Uma bela escultura de si mesma para a poesia russa contemporânea no Brasil

Novo volume com tradução inédita, direta do russo, de Anatóli Náiman pela pioneira Aurora Bernardini é permeado de histórias das andanças e missivas da editora e autora inglesa radicada na Bahia Sarah Rebecca Kersley, além de recortes de influências e referências de sua busca pelas origens e por uma identidade que se revela, parcialmente, russo-judaica.

O teórico da tradução norte-americano Lawrence Venutti já imortalizou, pelo menos desde 1995, com a publicação de “The Translator's Invisibility”, a questão da visibilidade do tradutor, tão premente que sua obra se tornou uma constante na bibliografia dos Estudos da Tradução. E é a visibilidade do tradutor, mas também a do editor, um dos pontos mais marcantes do novo livro “Sábado”, da inglesa radicada na Bahia Sarah Rebecca Kersley, proprietária da editora e livraria Boto-cor-de-rosa.

Nele, ela registra o nascimento da versão, em português, de poemas de um russo contemporâneo, Anatóli Náiman, pelas mãos de uma das pioneiras da tradução direta do russo no Brasil, Aurora Fornoni Bernardini. Mas, sobretudo, é sua descoberta do “primo Náiman” que fica ali inscrita, com o despertar, finalmente, de seu interesse pelas origens da própria família.

Com a notícia da doença do pai, Kersley retorna à Inglaterra em 2017 e, por sugestão da irmã, começa a busca pela identidade, própria e a da família, e pelos rastros judaicos e eslavos que ficaram dos antepassados que fugiram do Império Russo, da cidade de Druia, hoje pertencente à Bielorrússia.

Ela retrata o retorno da seguinte forma: “Le-chaim, falaram, levantando as taças. Família reunida. Saúde, respondi em português”. De maneira velada, o excerto parece ressaltar como pouco da bagagem ancestral interessou anteriormente à escritora – fato que ela explicita mais abertamente em outros trechos.

Mas, passados os dias, uma pasta do avô com carta datilografada de 1992 lhe salta aos olhos. Poeta. Russo. Ela tinha um primo poeta russo que havia se encontrado com a família pelos anos 1990, quando foi à Inglaterra para uma residência na Universidade de Oxford.

Nascido em 1936, o primo, Anatóli Náiman, vive e trabalha em Moscou na atualidade, aos 82 anos de idade, e é um dos “órfãos de Akhmátova”, parte do grupo (composto também pelo autor premiado com o Nobel Joseph Brodsky, Dmítri Bobishev e Evguêni Rein) que a poeta russa chamava de “coro encantado”. O primo, além de tudo, também trabalhou como secretário da escritora no período final de sua vida.

A partir da carta trocada pelo avô com o “Poeta”, cujo nome nunca aparece na missiva dos anos 1990, Kersley inicia uma investigação e um verdadeiro interrogatório pela família até chegar a Náiman. Parte da correspondência que troca com ele, assim como poemas de Akhmátova que a poeta britânica descobre, as ligações de Náiman com Isaiah Berlin, filmes e outras influências literárias assinalam a descoberta de novas referências por Kersley - que então ainda não fala ou lê russo, mas se torna cada vez mais ávida pela cena literária do país.

Neste sentido, seu livro é composto por uma colagem de recordações, poemas originais e traduzidos, para o português e o inglês, interpretações, impressões linguísticas sobre a proximidade sentimental do português e do russo, que não encontra nem poderia encontrar, em sua opinião, ponte pelo inglês – além, claro, dos originais em russo da poesia de Náiman que ganha no volume tradução para o português por Bernardini.

Judaísmo e (in)traduzibilidade

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“Sempre me senti confusa sobre o judaísmo como religião”, escreve Kersley, que, em determinado ponto, pergunta a Náiman se ele é judeu. Não, ele responde, é cristão. A questão, que parece insignificante em um Brasil que virtualmente abraça tantas culturas e religiões, importa bastante na Rússia.

No grande país de onde a família de Kersley saiu há, por exemplo,  dois termos diferentes para “russo” (“rússki”, o russo étnico, e “rossíski”, da Rússia, ou portador do passaporte russo, ou, mais especificamente “da Rússia, mas não etnicamente russo”) - e o país considera ser composto por mais de 100 “etnias” ou “nacionalidades”, uma delas, a “judia”.

É justamente à “etnia” judaica, aliás, que pertence uma infinidade de tradutores russos – à semelhança de Kersley, também judia e tradutora.

Aliás, a tênue ligação dos judeus com a tradução, como se verifica na família de Kersley, também ela mesma tradutora, encontra alguma pista na divisão das linhagens judias e sua constante migração com os horrores da guerra, dos “pogroms” e do Holocausto.

“A tradução é possível?”, pergunta Kersley sobre a ideia de verter os poemas de Anatóli para o português. “A tradução não é possível”, responde Anatóli, no tom mais mais russo possível. “Nós dois sabemos que a poesia só existe na língua nativa e que, quando traduzida, torna-se uma escultura de si mesma”, acrescenta.

Mas a tradução, finalmente, é possível, pelas mãos de Bernardini, e o resultado está em “Sábado”. Kersley a remete a Náiman, que relembra, em resposta, que a única tradução escolhida por Akhmátova para entrar em um livro seu foi a de “Poema de Zara”, de Antero de Quental, talhada com perfeição pela poeta russa, como pode verificar qualquer um que se interesse por cotejá-lo – da mesma maneira que o faz o cinzel-pena contemporâneo de Aurora.

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