Know-how russo permitirá primeiro transplante de cabeça da história

Apesar de estudos, cirurgia de Spiridonov ainda carece de local e financiamento

Apesar de estudos, cirurgia de Spiridonov ainda carece de local e financiamento

Vladímir Smirnov/TASS
Programador russo Valéri Spiridonov passará por uma cirurgia de transplante de cabeça em 2017. Inventado na URSS, ‘substituto’ de sangue deverá ser usado em procedimento.

Tecnologias soviéticas permitirão executar com êxito uma operação de transplante de cabeça no programador russo Valéri Spiridonov, informou o cirurgião responsável Sergio Canavero. Spiridonov nasceu com uma doença chamada Werdnig-Hoffman, devido à qual tem atrofia muscular.

Segundo o médico italiano, o sucesso da operação dependerá da aplicação de Perftoran, também como “sangue azul”, um remédio de fabricação russa que poderá ajudar o corpo a lidar com a perda maciça de sangue quando a cabeça estiver separada do corpo.

A droga, inventada por um grupo de cientistas soviéticos liderado por Feliks Beloizartsev, no final dos anos 1970, é composta de hidrocarbonetos perfluorados que podem executar funções de intercâmbio de gases como o sangue natural. Além disso, é enriquecida com aditivos especiais, cuja proporção depende das necessidades individuais do paciente.

O uso de Perftoran foi sugerido a Canavero por pesquisadores do instituto ligado à Academia Russa de Ciências onde esse “substituto” de sangue foi desenvolvido. Os cientistas estão atualmente testando a aplicação de substância em transplantes de cabeça em animais.

Efeito siameses

O cirurgião vascular Anatóli Trochin propôs também uma nova maneira de salvar a vida de Spiridonov durante a operação no caso de uma eventual complicação. Canavero e Spiridonov estão agora avaliando a aplicação desse novo método.

Trochin propôs colocar a cabeça, uma vez separada do corpo, em um recipiente especial que tenha o tamanho e a forma do capacete de um astronauta. Este seria então conectado ao sistema vascular de um dador, possivelmente um parente de Spiridonov. “Externamente e em termos de formato, este recipiente deve ser adequado para o doador de sangue anexá-lo a seu corpo e carregá-lo por um longo período de tempo”, explica Trochin.

O aparato criaria um efeito semelhante ao de gêmeos siameses, e sensores especiais possibilitariam o fornecimento de drogas imunossupressoras para proteger a cabeça. O sangue processado pela cabeça poderia passar por um filtro antes de retornar ao dador.

O cirurgião descreveu seu método não só em artigos científicos, mas já publicou seu terceiro romance de ficção cientifica sobre o transplante de órgãos, intitulado “A cirurgia de transplante de cabeça é possível e desejada?”.

“É impossível prever a incompatibilidade psicológica entre as cabeças”, alega Trochin. “Essa questão só pode ser resolvida por meio de inúmeras substituições de doadores até que o par mais psicologicamente compatível seja encontrado.”

Segundo Gueórgui Stepanov, professor de traumatologia e ortopedia no Instituto Central de Traumatologia e Ortopedia (TsITO, na sigla em russo), usar os próprios vasos sanguíneos e nervos de outros tecidos do corpo do paciente eliminaria o problema da rejeição pelo organismo receptor.

Cabeça russa e corpo chinês?

Até agora, apenas o Vietnã, a Coreia do Sul e a China concordaram em participar da experiência de Canavero. Nenhuma clínica russa se dispôs a aceitar a responsabilidade pela cirurgia, e a própria legislação impede a realização do procedimento em território nacional.

No entanto, além de Spiridonov ter demonstrado preferência por realizar a operação na Rússia, esse tipo de transplante requer um organismo com características semelhantes.

“Não achamos local nem financiamento para a minha operação na Rússia”, disse Spiridonov. “Se a operação for realmente realizada em 2017, é provável que seja na China. O país fez progressos consideráveis nesta área”, completa, referindo-se aos mais de 1.000 experimentos chineses em ratos, macacos e cadáveres humanos.

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