Rússia desenvolve novos remédios para missão a Marte

Cosmonautas Serguêi Volkov e Iúri Malentchenko durante atividade  extraveicular

Cosmonautas Serguêi Volkov e Iúri Malentchenko durante atividade extraveicular

Roscosmos
Experimento em órbita ajudará a desenvolver drogas para tratar cosmonautas em voos espaciais de longa distância. Início é previsto para primeiro semestre de 2018.

Atualmente, os cosmonautas que trabalham a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) têm um kit médico com medicamentos comuns. Mas os problemas poderão ser mais complexos durante longas missões, como, por exemplo, um voo a Marte. É por isso que os cientistas russos decidiram ver como o espaço afeta células-tronco para criar novos medicamentos. Em maio de 2018, por exemplo, eles planejam enviar para a ISS um novo biorreator com células-tronco.

“Não sabemos como as células se comportarão em diferentes situações de gravidade, seja microgravidade (ausência de peso), ou aumento da gravidade”, diz Mikhail Kracheninnikov, pesquisador-chefe no departamento de Tecnologias Avançadas da Primeira Universidade Estatal de Medicina de Moscou, que desenvolveu o biorreator.

A instituição levou 14 anos para criar o equipamento. “Ninguém foi capaz de cultivar células em um ambiente de voo espacial antes”, diz o cientista. “O mecanismo de crescimento celular em órbita jamais foi testado na prática até então”, continua.

No primeiro experimento do biorreator, os especialistas tentarão cultivar células de plantas em órbita, que serão monitoradas constantemente pela equipe da ISS. Uma vez que os cientistas entenderem como as células se comportam na microgravidade, eles começarão a investigar os processos em nível celular no corpo humano.

“Todas as plantas a bordo da ISS e outras minas espaciais são mantidas em centrífugas especiais, porque, de outra forma, as raízes começam a crescer para cima, em todas as direções possíveis”, diz Kracheninnikov. “O ambiente em órbita é tal que mesmo as plantas ficam confusas, isso sem falar nos animais.”

No entanto, apesar das dificuldades, acredita-se que a adaptação de humanos em tais condições e tratá-los no espaço é um objetivo alcançável. Para isso, esperam aprender como o ambiente espacial afeta as células estaminais mesenquimais (MSC), que são a base para tecidos em todos os organismos vivos, desde plantas até humanos.

As MSC não dão origem a ossos, músculos e tecidos adiposos – elas também podem se transformar em células-tronco neurais. Essas células são a base de todos os sistemas de vital importância no corpo humano, incluindo o sistema nervoso central.

De câncer a osteoporose

Os efeitos dos voos espaciais em humanos são imprevisíveis. A radiação é o maior perigo: dos 22 cosmonautas soviéticos que faleceram até então, mais de 40% morreram de câncer. Os voos orbitais causam também outras doenças, desde surdez parcial até osteoporose. Alguns probióticos foram desenvolvidos para restaurar a digestão dos astronautas, e os alimentos espaciais possuem suplementos do tipo.

Na microgravidade o cálcio dos nossos ossos é eliminado por excreção no sangue e na urina, o que pode agravar os sintomas de cálculos renais. Em 1982, por exemplo, Anatôli Berezovski teve uma cólica aguda durante um voo espacial. “Doeu tanto que queria me jogar no espaço aberto”, lembra o cosmonauta, que decidiu não reportar o problema ao centro de controle para não abortar a missão e até concordou em ficar em órbita, estabelecendo um novo recorde – 211 dias.

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