Sem ajuda dos EUA, Kremlin assume segurança de instalações nucleares

Foto: Mikhail Morkúchin/RIA Nóvosti

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Rússia vai assegurar de forma independente a segurança de suas instalações nucleares. Mas, apesar de projeto ser implantado sem a tradicional ajuda dos EUA, Moscou está disposto a cooperar com Washington na área da segurança nuclear global.

No último dia 20, o jornal “Boston Globe” publicou que Moscou havia decidido suspender a cooperação com os Estados Unidos na segurança de instalações nucleares russas em dezembro de 2014. Porém, como anunciado oficialmente dois dias depois pela estatal Rosatom, Moscou está disposta a cooperar com Washington na área da segurança nuclear global

“A Rússia e os Estados Unidos têm uma responsabilidade especial para garantir a segurança e integridade dos materiais nucleares, impedir que caiam nas mãos de organizações terroristas e assegurar a sua proteção física”, declarou a assessoria de imprensa da corporação.

Por causa do conflito na Ucrânia, os Estados Unidos encerraram parte da cooperação científica e tecnológica com a Rússia, incluindo na esfera nuclear. Com isso, muitos projetos importantes foram atingidos. Entre eles, a implementação do programa conjunto para recolher em outros países combustível nuclear com urânio altamente enriquecido.

“Este e outros programas de cooperação eram supervisionados pelo grupo de trabalho para a energia e segurança nucleares no âmbito da comissão russo-americana. Mas, em março de 2014, o Departamento de Estado dos EUA, por meio de uma nota em seu site, nos informou da suspensão dos trabalhos no âmbito desse mecanismo – em nossa opinião, muito eficaz”, informaram representantes da Rosatom.

No total, desde o início do programa até a sua conclusão em, 2016, deveriam ser recolhidas 2,5 toneladas de urânio altamente enriquecido. “Teoricamente, essa quantidade é suficiente para produzir 100 ogivas nucleares”, diz Anton Khlopov, membro do conselho científico junto ao Conselho de Segurança da Rússia.

Segundo os observadores entrevistados pela Gazeta Russa, as sanções apenas aceleraram a tomada de decisão por parte de Moscou. Na cúpula sobre segurança nuclear em 2010, o Kremlin já havia declarado que cada país deveria ser responsável pela segurança de seus materiais nucleares.

Parceira desigual

“Na década de 1990, quando a Rússia enfrentava condições econômicas difíceis e tumulto interno, a questão da segurança dos materiais nucleares era bastante incisiva. Ela causava alguma preocupação entre os parceiros ocidentais”, explica Anatóli Diákov, pesquisador sênior do Centro para o Estudo do Controle de Armas, Energia e Ambiente. 

O programa Nunn-Lugar foi assinado em 1992. Uma de suas vertentes de cooperação era o fortalecimento dos sistemas de proteção e defesa dos materiais nucleares não só com recursos norte-americanos, mas também russos. 

As instalações nucleares russas começaram a ser equipadas com nova técnica, e o sistema de controle e contabilidade de materiais nucleares melhorou muito. “Para isso também contribuiu a melhoria da situação econômica da Rússia e os esforços da Rosatom e do Ministério da Defesa no aperfeiçoamento da proteção de uma série de instalações nucleares”, acrescenta Diákov.

Por cofinanciarem a defesa de instalações nucleares na Rússia, os EUA obtiveram o direito de inspecioná-las a fim de monitorar o gasto dos recursos atribuídos. Moscou, no entanto, não tinha o mesmo acesso a instalações nucleares norte-americanas. Isso era a causa da principal insatisfação do Kremlin.

“Se Washington tiver interesse em continuar a cooperação com o Kremlin no domínio da segurança nuclear, esta deverá garantir direitos iguais”, destaca Diákov.

Independência tardia

Em 2013, a maior parte do trabalho conjunto foi concretizada, e o programa Nunn-Lugar chegou ao fim. Na sequência, foi substituído por um novo acordo-quadro bilateral para redução da ameaça nuclear.

“O mais importante na década de 90 era não permitir que materiais de instalações nucleares da URSS fossem parar no mercado negro. Por isso, a Rússia aceitou ajuda sob quaisquer condições. Mas hoje o país possui tecnologia e meios para manter sozinha a segurança nuclear”, afirma Andrêi Baklitski, diretor do programa “A Rússia e a Não Proliferação Nuclear”.

Moscou já é capaz de garantir a segurança das instalações nucleares com seus próprios recursos há muito tempo, segundo Diákov. “A Rússia propôs aos EUA cooperação no domínio da ciência e estava interessada na possibilidade de poder visitar instalações nucleares norte-americanas”, diz o analista, acrescentando que Estados Unidos recusaram esse modelo de cooperação.

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