O Homem-Sobretudo, ou como um artista se tornou um marchand de sucesso sendo a própria galeria

Press photo / I.Makarevich, E.Elagina, 1996.
Todos os profissionais no mundo da arte de Moscou e São Petersburgo conhecem Aleksandr Petrelli. O artista eslavo, que completou 50 anos neste mês, e sua “galeria itinerante” começaram recentemente uma turnê pela Europa.

Nas vernissages em Moscou e São Petersburgo, é comum encontrar um homem que usa um sobretudo até mesmo no verão. Como um exibicionista pronto para se expor, ele abre bem o casaco para revelar...arte. O forro de seu sobretudo está sempre coberto de pequenas pinturas ou desenhos, assim como as paredes de um museu. Esta é a itinerante Galeria Palto (“Galeria Sobretudo”), que já existe há mais de 20 anos.

Sucesso em três minutos

A galeria consiste em apenas um homem, o artista fanfarrão Aleksandr Petrelli. Natural de Odessa, na Ucrânia, Petrelli se mudou para Moscou nos anos 1990. Por volta dessa época, as pessoas começaram a chamá-lo pelo apelido “Karman” (“Bolso”), que pegou desde então como uma espécie de segundo nome. Ele dá as catas com seu casaco nos principais museus, incluindo o Museu Estatal Púchkin de Belas Artes e a Galeria Tretyakov, bem como aberturas de exposições em galerias.

A galeria itinerante de Karman, que começou como uma performance irônica, é um dos espaços de exposição mais duradouros do mercado de arte contemporânea russo. Apenas um punhado de galerias em Moscou sobreviveu de meados da década de 1990 até os dias atuais, e Palto é uma delas. Com mais de 500 exposições em 23 anos e mais de 130 artistas que criaram trabalhos especialmente para esse meio  –  entre eles, clássicos como Viktor Pivovarov, Vadim Zakharov, Andrei Filippov e Zurab Tsereteli – isso representa, sem dúvidas, um recorde absoluto.

Atualmente, Palto se tornou uma galeria itinerante e internacional. Petrelli bateu seu próprio recorde na feira de arte contemporânea austríaca Viennacontemporary, apresentando uma exposição que durou apenas três minutos e contou com duas dúzias de telas conceituais do tamanho de uma palma produzidas por Dmítri Gutov.

“O único artista cujas obras eu vendi em Viena, não para um colecionador russo, mas para um cliente aleatório que não tinha a menor ideia sobre arte russa, foi Aidan Salakhova”, disse Petrelli ao Russia Beyond. “Era um trabalho de arte gráfica em papel vegetal com duas folhas sobrepostas, e a imagem mudava dependendo de que lado se estava olhando. Eu apenas as vesti e mostrei – e lá estava ele, sentado em um pequeno sofá à minha frente. Um austríaco, muito gentil e com uma bengala. Assim que ele viu as obras, ele as apanhou! Ele nem perguntou quem era o artista.”

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Em Viena, Karman também vendeu obras do grupo de arte austríaca Gelitin. Com dimensões de 30 cm x 40 cm, suas fotos são bem grandes para os padrões da galeria. “Apenas duas foram vendidas, mas por um valor que a galeria só poderia ter sonhado em seus primeiros dias”, acrescentou o expositor. 

Uma exposição em movimento

A história da Palto começou em 1995, por ideia dos membros do grupo artístico Pertsi (“Pimentas”). “Eles voltavam de Sochi”, relembra Petrelli. “Estávamos sentados e bebendo, e de repente começamos a recordar o antigo filme de comédia soviético ‘Ivan Vassiliévitch: De Volta para o Futuro’. Nele, um personagem vendia secretamente peças de rádio, anexando-as ao forro de sua jaqueta. E eles então me disseram: ‘Sasha [abreviação para Aleksandr], vamos abrir uma galeria em seu casaco!’. Na época eu tinha um sobretudo pesado e grosso de lã azul marinho escuro, que havia comprado em um brechó. Eu costumava usá-lo então.”

Foi assim que surgiu a ideia de um museu itinerante, primeiramente proposto por Marcel Duchamp. Vladímir Dubossarski e Aleksandr Vinogradov, duas figuras importantes na atual cena de arte contemporânea e que abriram a primeira exposição da galeria, ficaram muito entusiasmados com a proposta (nenhum deles ainda era famoso na época). O Sobretudo de Petrelli fez uma aparição em uma exposição que havia sido inaugurada no luxuoso – e agora há extinto – clube Manhattan Express. A principal mostra se chamava Arte Contra o Sexo, enquanto a exposição de Palto se chamava Arte para o Sexo. Isso causou um escândalo quando alguém reclamou com o dono do clube, que queria imediatamente fechar a Palto. No final, eles conseguiram chegar a um acordo: Karman teria permissão para andar com o casaco no corpo, mas se ele quisesse mostrar para alguém, teria que levar os interessados ao banheiro.

“Hoje nós podemos ser honestos”, diz Petrelli. “Na época, o conceito não funcionou. Ninguém comprava nada. Mais tarde, porém, a exposição inteira – a primeira individual da dupla Dubossarski-Vinogradov – foi vendida por seus autores por 30 mil euros!”. As vendas da Palto também cresceram desde então.

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