De nobres a soldados, armadura de metal protegia a todos

 Foto: RIA Nóvosti/Kalínnikov

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Além de espadas pesadas, a armadura protetora representava o trabalho mais fino dos fabricantes de armas antigas na Rússia. Abraçando formas e estilos tradicionais dos invasores nômades, faziam de tudo desde cota de malha intrincada a conjuntos de armadura espelhados que lutaram e abriram caminho através da Europa e da Ásia.

A Rússia não é o primeiro país que vem à mente quando se pensa em armadura de alta qualidade – pensamentos instintivamente se voltam para os grandes ferreiros de reinos medievais da Europa Ocidental.

Ainda assim, armaduras russas foram descobertas em túmulos de 1.000 anos em diversos pontos do Leste Europeu, no Cáucaso e nos Urais, e a poesia francesa do século 12 já fazia referência à “cota de malha fina de fabricação russa”

Produzir armadura é uma arte meticulosa que exige tanto força com o martelo, como habilidades para trabalho com metais delicados. A cota de malha, por exemplo, era um dos tipos mais seletos de armadura, mas exigia avançada tecnologia de conversão para transformar metais em fios.

Casaco de 20.000 anéis

Os mestres russos já faziam isso no século 10. Pedaços de ferro em brasa atravessavam orifícios finos em uma folha de ferro, que progressivamente comprimiam o metal. Os fios resultantes eram cortados em pedaços e, em seguida, moldados em anéis. Uma peça de cota de malha necessitava de 20.000 anéis ou mais – que eram posteriormente ligados um a um.

Produzir cota de malha levava meses, e as armaduras de proteção custavam tanto quanto um cavalo de puro-sangue. Mas a demanda era alta, já que esse tipo de armadura protegia contra golpes de espada e também era relativamente confortável de usar, em comparação com outros modelos.

 
Foto: RIA Nóvosti/Korobeinikov

Pesando cerca de sete quilos, um casaco de cota de malha russo era mais leve do que seus análogos ocidentais, com mangas mais curtas, porém longas na bainha, para cobrir as coxas. A recompensa de comprar uma proteção cara dessas fica evidente em amostras que sobreviveram ao tempo e às marcas de ataques de espadas e flechas.

Lição dos nômades

Até o final da Idade Média, a maioria dos tipos de armadura havia desaparecido na Europa, exceto em uniformes de cavaleiros. Entretanto, a produção russa seguiu por outro caminho, incluindo a adoção de modelos usados por invasores mongóis que chegaram no século 13.

A contrário de armaduras sofisticadas, os guerreiros nômades produziam placas de metal simples fixadas em casacos de couro. Os armeiros russos agregaram esse revestimento metálico defensivo e escamas em seu trabalho, que, por sua simplicidade, tornavam as armaduras acessíveis para as classes mais baixas, bem como para comandantes e membros da nobreza.

A tradicional cota de malha russa também sobreviveu e até mesmo evoluiu ao longo do século 14 em camisas de metal feitas de anéis planos, como um escudo blindado.

Por volta do século 16, a proteção de metal praticamente deixou de existir na Europa, devido à proliferação das armas de fogo. Mas a armadura robusta continuou a servir com destaque na Rússia, auxiliando na vitória de Ivan, o Terrível sobre o Canato Tatar, no século 16, e sobre os exércitos dos reis sueco e polonês na Guerra da Livônia.

Museu de armaduras

A evolução da armadura russa está catalogada em ícones e suas representações de arcanjos e guerreiros cristãos, bem como em arquivos de magníficos conjuntos individuais.

A armadura feita sob encomenda em 1620 para o tsar Mikhail Romanov consistia de 9.000 anéis e 1.500 placas de aço decoradas com ouro, que tinham apenas 1 mm de espessura. Outras 100 placas ornamentadas foram usadas em um conjunto para seu filho, Aleksêi.

 
Foto: RIA Nóvosti/Sverdlov

A arte de trabalho com metais sobreviveu até século 18, sobretudo em Moscou, onde os nomes de algumas ruas ainda refletem essa tradição do passado. Piotr, o Grande, finalmente abandonou a armadura durante a modernização do Exército russo, mas a tradição dos artesãos não foi perdida por completo.

A produção de cota de malha foi até retomada no início do século 19 para os trajes cerimoniais da escolta do Cáucaso-Górski da Guarda Imperial do Tsar. Capacetes de aço, armaduras de ferro e pulseiras de aço com acabamento em prata foram feitas para os 50 cavaleiros que escoltavam a carruagem do imperador em ocasiões especiais.

 

Aleksandr Verchínin é doutor em Ciências Históricas e pesquisador sênior do Centro de Análise de Problemas.

 

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