Sexo e suicídio, a moda da vanguarda soviética dos anos 1920

Alexander Saverkin/TASS
Os anos pós-revolucionários foram a época de o suicídio e o amor livre entrarem em voga. O renomado escritor Dmítri Bíkov compilou uma antologia intitulada “Marussia se envenenou: sexo e morte nos anos 1920” (editada por Elena Chubina, 2018), onde explica a proximidade entre sexo e morte, com base em obras daquele tempo.

A época que se segue a qualquer grande reviravolta, via de regra, traz decepção e ilusões perdidas. A Rússia pós-revolucionária da década de 1920, como escreve Dmítri Bíkov, não trouxe novos gêneros ou novos heróis, apenas colhendo os frutos da Era de Prata da poesia russa e das vanguardas artísticas.

Depois do duro comunismo de guerra, estabeleceu-se a época da Nova Política Econômica, a famigerada NEP, e as pessoas se jogaram na libertinagem.

"No ramo dos casamentos e das relações sexuais, aproxima-se uma revolução consonante com a proletária", a famosa marxista alemã Clara Zetkin repetiu as palavras de Vladimir Lenin.

Mas a triste verdade é que a revolução sexual aconteceu “no lugar da” – e não “junto com a” - proletária.

Casamento na URSS: base da sociedade ou satisfação dos instintos?

Durante o período revolucionário, as relações conjugais “surgiram casualmente, entre outras coisas, para satisfazer uma necessidade puramente biológica”, escreveu a revolucionária e diplomata Aleksandra Kollontai.

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Além disso, ambos os lados do processo estariam dispostos a atender rapidamente a essa exigência para evitar que ela interferisse no ponto principal, o "trabalho na revolução".

A NEP também não restaurou a família tradicional: pelo contrário, segundo escreve Bíkov, as "necessidades sexuais foram satisfeitas sem prudência".

Mais tarde, porém, a elite soviética mostrou-se mais puritana. O ministro da Educação, Anatóli Lunatchárski, escreveu: "... em nossa sociedade, a única forma correta de família é aquela baseada no casal tradicional". Já Leon Trótski argumentou que o Partido deveria cuidar da pureza moral.

Aonde leva o amor livre?

Ideais de amor livre entraram na moda e tornaram-se um dos símbolos da época. A atração sexual era equiparada à fome comum, que as pessoas satisfazem sem grandes buscas morais ou remorsos. O amor abandonou sua áura romântica, pudor e rituais de cortejar.

É assim, por exemplo, que Aleksêi Tolstói, em sua história “Víbora” (1928, originalmente intitulada em russo “Gadiuka”), descreve um sinal dos tempos: a facilidade com que se satisfaziam as necessidades. O assistente do gerente de um truste onde a protagonista trabalha a leva para o canto e lhe diz: “O desejo sexual é um fato real e uma necessidade natural”. Ele propõe, então, que ela abandone o romance e, sem cerimônia, começa a abraçá-la e agarrá-la. Mas a heroína oferece resistência.

Na prática, o amor livre se transformou em uma série de escândalos e decepções. Os homens não estavam preparados para o fato de as mulheres escolherem elas mesmas seus parceiros, e as mulheres se sentiam ofendidas por não serem mais cortejadas.

A noção tradicional de “família”, porém, continuou a passar por  experimentos. Assim, os teóricos do simbolismo Dmítri Merejkóvski e Zinaída Guippius passaram a viver abertamente um triângulo amoroso com o crítico e editor literário Dmítri Filosofov. Já o poeta Vladímir Maiakóvski fez o mesmo com sua musa, Lilia Brik, e o marido dela, Óssip.

Libertinagem e tédio

A saciedade precoce leva ao tédio, à solidão e a experimentos arriscados com a própria vida, constata Dmítri Bíkov. Depois de se ter experimentado tudo na juventude, a morte é recebida como a última forte sensação restante.

A obra de Gleb Alekseiev “Dêlo o trúpe” (em tradução livre, “O caso do cadáver”) é escrita sob a forma de um diário mantido por uma garota chamada Chura Golubeva, que se suicida supostamente por não ter seu amor correspondido. Mas a história não é nem sobre amor, nem sobre morte, mas sobre o tédio e uma falta de cultura. Chura se suicida não porque está apaixonada, mas porque não tem mais nada para fazer.

“Neste sentido, a vida russa pós-revolucionária acabou sendo consideravelmente pior que a pré-revolucionária”, escreve Bíkov. Os estudantesuniversitários do início do século tinham esperanças e aspirações quanto à revolução. Mas aos estudantes "vermelhos" da década de 1920 ou aos operários fabris só restava o suicídio: "Eles já haviam tentado de tudo, e ainda havia armas suficientes no país".

Em sua novela “Navodnenie” (em tradução livre, “Inundação”, de 1929), Evguêni Zamiátin fala sobre a perda total do ser humano. Juntamente com uma insanidade erótica e uma epidemia de suicídios, uma onda de crimes desenfreados esteve entre as marcas registradas do final do período da NEP. A protagonista Sofia, que beirava os 40 anos, mata sua vizinha, Ganka, simplesmente por ela ser jovem, bonita e próspera. Porque ela mesma é mais velha e sua vida acabou.

Bíkov acredita que o trecho seguinte de Zamiátin resuma a atmosfera daquele tempo: “Toda a noite, o vento vindo do litoral batia direto na janela, o vidro tremia, a água no Nievá subia. E como se ligado ao Nievá por veias subterrâneas, o sangue subia”.

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