Cientistas criam acelerador para uso de fusão nuclear contra o câncer

Técnica foi concebida por neurocirurgião japonês nos anos 1970

Técnica foi concebida por neurocirurgião japonês nos anos 1970

Lori / Legion-Media
Grupo de pesquisadores em Novosibirsk usou uma antiga técnica de fusão nuclear, com isótopos de Boro-10, para destruir células cancerosas. Após testes com equipamento moderno, método mostrou ser promessa para casos de difícil tratamento.

Um experimento com uso de feixe de nêutrons foi realizado com sucesso para terapia contra câncer, no início de março, na Sibéria. A técnica é conhecida como terapia de captura do nêutron pelo boro (BNCT, na sigla em inglês).

Segundo os cientistas russos do Instituto de Física Nuclear, em Novosibirsk, e os neurocirurgiões japoneses da Universidade de Tsukuba, o método testado por eles poderia ser usado contra a maioria dos tipos de tumores malignos que geralmente não respondem aos tratamentos tradicionais, entre eles o glioblastoma, no cérebro.

O experimento confirmou que as células cancerosas que receberam aplicação de boro morrem após exposição aos feixes de nêutrons proveniente de um acelerador de partículas. Também estabeleceu a dose e o tempo necessários para o procedimento.

“Esta é a única forma eficaz de lidar com tumores invasivos cujas células estão distribuídas por todo o corpo”, diz o cirurgião Aleksandr Zaboronok, professor associado da Universidade de Tsukuba, à Gazeta Russa.

“É impossível remover por completo ou destruí-los usando métodos convencionais. Se a radioterapia padrão ‘conduz disparos indiretos’, nós ‘plantamos explosivos sobre os alvos e depois detonamos.”

O método parte do princípio que as células tumorais concentram isótopo de boro-10 em uma proporção maior que as células saudáveis. Assim, o paciente recebe uma solução de boro-10, e depois sofre irradiação com um fluxo intenso de neutrões.

O encontro do isótopo com o feixe de nêutrons produz uma reação nuclear no interior que danifica o DNA e mata a célula cancerosa.

Há diversos estudos brasileiros sobre o uso de BNCT como um tratamento alternativo para o câncer.

Em “A física da terapia de captura de nêutrons pelo boro”, publicado na Revista Brasileira de Ensino de Física, em 2010, o autor sugere que, embora seja um “bom exemplo da aplicação dos conceitos da física moderna na medicina, [a BCNT] não substitui totalmente outras terapias”.

Antes e depois de Fukushima

O neurocirurgião japonês Hiroshi Hatanaka foi pioneiro no uso de terapia de captura do nêutron pelo boro, nos anos 1970.

Um dos pacientes de Hatanaka viveu 21 anos após a operação. Mas logo ficou claro que esse procedimento não seria possível em larga escala dentro de usinas nucleares.

“Antes do incidente em Fukushima, usávamos o reator JRR-4 como uma fonte de nêutrons, mas ele foi danificado”, disse à Gazeta Russa Kei Nakai, professor na Universidade de Tsukuba. “Depois disso, o governo japonês proibiu o uso de reatores nucleares para fins médicos.”

Feixe de nêutrons

Os cientistas baseados em Novosibirsk foram os primeiros no mundo a desenvolver um feixe de nêutrons para emitir radiações contra célula.

A ideia de criar uma fonte alternativa de nêutrons para o tratamento de pacientes com câncer já era aviltada, mas ganhou novo impulso após o desastre de Fukushima.

Desde então, especialistas do Japão, dos EUA, e da União Europeia, além da Rússia, começaram a projetar aceleradores capazes de produzir o mesmo feixe de nêutrons que um reator nuclear.

“Havia um grande risco que não funcionasse de modo algum”, diz Serguêi Taskaev, pesquisador sênior do Instituto de Física Nuclear. “Nós começamos em 2003, mas alcançamos os parâmetros necessários do feixe apenas em 2015.”

Humanos a partir de 2018

Novas e mais eficientes soluções contendo boro-10 foram disponibilizadas pelos neurocirurgiões da Universidade de Tsukuba, no Japão, para o experimento.

Esses agentes foram adicionados à cultura de células tumorais e, em seguida, sofreram irradiação com nêutrons. O procedimento ocorreu em ambiente isolado.

“O futuro do método está em aceleradores compactos e seguras, porque é simplesmente impossível instalar um reator nuclear em uma clínica”, disse Nakai.

A expectativa é que testes com animais sejam realizados em 2017, para que um ano depois comecem os primeiros procedimentos com seres humanos. 

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