Dois aviões em um

Su-24 Foto: AP

Su-24 Foto: AP

Na década de 60 do século 20, a indústria de defesa soviética foi colocada perante uma tarefa difícil. A Força Aérea queria um avião que combinasse as qualidades do caça-bombardeiro Su-7B com as do caça-interceptor Su-15. A nova máquina deveria ser capaz de acertar em alvos terrestres de pequena dimensão, de atingir velocidade supersônica e ser capaz de penetrar a baixa altitude no sistema de defesa aérea do inimigo.

Desde 1963 que se definiu que a base para o novo aparelho seria o Su-15. No entanto, já durante os trabalhos, a base sofreu alterações substanciais. O radar Orion, instalado sob o cone do nariz da aeronave, era muito grande, o que tornava racional o pouso em tandem dos pilotos. Para garantir a decolagem e pouso curtos foi desenhado um aparelho com 4 motores RD36-35, no entanto, logo três meses após o primeiro voo (24 de agosto de 1965), a aeronave recebeu dois motores AL-21F (de acordo com algumas fontes, para a sua criação foi utilizado o motor J79 retirado de um caça norte-americano abatido no Vietnã).

Nessa altura os construtores soviéticos já estavam muito atrás dos seus colegas norte-americanos, que 8 meses antes haviam colocado no ar o F-111. O avião norte-americano já possuía as asas alteradas para o tipo flecha (IGK na sigla russa) que permitiam combinar o voo supersônico com um voo baixo estável e uma grande capacidade volumétrica para o transporte de bombas.

F-111 Foto: AP

O avião soviético com IGK foi para o ar pela primeira vez apenas em 17 de janeiro de 1970 e, logo nessa altura, recebeu a sua designação oficial: Su-24. No entanto, levou mais de 5 anos para ser aceito no exército.

O atraso nas finalizações operacionais e a adoção do avião estiveram condicionados pelo grande número de acidentes aéreos ocorridos durante os testes, especialmente nos testes das fases iniciais. Isto se devia ao fato de terem sido incorporados na estrutura da aeronave muitas soluções novas ao mesmo tempo, nunca antes utilizadas na aviação nacional.

A aeronave conseguia voar em regime automático e semiautomático, com o contorno do relevo a uma altitude a partir de 50 m. Para encontrar os alvos, o Su-24 recorria ao radar, complementado com um telêmetro a laser e um sistema de TV. Tal variedade de dispositivos de observação ampliou o tipo de alvos do ataque e o diapasão da altitude a partir do qual esse ataque podia ser feito.

Apesar da variedade do arsenal, da existência de armas telecomandadas e do volume de carga sem precedentes, a principal arma da aeronave, tal como em muitos de seus antecessores, era uma bomba nuclear tática. De acordo com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, naquela altura, o potencial nuclear tático da URSS ultrapassava em várias vezes os recursos análogos da Otan, e o surgimento de um meio tão perfeito de transporte como o Su-24 veio agravar ainda mais o desequilíbrio no teatro europeu da operações militares.

Enquanto isso, o análogo americano do Su-24, o F-111 lutava ativamente no Vietnã. A sua estreia foi um inesperado fracasso – os bombardeiros "absolutamente imbatíveis" sofreram perdas com ataque dos antigos mísseis antiaéreos S-75 logo no voo inaugural. Mas, em geral, no final do conflito, o F-111 foi definido como o mais eficaz de todos os aviões alguma vez ativos na Força Aérea dos EUA.

Também o Su-24 passou por uma guerra "a sério". E também nesse caso as condições de uso do aparelho resultaram estar "fora dos cálculos". Um resultado natural foi a reduzida eficácia das operações das aeronaves na luta contra os grupos inimigos que se escondiam nas montanhas e povoações. O sistema da mira do aparelho tinha sido projetado para uso contra posições repletas de técnica das tropas da OTAN em terreno plano e, por conseguinte, ele "não via" alvos tão pequenos com as montanhas como pano de fundo.

O Su-24 foi amplamente utilizado durante as guerras da Chechênia e a guerra na Ossétia do Sul em 2008. Nos relatórios oficiais russos não surge nenhuma menção às perdas de aeronaves Su-24 na Ossétia, mas alguns especialistas apontam para a perda de duas aeronaves desse tipo.

Atualmente, a Força Aérea da Rússia tem ao seu serviço 124 aeronaves Su-24 modernizadas, que estão sendo ativamente substituídas pelos Su-34 e serão completamente retiradas do ativo em 2020.

A vida dos pilotos de teste, e, posteriormente, dos pilotos da formação de combate, foi mais do que uma vez salva pelo sistema de ejeção com assento K-36D. Existe um incidente curioso ocorrido no dia 11 novembro de 1975 e que foi o seguinte: a tripulação do Su-24 estava no cockpit e se preparava para realizar um voo de teste. Foi dado o comando para iniciar os motores e, nesse momento, a manivela direita do controle do avião prendeu nas pegas do sistema de ejeção e puxou o pino. O copiloto V. M. Osmanov, que não suspeitava de nada, num instante se viu ‘voando’. De acordo com o programa acionado, o paraquedas se abriu e Osmanov pousou em segurança longe do avião. Essa foi a primeira vez que alguém se ejetou de um avião no solo em toda a história da Força Aérea soviética.

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