Vida após seis horas em Marte

Projeto 2030 Mars é experiência psicológica na forma de um jogo

Projeto 2030 Mars é experiência psicológica na forma de um jogo

Divulgação
Experimento de um ano no Havaí que simulava sobrevivência em Marte terminou no final de agosto. Mas poucos sabem que qualquer curioso pode ter experiência semelhante em um instituto de Moscou, conforme relata repórter da Gazeta Russa.

Os dedos estão dormentes por causa do frio nessa estação marciana abandonada. Com a ajuda da luz fraca de uma lanterna, tentamos de tudo para corrigir o sistema de geração de energia. O centro de controle está em silêncio há 30 minutos. Metade da equipe está trancada em outro compartimento; a escotilha foi acidentalmente fechada.

Eu não sei há quanto tempo estamos aqui, mas parece uma eternidade. Às vezes ouvimos batidas leves. “Faça alguma coisa, estamos ficando sem ar”, diz o comandante, atrás da porta fechada.

O pior é que ainda não descobrimos o misterioso vírus que infectou a estação. Para isso, precisamos desvendar a senha e ter acesso ao computador.

“Precisamos saber que ano é hoje”, digo à médica (lembro-me que na Terra ela tinha um nome, mas agora já não me recordo qual).

Sou uma pesquisadora na Mars 2030, e o objetivo é descobrir o que aconteceu com a missão anterior a Marte. Por que todos morreram?

Realidade paralela 

Originalmente concebido como treinamento da equipe, o projeto Mars 2030, do Instituto de Problemas Biomédicos da Academia Russa de Ciências, é um experimento psicológico na forma de jogo.

As coisas ficam rapidamente claras ao nos isolarmos do mundo exterior, na realidade assustadora da missão Mars, e em condições de incerteza e tempo limitado.

Depois do experimento, os participantes conversam com psicólogos. Mas, em vez de pontuação ou recomendações, os especialistas os ajudam a tirar suas próprias conclusões.

Nos casos em que equipes corporativas fazem o exercício, por exemplo, é possível saber por que a comunicação entre o grupo é fraca, e as metas não são atingidas.

“Depende muito de quem está envolvido no experimento”, disse a criadora do programa de treinamento, Ekaterina Strijova, à Gazeta Russa.

“Certa vez, recebemos os funcionários de uma empresa russa de internet líder no mercado, e eles não só executaram as tarefas, como fizeram de modo brilhante. Eles sabiam, por exemplo, que em alguns pontos era possível usar a força, mas isso não era interessante para eles. Observá-los foi um prazer”, contou Strijova.

O custo do treinamento para seis pessoas varia 5.000 e 7.000 dólares norte-americanos, dependendo do conteúdo.

Até o momento, apenas equipes de língua russa realizaram o procedimento, mas segundo Strijova, o jogo poderá ser adaptado para estrangeiros.

Foto: Divulgação
Foto: Anatóli Doroschenko
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Oculto atrás dos muros

O discreto edifício de tijolo do Instituto de Problemas Biomédicos está localizado em uma das áreas centrais de Moscou, embora escondido de olhares curiosos por uma cerca alta. Tanto é que a maioria dos transeuntes sequer suspeita que o local abrigue a primeira estação marciana soviética.

O centro é composto por cinco módulos de isolamento com alojamento para tripulação e uma unidade experimental.

Foi exatamente no módulo que simula a superfície no planeta vermelho onde o nosso grupo permaneceu após instalar explosivos na estação, na intenção de salvar a Terra de um ataque por um vírus perigoso que teria matado a tripulação anterior.

O protótipo da estação marciana foi construído no final dos anos 1950, com a participação de Serguêi Korolev, fundador do programa de foguetes soviético.

No final dos anos 2000, a antiga estação foi atualizada pela Academia Russa de Ciências, em conjunto com a Agência Espacial Europeia, para o projeto internacional Mars-500 (uma simulação de voo a Marte).

Chegada ao planeta vermelho

O projeto Mars-500, por sua vez, envolveu seis voluntários treinados – três russos, um francês, um italiano e um chinês – que passaram 519 dias em total isolamento.

O “voo final” foi concluído com êxito no início de novembro de 2011, e os resultados da pesquisa forneceram a base do programa de treinamento criado por Strijova e sua equipe.

“Percebemos que essa é uma experiência única que pode ser usada não só para treinar cosmonautas, mas também para ajudar as pessoas em seu desenvolvimento profissional”, disse Strijova. “Nós adicionamos personagens, inventamos cenário e criamos as tarefas que os participantes devem executar.”

Enquanto isso, de volta à minha missão em Marte, ouvimos um sussurro a todo o tempo: “Vocês têm que sair, já estão atrás de vocês. Vocês todos vão morrer”.

Começo a pensar que essas vozes existem apenas na minha cabeça. Gritos são ouvidos a partir do próximo compartimento. As luzes se apagam. Os explosivos foram implantados. A Terra entrou em contato, e a escotilha se abre. Sinto a areia do planeta vermelho sob meus pés e, finalmente, vejo as estrelas acima de nós.

Foto: Anatóli Doroschenko
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