Planeta dos macacos é vermelho

Macacos True e Proud após viagem de 7 dias a bordo do biossatélite soviético Kosmos-1667. Entre os tripulantes, havia também ratos, peixes, insetos, anfíbios e plantas.

Macacos True e Proud após viagem de 7 dias a bordo do biossatélite soviético Kosmos-1667. Entre os tripulantes, havia também ratos, peixes, insetos, anfíbios e plantas.

Ria Nôvosti/Vladímir Rodionov
Retomada do programa Bion, de envio de biossatélites ao espaço, já lançou, desde 2013, camundongos e lagartixas cosmonautas.

O IBMP (da sigla em inglês, Instituto de Problemas Biomédicos de Moscou) anunciou que retomará um experimento com macacos para simular sua jornada de ida e volta a Marte. A viagem, segundo cientistas, deve durar 520 dias.

A experiência segue os moldes do Mars-500, projeto que, entre 2010 e 2011, confinou em uma cápsula estacionada em Moscou três cosmonautas russos, um chinês, um francês e um colombiano naturalizado italiano. A meta, agora, é preparar seus parentes primatas em dois anos para viajar ao planeta vermelho.

Os quatro macacos escolhidos foram criados em viveiros especiais para programas científicos e passaram por uma seleção rigorosa.

“Os macacos precisam ser civilizados, aprender a se sentar em uma cadeira para, então, executar operações diversas”, diz Inessa Kozlôvskaia, chefe do departamento de profilaxia e fisiologia sensorial e motora do instituto.

Matemáticos e arteiros

Apesar de esses animais traquinas, inicialmente, não conseguirem sequer sentar-se naturalmente na poltrona, a ideia é que, em caso de emergência, eles poderiam assumir o controle da nave.

Mesmo com o tempo curto e as adversidades, pelo cronograma do projeto, os escolhidos já poderão até resolver problemas matemáticos de cabeça até o final de 2016.

Porquinhos-da-índia espaciais Foto: Sholomovich / RIA NóvostiPorquinhos-da-índia espaciais Foto: Sholomovich / RIA Nóvosti

“A Rússia planejando enviar macacos para o espaço é uma grande novidade, pois quem usou esses animais sempre foi a agência norte-americana Nasa”, diz o jornalista científico Roberto Kaz, que acaba de finalizar o mestrado na Universidade de Columbia sobre um camundongo-comandante enviado recentemente ao espaço pelos russos.

Após o início do programa espacial americano, em 1948, os EUA tentaram, sem sucesso, enviar ao espaço cinco macacos. Todos se chamavam Albert e todos morreram durante o procedimento.

Cãomonautas

Além de serem mais fáceis de se adestrar, os cães não precisavam de anestesia, como os macacos. Por isso, de 1951 até os anos 1970 dezenas deles foram ao espaço pelas mãos dos soviéticos.

Belka e Strelka, os primeiros animais a orbitar e retornar com vida, em 1960. Foto: Fotosoyuz/Vostock-photoBelka e Strelka, os primeiros animais a orbitar e retornar com vida, em 1960. Foto: Fotosoyuz/Vostock-photo

Mas, também devido à duração do voo, a expedição simulada a Marte usa macacos para ajudar a avaliar a interação dos animais nas condições propostas e a obter dados experimentais sobre o estado de saúde, cognição e capacidade de trabalho durante uma viagem longa pelo espaço.

“Caso contrário, estaremos enviando pessoas com uma passagem só de ida”, diz Kozlôvskaia.

A Rússia reanimou recentemente seu programa Bion, de envio de biosatélites (ou seja, satélites com animais dentro) ao espaço. A missão de reinauguração do programa foi a Bion M-1, em 2013, que levou 45 camundongos ao espaço. Entre esses, estava o camundongo batizado de Major Tom, objeto de estudo de Kaz.

Para ele, a afirmação de Kozlôvskaia, apesar dos protestos de protetores dos animais, faz algum sentido na continuada disputa da corrida espacial.

“Foram os russos que tiveram o primeiro êxito com um animal que foi ao espaço e voltou com vida; em seguida, houve a cadela Laika, primeiro ser vivo a orbitar a Terra e que morreu no espaço; ainda antes disso, teve o Sputnik; e, depois, Gagárin, primeiro homem a orbitar a Terra. Além da figura central de [Serguêi] Koroliov, então chefe da agência espacial russa, foi a falta de uma cautela excessiva, que prejudicou os americanos, o que beneficiou os russos no espaço”, diz Kaz.

Lagartixas muito sexy

Lançamentos mais recentes de biossatélites do país, porém, têm gerado polêmica. Foi o caso das cinco lagartixas-cosmonautas que partiram da Terra em junho - mas não resistiram à viagem de retorno. O objetivo do estudo, por mais estranho pareça, era estudar os efeitos da ausência de gravidade na libido.

Dos camundongos que partiram com Major Tom, também poucos resistiram: apenas 16 dos 45 iniciais. A história completa da vida de Major Tom, batizado em homenagem a uma canção de David Bowie, estará no “Livro dos Bichos”, que Kaz lança em março pela Cia das Letras.

3 etapas dos envios russos

1. Em 1951, a URSS envia ao espaço os cães Dezik e Tsigan, primeiros animais a ir e retornar com vida do espaço. Do mesmo período, Laika foi a primeira cadelinha a orbitar no espaço, apesar de retornar sem vida, em 1957.

2 De 1973 a 1997, a Rússia mandou 212 ratos e 12 macacos para o espaço, além de insetos, anfíbios, répteis e células humanas. Além disso, em 1990, nasceram os primeiros filhotes de codorna no espaço. Mas eles não conseguiram se adaptar à ausência de gravidade, e a maioria morreu.

3 Após sua interrupção, em 1997, o programa Bion é retomado com o lançamento de seis pequenos satélites em 2013 portando camundongos, lagartixas, peixes, gerbos, escargots e microorganismos.

 

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