O que o Kremlin busca na Antártica?

Até 2020 governo russo quer intensificar pesquisa científica e influência política na Antártica Foto: AFP/East News

Até 2020 governo russo quer intensificar pesquisa científica e influência política na Antártica Foto: AFP/East News

Tratado Antártico, que estabeleceu bases para cooperação científica internacional no continente, é ameaçado por interesses políticos e econômicos. Moscou é um dos governos que buscam aumentar influência na região.

Apenas cinco anos nos separam do 200º aniversário da descoberta da Antártica pela expedição russa comandada por Thaddeus Bellingshausen e Mikhail Lazarev. Se compararmos com a primeira descrição, feita em 1820, a imagem desse continente pouco mudou. Desde meados do século 20, no entanto, a Antártica se tornou mais atraente por causa de seu imenso potencial científico e econômico.

A comunidade internacional percebeu então a necessidade de estabelecer um regime de gestão regional, cuja base documental se tornou o Tratado Antártico, assinado em 1959.

Na teoria das negociações internacionais é comum acreditar que as negociações com muitas partes envolvidas têm mais propensão a falhar do que as negociações bilaterais, devido ao grande número de interesses envolvidos. A história da preparação e assinatura desse Tratado de 1959 demonstra, contudo, uma rara exceção a essa regra.

Paz no auge da Guerra Fria

Apesar de as negociações sobre o modo de administração da Antártica terem sido conduzidas durante a Guerra Fria, todos os 12 países que assinaram o tratado inicial foram unânimes no que dizia respeito à desmilitarização da região e à resolução de questões litigiosas por meios pacíficos. Fato é que os interesses coincidiam.

Clique para ver o infográfico na íntegra

Por um lado, era rentável para os dois principais antagonistas da época – os Estados Unidos e a União Soviética – excluir a Antártica da geografia do confronto político-militar. Era interessante que sobrasse no mundo pelo menos uma região onde os representantes dos dois blocos não se olhassem através da mira das armas. Também não era favorável dispersar forças e recursos para obter presença militar em uma região de condições tão difíceis e remota da Terra.

Além disso, o grupo de países nos entornos da Antártica (Chile, Argentina, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia) não queriam ver suas águas territoriais se tornarem objeto de competição militar entre as grandes potências. O sentido da existência da Antártica acabou sendo definido pela cooperação científica internacional.

Foto: AFP/East News

No entanto, a principal questão que surge sobre o futuro da Antártica é se ela permanecerá como uma “terra de ninguém” ou se vai se transformar em mais uma fonte de recursos para atender às demandas das principais economias mundiais. Mesmo considerando as especulações que relacionam o continente aos efeitos a longo prazo das mudanças climáticas no planeta, a possibilidade de implantação de atividades econômicas na região não pode ser excluída.

“O aumento da atividade internacional na região, as disputas territoriais e a crescente controvérsia em torno do Tratado Antártico levantam uma série de problemas graves, tanto perante a comunidade mundial, como perante a Rússia”, alertam os especialistas do Instituto Latino-Americano da Academia de Ciências da Rússia.

Corrida russa

O atraso crônico da Rússia em relação aos outros países interessados no estudo da Antártida se formou após o colapso da URSS e mostrou à liderança atual a necessidade de elaborar uma nova abordagem regional. O resultado desse trabalho é a “Estratégia para o Desenvolvimento da Atividades da Federação Russa na Antártida até 2020”, que entrou em vigor em 30 de outubro 2010. 

Clique para ver o infográfico na íntegra

O documento contém uma análise da presença da Rússia no continente e as prioridades para o futuro. O conteúdo da estratégia indica que o governo russo focará em três áreas: aumento substancial aumento da pesquisa científica, o que exigirá a modernização da infraestrutura das estações de pesquisa russas, da frota de pesquisa científica e a garantia do funcionamento do sistema Glonass; o estudo abrangente de recursos biológicos marítimos, minérios e hidrocarbonetos na Antártica; e o reforço da influência política da Rússia nos processos do desenvolvimento futuro do regime jurídico internacional da Antártida.

 

Confira outros destaques da Gazeta Russa na nossa página no Facebook

Todos os direitos reservados por Rossiyskaya Gazeta.