As 5 maiores cientistas da história da Rússia

David Sholomovich/Sputnik, Getty Images,Vasiliy Fedoseyev, Images from the History of Medicine (NLM), arqiovo
Da invenção do primeiro antibiótico nacional até as primeiras lâmpadas fluorescentes, essas mulheres deixaram sua marca na história da ciência.

Os primeiros cursos superiores para mulheres começaram a surgir na Rússia mais ou menos na mesma época que na Europa, na década de 1870. Mas o pleno direito das mulheres ao ensino superior, em igualdade de condições com os homens, só ocorreu na década de 1920.

Apesar disso, cientistas como Zinaída Ermôlieva, Sofia Kovalióvskaia, Lina Chtern, Olga Ladíjenskaya e Fatíma Butáeva mostram que, mesmo nos momentos mais difíceis, o esforço feminino pela ciência encontrou meios.

1. Zinaída Ermôlieva, a ‘Senhora Penicilina’

Zinaída Vissariônovna Ermôlieva (1898-1974), foi uma das fundadoras da microbiologia nacional. Em 1915, ela decidiu se tornar médica, após descobrir que seu compositor favorito, Piôtr Tchaikóvski, tinha morrido de cólera. Assim, Zinaída decidiu se dedicar à luta contra a doença, e ingressou na Universidade Estatal Donskôi, onde se formou em 1921.

Durante uma epidemia de cólera em 1922, Zinaída quase morreu depois de realizar um experimento em si mesma: tomou propositalmente água que continha bactérias semelhantes às da cólera ao pesquisar as formas de infecção. Graças à ousada experiência, criaram-se as regras contemporâneas de cloração da água.

Em 1939, ela foi enviada para pesquisar no Afeganistão, onde criou métodos para o rápido diagnóstico do cólera e uma droga eficaz não apenas contra esta doença, mas também para combater a febre tifoide e a difteria.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Zinaída conseguiu impedir a disseminação de epidemias de cólera próximo a Stalingrado. A doença se iniciou entre as tropas alemãs e ameaçava os moradores da cidade e os militares soviéticos, mas graças a Ermôlieva, a produção de iniciou-se a produção de bacteriófagos, vírus que afetam apenas bactérias, além de vacinações em massa e da cloração de poços, o que ajudou a deter a epidemia.

Uma das conquistas mais importantes da microbiologista soviética foi a invenção do primeiro antibiótico russo, o “Krustozin”, análogo da penicilina. O criador da penicilina, Howard Florey, esteve na URSS com uma delegação em 1944 para comparar dois medicamentos e detectou que o “Krustozin” era ainda mais eficaz que sua criação. Impressionado, Florey chamava Ermolyev de "Sra. Penicillin".

2. Sofia Kovalióvskaia, a primeira matemática

A primeira professora universitária do mundo e primeira matemática da Rússia, Sofia Vassílievna Kovalióvskaia (1850-1891), descobriu a matemática ainda cedo na infância. Reza a lenda que, devido à falta de papel de parede, sua casa era toda coberta de aulas do matemático Mikhaíl Ostrogradski, que fora professor do pai, sobre cálculo diferencial e integral.

Ela fez suas primeiras aulas em casa, mas só conseguiu ingressar no ensino superior no exterior. Naquela época, o acesso à universidade era vedado às mulheres, por isso Sofia fez um falso casamento e partiu com o marido, um jovem cientista, para a Alemanha.

Ali, ela fez aulas inicialmente na Universidade de Heidelberg e, depois, na Universidade de Berlim. Em 1874 ela terminou seu doutorado na Universidade de Göttingen.

Após o suicídio do marido, em 1883, Sofia partiu para Berlim com a filha e conseguiu um emprego como professora no departamento de matemática da Universidade de Estocolmo, na Suécia, onde lecionou e publicou obras em sueco.

Em 1888, a primeira professora universitária escreveu o artigo “A tarefa da rotação de um corpo sólido em torno de um ponto fixo”, no qual descobriu o terceiro caso clássico de resolução deste problema, aprimorando o trabalho iniciado por Leonard Euler e J. L. Lagrange.

3. Lina Chtern, a primeira pesquisadora acadêmica da URSS

Filha mais velha de uma grande família judia, Lina Solomonovna Chtern (1878-1968) nasceu na província da Curlândia (hoje, parte da Letônia), no Império Russo. Ela foi a primeira professora da Universidade de Genebra, onde estudou.

Mais tarde, ela se tornou a primeira pesquisadora acadêmica da URSS, para onde retornou em 1925, após receber um convite do Departamento de Fisiologia da Universidade Estatal de Moscou (a partir de 1930, intitulado como 2º Instituto Médico de Moscou).

Incrivelmente enérgica e eficiente, Lina foi, entre 1925 e 1949, chefe do departamento de fisiologia e, ao mesmo tempo (1929-1948), diretora do Instituto de Fisiologia do Comissariado do Povo para a Educação da RSFSR (mais tarde, a Academia de Ciências da URSS).

Em 1932, Chtern foi eleita membra da Academia Alemã de Ciências Naturais e, a partir de 1939, passou a fazer parte da Academia de Ciências da URSS. A principal direção de sua pesquisa era o estudo das bases químicas e físico-químicas dos processos fisiológicos em humanos e animais.

Foi ela quem introduziu o termo "barreira hematoencefálica", ou seja, o mecanismo que regula seletivamente as trocas de substâncias entre o sangue e o sistema nervoso central e que desempenha a função de proteção do corpo.

Sob liderança dela, desenvolveu-se um método de eletropulso para impedir a fibrilação ventricular do coração e criou-se o primeiro dispositivo para eletroterapia cardíaca. Também foi graças a ela que foi desenvolvido o tratamento de choque traumático, amplamente utilizado em hospitais militares durante a Segunda Guerra Mundial.

Já em 1947, Chtern propôs um método eficaz para o tratamento da meningite tuberculosa, com a introdução de estreptomicina no líquido cefalorraquidiano, diretamente através do crânio.

Certa vez, a ciência salvou a vida de Chtern: em 1949 ela foi presa por ligação com o caso do Comitê Antifascista Judeu. Organizado em 1941 por líderes da união dos trabalhadores judeus, o comitê tinha por objetivo influenciar a opinião pública e reunir apoio político e material para a luta soviética contra a Alemanha nazista. Mas, em 1952, como parte da campanha antissemita "Cosmopolitas sem raízes" de Stálin, muitos de seus membros mais destacados foram presos sob acusação de espionagem, torturados, julgados e executados. Eles foram reabilitados apenas em 1988.

Chtern escapou da execução afirmando no tribunal que não queria morrer, porque não havia feito tudo o que podia pela ciência. Mesmo assim, Chtern passou os anos seguintes, de 1949 até 1953, no exílio, no Cazaquistão.

Mais tarde, ela retornou a Moscou, onde chefiou o departamento de fisiologia do Instituto de Biofísica Teórica e Experimental da Academia Russa de Ciências.

4. Olga Ladíjenskaia, matemática

Matemática destacada do século 20, Olga Aleksândrovna Ladíjenskaia (1922–2004) nasceu na pequena cidade de Kologrív, na região de Kostromá. Seu pai, Aleksandr Ivânovitch, professor escolar de matemática e ex-oficial do exército tsarista, incutiu cedo em sua filha o amor pela matéria (já aos 10 anos ela resolvia facilmente problemas de matemática do ensino superior).

Mas o caminho para a ciência não seria fácil para a moça. Em 1937, seu pai sofreu repressões e logo acabou executado, recaindo sobre ela o estigma de “filha do inimigo do povo”. Foi isto o que impediu que Olga ingressasse na faculdade de matemática e mecânica da Universidade de Leningrado.

Foi só em 1943 que ela conseguiu se matricular na faculdade de matemática e mecânica da Universidade Estatal de Moscou. Em 1947, ela ingressou finalmente no doutorado da Universidade Estatal de Leningrado, onde posteriormente se tornou professora no departamento de matemática e física.

Conhecida por seu rigor, inteligência curiosa e franqueza, Ladíjenskaia escreveu mais de 200 artigos que abrangem uma ampla gama de problemas da teoria de equações diferenciais parciais. Seu trabalho na teoria da hidrodinâmica, por exemplo, joga luz sobre tarefas relacionadas ao movimento de navios, torpedos, sangue nos vasos e líquidos em bombas.

Como o pai, Olga era uma pessoa versátil e amava não só a ciência, mas também a pintura, a poesia e a música. Entre seus amigos estavam diversas personalidades da cultura, como a poetisa Anna Akhmátova – que a escolheu como um dos eleitos a guardar seus versos durante os anos de repressão.

Olga também é uma das 257 “Testemunhas do Arquipélago”, cujas histórias, cartas, memórias e correções foram utilizadas por Aleksandr Soljenítsin ao criar o livro “O Arquipélago Gulag”.

6. Fatíma Butáeva, inventora das lâmpadas fluorescentes

Nascida em uma cidadezinha da Ossétia onde poucos sabiam escrever, Fatíma Aslanbékovna Butáeva (1907-1992) iniciou a carreira como professora de matemática em Kuibichev imediatamente após concluir a Segunda Universidade Estatal de Moscou, em 1932.

Fatíma retornou a Moscou naquele mesmo ano e trabalhou dois anos como professora de mecânica teórica na escola técnica do Complexo de Escolar Metrostroi. Em 1934, ela passou a trabalhar no Instituto Eletrotécnico da União, no laboratório de fontes de luz, inicialmente como engenheira e, depois, como chefe da cátedra.

Devido a seu trabalho, Fatíma ficou posteriormente conhecida como a coautora da invenção das primeiras lâmpadas fluorescentes. Por essa invenção, ela recebeu, em  1951, um Prêmio Stálin.

No mesmo ano, Butáeva apresentou, juntamente com colegas, uma reivindicação da criação de um novo princípio de amplificação de luz – hoje, usado em todos os lasers.

Esta invenção foi algo à frente de seu tempo, mas foi somente oito anos depois que ela recebeu reconhecimento e foi inscrita no Registro de Descobertas Científicas da URSS.

LEIA TAMBÉM: Cão de duas cabeças: como um médico soviético foi pioneiro no transplante de órgãos 

Autorizamos a reprodução de todos os nossos textos sob a condição de que se publique juntamente o link ativo para o original do Russia Beyond.

Mais reportagens e vídeos interessantes na nossa página no Facebook.
Leia mais

Este site utiliza cookies. Clique aqui para saber mais.

Aceitar cookies