“Fiquei impressionado com a Rússia à frente dos EUA na corrida espacial”

Hawking: “Se as máquinas produzem tudo o que precisamos, o resultado vai depender de como as coisas são distribuídas”

Hawking: “Se as máquinas produzem tudo o que precisamos, o resultado vai depender de como as coisas são distribuídas”

AP
Em entrevista exclusiva à agência Tass, o físico Stephen Hawking fala sobre a futura colonização de Marte, as perspectivas de cooperação EUA-Rússia no espaço e os desafios que a humanidade deverá enfrentar ao longo do século.

Certa vez você publicou a seguinte pergunta na internet: “Em um mundo que está em caos político, social e ambiental, como poderá a raça humana se manter por mais 100 anos?”. Isso foi em 2006. Você encontrou a resposta desde então?

Stephen Hawking: Para a nossa sobrevivência a longo prazo, é importante que sejamos capazes de escapar dos limites do nosso frágil planeta. Há muitas ameaças à nossa existência na Terra. Desde guerra nuclear, aquecimento global catastrófico e vírus geneticamente modificados, e o número tende a aumentar no futuro, com o desenvolvimento de novas tecnologias e novas formas de como as coisas podem dar errado. Precisamos nos espalhar pelo espaço, e por outras estrelas, por isso, um desastre na Terra não significaria o fim da raça humana.

Alguns pesquisadores afirmam que o misterioso planeta X ou Nibiru poderia representar uma ameaça real para a Terra. O que você acha?

SH: A última colisão com um grande asteroide foi há 70 milhões de anos. Há perigos mais imediatos para a nossa sobrevivência.

De acordo com o livro “Minha breve história”, você visitou a União Soviética sete vezes. O que foi mais memorável para você durante essas viagens?

SH: A primeira vez foi com uma reunião de estudantes em que um membro, um fiel da Igreja Batista, distribuiu bíblias em língua russa e nos pediu para contrabandeá-las para o país. Conseguimos fazer isso sem sermos detectados, mas, no meio do caminho, as autoridades haviam descoberto o que tínhamos feito e nos detiveram por algum tempo. No entanto, nos denunciar por contrabando de bíblias teria causado um incidente internacional e publicidade desfavorável, então, eles nos liberaram após algumas horas. As outras visitas foram para visitar cientistas russos que não tinha autorização para viajar ao Ocidente.

Após a queda da URSS, você não esteve mais na Rússia. Gostaria de visitar o país novamente, por exemplo, com a sua filha Lucy Hawking, que estudou russo na Universidade de Oxford?

SH: Eu gostei das minhas visitas anteriores à Rússia e gostaria de visitar [o país] novamente.

A Rússia vai celebrar o 55º aniversário do primeiro voo tripulado ao espaço – o Dia do cosmonauta, ou o dia do primeiro voo espacial tripulado. Quais foram seus sentimentos naquele momento em 12 de abril de 1961?

SH: Fiquei impressionado com a Rússia à frente dos EUA na corrida espacial.

Passaram-se mais de 25 anos desde que a Rússia assumiu o posto de potência espacial. Como você avaliaria esse potencial atualmente?

SH: Os norte-americanos contam com a Rússia para as viagens de e para a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês). Acho que o futuro está em tal cooperação internacional.

Você apoiou o ambicioso projeto “Iniciativas Inovadoras” no ano passado. O programa é financiado pelo empresário russo Iúri Milner e tem por objetivo procurar vida extraterrestre. Alguns céticos chegaram a descrevê-lo como “um desperdício de dinheiro”. Afinal, quais são as chances de sucesso do projeto?

SH: Sou um defensor das Iniciativas Inovadoras, fundado por Iúri Milner, para procurar vida extraterrestre. Pela análise dos dados de radiotelescópios e transmissões de laser, eles esperam encontrar sinais de inteligência, de que a Terra não é a única fonte de vida no universo. Esta descoberta iria revolucionar a nossa visão do cosmos.

A agência espacial russa Roscosmos e a norte-americana Nasa estão trabalhando em um projeto de voo tripulado para Marte. Qual seria a importância prática disso, considerando que Marte não dispõe de condições adequadas para a vida humana?

SH: A Nasa e outras agências espaciais de todo o mundo estão focadas em Marte. É o planeta com características mais próximas da Terra, com solo e atmosfera. Apesar de ser mais fácil colonizar a Lua, que está a apenas três dias de distância, Marte representa um desafio mais interessante, e exigiria que a colônia fosse totalmente autossuficiente. Dentro de 100 anos, não tenho nenhuma dúvida, haverá seres humanos vivendo em Marte. Para fazer isso precisamos de investimento, que nos permitem ampliar o nosso conhecimento, sobre como sobreviver os perigos da radiação cósmica, a deterioração do corpo e como lidar com a falta de suprimentos vitais fora da Terra.

A quarta revolução industrial ou Indústria 4.0 foi um dos temas do Fórum Econômico Mundial, em Davos. Teoricamente, isso envolve o desenvolvimento de robôs e a abolição do trabalho humano. Se os robôs nos substituírem em um futuro próximo, o que teremos de fazer nesse caso?

SH: Se as máquinas produzem tudo o que precisamos, o resultado vai depender de como as coisas são distribuídas. Todos podem desfrutar de uma vida de lazer luxuosa se a riqueza, também produzida por máquinas, for compartilhada, ou a maioria das pessoas podem acabar ficando miseravelmente pobres se os proprietários de máquinas fizeram lobby contra redistribuição da riqueza. Até agora, a tendência parece ser para a segunda opção, com tecnologia conduzindo a uma desigualdade cada vez maior.

Você é um cientista famoso, assim como um propagador bem-sucedido da ciência. Qual dessas atividades científicas você mais gosta?

SH: Sou um cientista, em primeiro lugar. Tenho muito orgulho de ter contribuído para a nossa compreensão do universo. Também fico feliz que meu trabalho tenha alcançado um público maior, porque acredito que seja importante as pessoas saberem sobre, e terem a chance de entender, o trabalho aparentemente misterioso de cientistas.

Conte-nos um pouco sobre a sua rotina no dia a dia...

SH: Por conta da minha condição, encaro uma rotina longa ao me levantar de manhã, e, assim, normalmente chego ao trabalho no final da manhã. Meu dia de trabalho é dividido em pesquisa científica e conscientização pública.

Como você costuma relaxar?

SH: À noite, gosto de relaxar me entretendo, ouvindo música ou vendo filmes e temas atuais na televisão. Apesar disso, geralmente fico inquieto à noite e durmo mal.

Professor Hawking, qual é o seu sonho?

SH: Eu sempre sonhei com um voo espacial. Mas por anos pensei que fosse apenas isso, um sonho. Confinado à Terra, e em uma cadeira de rodas, como eu poderia experimentar a majestade do espaço, exceto pela imaginação e pelo meu trabalho com física teórica. Nunca pensei que teria a oportunidade de ver o nosso belo planeta do espaço, ou observar para além do infinito. Este é o campo dos astronautas, alguns poucos sortudos, que podem experimentar a maravilha e a emoção de um voo espacial. Mas eu posso ter a chance de ir para o espaço com a Virgin Galactic.

Texto originalmente publicado pela agência de notícias Tass

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