburg abre o festival anual Old New Rock, em 13 de janeiro de 2019.

É indiscutível que foi justamente este espírito de liberdade que se tornou atração principal para músicos de diferentes regiões da Rússia e de outros países que vão a Iekaterimburgo.

Mas e os novos músicos de rock? Eles são diferentes de seus predecessores? Claro que sim!

Prateleiras vazias são parte da exposição do Centro Iéltsin.

Por exemplo, a banda Neuromonakh Feofan, de São Petersburgo: em vez de quebrar guitarras no palco, eles convidam o público a "gravar junto" a chegar junto para fazer o acompanhamento de seu folk russo drum 'n' bass.

Já o empolgante quarteto ValieDollz, de Perm, faz um som brasscore com o qual as bandas de heavy metal só podem sonhar. Ou a Avant-garde Leontiev, de Iekaterimburgo, que transforma cada apresentação em uma produção teatral.

A banda Avant-garde Leontiev, cujo nome homenageia um renomado ator russo.

Os amantes do gênero clássico dirão que isso não é mais rock. Mas os roqueiros curtem: eles vão a Iekaterimburgo e entram na dança de roda folk khorovod com machado (de mentira, claro) para a música de Feofan, e dançam batendo os pés com o Leontiev. Outros, fazem sua própria música, literalmente underground, no bunker da Rua Clara Zetkin, onde planejam manter o rock vivo mesmo em caso de apocalipse...

Neuromonakh Feofan e sua banda.

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