Moscou reforça apoio a acordo da Cúpula do Clima em Paris

Aumento de temperatura global tem gerado fenômenos catastróficos no país, como enchentes na Sibéria

Aumento de temperatura global tem gerado fenômenos catastróficos no país, como enchentes na Sibéria

Aleksêi Malgavko/RIA Nôvosti
Vladímir Pútin, Barack Obama e Dilma Rousseff estão entre os nomes confirmados para a reunião em Paris, cujo objetivo é determinar a política climática para os próximos anos. Acordo deve pautar governo russo na minimização de riscos ambientais gerados pelo aumento da temperatura global.

De acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Moscou apoia a adoção do acordo pré-definido para a COP21, conferência mundial sobre o clima que acontece a partir de 30 de novembro em Paris. O acordo define que o aumento da temperatura na Terra não poderá ultrapassar 2°C até o final do século, em relação ao nível pré-industrial.

O consenso sobre o assunto foi atingido durante a cúpula de líderes do G20, que se encerrou na segunda-feira (16) na Turquia. No texto final do encontro, os países garantiram a determinação de adotar um protocolo ou instrumento com força legal nos termos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.

Em nota, o ministério russo destaca que o país “superou as primeiras metas de redução de gases poluentes definidas no Protocolo de Kyoto. As emissões no setor de energia russo foram reduzidas em 37% nos últimos 20 anos, o que equivale às emissões de todos os países da UE por cinco anos, e de as emissões dos EUA por três anos.” 

“Além disso, o PIB russo teve um crescimento de quase 80% nos últimos 15 anos, enquanto o crescimento das emissões de gases, graças à modernização e à regulação, foi de apenas 12%”, lê-se no comunicado da diplomacia russa.

O presidente russo Vladímir Pútin havia confirmado a participação na Cúpula do Clima em Paris durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, no final de setembro. Na época, classificou as mudanças climáticas como “um dos problemas mais importantes que a humanidade enfrenta” – menção também presente no documento final da recente reunião do G20.

Apesar do avanço apresentado pelo país, o diretor do departamento de ecologia do Ministério de Desenvolvimento Econômico russo, Vladímir Maksimov, acredita que os resultados da cúpula em Paris e a assinatura do acordo é que vão determinar “o quão longe o governo irá para o desenvolvimento de adaptação e de energia verde, que por enquanto produz apenas um por cento da eletricidade no país”.

Adaptação global

A principal diferença entre o Protocolo de Kyoto e o acordo da COP21, cuja assinatura é esperada durante a cúpula, é que a ênfase não será colocada sobre as emissões, mas sobre as formas de adaptação às alterações climáticas.

“A questão não será o desenvolvimento de um plano para a redução das emissões de gases de efeito de estufa, mas os recursos e quanto tempo as principais economias do mundo darão aos mais países vulneráveis para a adaptação às mudanças climáticas”, diz Aleksêi Kokôrin, diretor do programa de energia da WWF na Rússia.

A expectativa dos especialistas é que a soma destinada ao problema seja em torno de 100 bilhões de dólares até 2020. O acordo de Paris será, segundo Kokôrin, “uma pausa de 10 a 15 anos na redução de emissões”, compensada “pela ajuda maciça aos países mais fracos”.

A ideia é que os países desenvolvidos repassem o problema a grandes empresas privadas, e os países em desenvolvimento recebam recursos para a adaptação.

A Rússia, classificado no grupo intermediário de países (desenvolvida o suficiente para não precisar de ajuda financeira, mas não suficientemente forte para ser doadora), deve ser, portanto, ignorada pela agência da cúpula, acreditam os observadores.

“Enquanto isso, a Rússia vai tentar entender como fazer parte da tendência mundial de baixa emissão de carbono sem prejudicar a sua economia, que é muito dependente da energia tradicional”, acrescenta Kokôrin.

Moscou já demonstrou disposição em emitir, até 2030, 30% menos gases de efeito estufa do que em 1990. Os ecologistas preveem ao longo dos próximos anos grande estímulo do governo à adaptação e ao desenvolvimento de energia verde.

Rússia em alerta

Uma das maiores enchentes na história contemporânea da Rússia aconteceu em 2012, com a morte de 171 pessoas na costa do mar Negro. Em um período de dois dias, as regiões montanhosas do território de Krasnodar receberam a quantidade de cinco meses de chuvas. Os rios transbordaram e, assim como na recente tragédia em Mariana (MG), uma corrente de lama varreu aldeias e pequenas cidades nos arredores.

A inundação, que começou de madrugada, pegou tanto a população como as autoridades de surpresa. Como o sistema de alarme do município não tinha funcionado e não havia preparo para esse tipo de ocorrência, o governo local foi responsabilidade pelo incidente.

Três anos depois, porém, pesquisadores russos e alemães provaram que a culpa de outro fator: o clima. Em um artigo publicado pela “Nature Geoscience” em julho passado, os cientistas ligaram às inundações em Krasnodar ao aumento de 2 graus Celsius em relação às temperaturas registradas no mar Negro desde 1984.

Segundo os cientistas, trata-se de um caso em que os dados científicos apontam para a necessidade de adaptar uma determinada cidade às alterações climáticas. No entanto, na Rússia, apenas São Petersburgo conta com um plano desse tipo.

A estratégia climática que a cidade adotou recentemente vinha sendo desenvolvida ao longo de quatro anos e baseia-se nas experiências de Finlândia,  Dinamarca, Reino Unido e Índia. A estratégia lista medidas para prevenção dos riscos e adaptação às mudanças climáticas, como inundações, já que o nível do Golfo da Finlândia pode subir um metro até o ano de 2100.

Nem Moscou, que sofreu severas ondas de calor em 2010, nem o Extremo Oriente, que em 2013 foi atingido por enchentes catastróficas, e nem o Ártico russo, que vem perdendo anualmente um territórios equivalente ao de Andorra devido ao aquecimento global e erosão, têm um plano de adaptação às mudanças climáticas.

Em números

Sete dos dez anos mais quentes na Rússia desde 1936 ocorreram no século 21;

2007 foi o ano mais quente nesse período (a temperatura foi 2,07°C superior à média); 

54% dos russos se informam sobre mudanças climáticas, segundo pesquisa pública;

119 desastres ecológicos aconteceram na Rússia entre 1997 e 2012, de acordo com o Serviço Federal Russo de Hidrologia e Vigilância Ambiental. Nos últimos 15 anos frequência cresceu, em média, de duas a três vezes;

33% dos russos acreditam que os seres humanos são culpados pela ocorrência de tais desastres

 

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