O que sabemos sobre a primeira vacina contra coronavírus registrada no mundo

Foto meramente ilustrativa da vacina russa para coronavírus

Foto meramente ilustrativa da vacina russa para coronavírus

Keystone Press Agency/Global Look Press
Aprovada para uso no país, substância entrará em produção em breve. Especialistas alertam, contudo, para riscos de adiantar etapas.

O presidente russo Vladimir Putin anunciou o registro da vacina ‘Sputnik V’, que leva o nome do primeiro satélite lançado ao espaço, em 1957, durante uma reunião de gabinete nesta terça-feira (11). Putin acrescentou que a própria filha já testou a vacina.

“Uma das minhas filhas já tomou a vacina. Portanto, ela pode se incluir entre as cobaias. Após a primeira injeção, sua temperatura subiu para 38°C, depois caiu para ligeiramente acima de 37°C no dia seguinte”, disse Putin.

Vacina registrada nesta terça (11)

Segundo o ministro da Saúde russo, Mikhaíl Murachko, a vacina será fabricada pelo Instituto Estatal de Pesquisa Gamaleya, em parceria com a empresa Binofarm, a partir de setembro. Será financiada pelo Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF), que alocou quatro bilhões de rublos (aproximadamente US$ 54,2 milhões) para a missão.

A substância também passará por testes internacionais – nos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e vários países da América Latina, Ásia e Oriente Médio, de acordo com o diretor do RDIF, Kirill Dmitriev.

Vinte países já fizeram encomenda em um total de um bilhão de unidades.

“Junto com parceiros internacionais, estamos preparados para produzir mais de 500 milhões de doses ao ano em cinco países, com planos de expandir ainda mais a capacidade de produção”, acrescentou Dmitriev.

Cientista do Instituto Gamaleya  durante testes de laboratório

A vacina estará amplamente disponível a partir de 1º de janeiro de 2021, de acordo com o canal oficial no Telegram do centro operacional de coronavírus de Moscou.

Médicos e professores serão os primeiros a receber a injeção na Rússia, segundo o ministro da saúde. Putin, no entanto, acrescentou que a vacina será voluntária.

Fabricação e teste

Cientistas do Centro Nacional de Pesquisa Gamaleya para Epidemiologia e Microbiologia vêm desenvolvendo a vacina desde fevereiro, quando ficou claro que o mundo estava diante de uma grave ameaça. A equipe de desenvolvimento é chefiada pelo microbiologista e vice-diretor do centro, Denis Logunov.

O desenvolvimento da vacina levou apenas 14 dias, disse Logunov em entrevista à publicação on-line Meduza. Segundo ele, a vacina para Síndrome respiratória do Médio Oriente (ou SRME, que teve surto em 2012 e 2013) levou cerca de três anos para ser pesquisada antes de iniciar o desenvolvimento.

Cientista do Instituto Gamaleya  durante testes de laboratório

Em 2020, o Centro estava apenas na Fase 2 dos ensaios clínicos. “Quando o outro coronavírus apareceu [da covid-19], parente mais próximo na família do beta coronavírus, não tínhamos dúvidas sobre como abordar o desenvolvimento. Não houve lutas criativas. Era um trabalho de copiar e colar no sentido literal da palavra.”

Para fabricar a vacina, os cientistas precisaram de um portador de vírus, que introduz o DNA viral no organismo, provocando uma resposta imunológica. A vacina foi testada em ratos, hamsters e duas espécies de macacos – macacos rhesus e saguis.

Primeiros testes em humanos – e objeções

Os primeiros testes clínicos, iniciados em 17 de junho, foram conduzidos pela Primeira Universidade Estatal de Medicina de Moscou em parceria com o hospital militar Burdenko. Das 76 pessoas que participaram do ensaio, nenhum apresentou respostas imunológicas imprevisíveis, de acordo com Logunov.

Profissionais de saúde com roupa de proteção com voluntários de ensaio clínico da nova vacina russa

O cientista Vadim Tarasov, que trabalha na universidade onde os testes ocorreram, afirma que a Rússia teve uma “vantagem”, pois passou os últimos 20 anos trabalhando nessa área. “A tecnologia por trás da vacina russa é baseada no adenovírus, também conhecido como resfriado comum”, diz Tarasov. Criadas artificialmente, as proteínas da vacina replicam as da covid-19 e desencadeiam “uma resposta imunológica semelhante à causada pelo próprio coronavírus”, explica.

Houve efeitos colaterais perceptíveis, porém leves, nos indivíduos – entre eles, um aumento na temperatura, dor moderada e erupção cutânea ao redor da área da injeção. Em 1º de agosto, o ministro da Saúde disse a jornalistas que a Universidade Estatal de Medicina de Moscou e o Burdenko haviam concluído os testes, e o centro de coronavírus com sede na capital russa estava se preparando para registrar a vacina.

Na última segunda (10), a Associação de Organizações de Ensaios Clínicos (OTCA –que supervisiona o trabalho de instituições de pesquisa e empresas farmacêuticas na Rússia) enviou um pedido à pasta da Saúde para atrasar o registro, de acordo com a publicação on-line Meduza, que teve acesso a uma cópia da solicitação.

Os membros da associação alegam que o registro da vacina não deveria ser feito apressadamente, pois “nem mesmo 100 cobaias” foram incluídas nos testes, e a vacina para SRME desenvolvida recentemente ainda não tinha provado sua eficácia.

Voluntários de vacina russa deixam instalações em Moscou

“Um registro rápido não tornará a Rússia líder na corrida, apenas irá expor seus consumidores, entre eles os cidadãos russos, a perigos desnecessários”, lê-se na carta.

O próprio Logunov afirmou anteriormente que a vacina seria testada em milhares de pessoas. No entanto, o Centro desejava prosseguir com o registro, apesar das “condições limitadas”, para iniciar os testes no grupo de risco (idosos e indivíduos com problemas de saúde que poderiam ser agravados pelo coronavírus).

“O que queremos dizer com ‘condições limitadas’? Isso significa que, se não repetirmos [os resultados] em uma amostra maior, o registro não acontecerá. Portanto, é claro que realizaremos testes mais amplos – a previsão é de que levem seis meses”, disse Logunov. “E somente quando a eficácia e a segurança forem comprovadas é que receberemos permissão para um registro permanente.”

O Serviço Federal de Vigilância Sanitária em Saúde e Desenvolvimento Social da Rússia (Roszdravnadzor) confirmou esse posicionamento.

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