Conflito nos ares: como a aviação militar russa atuou durante a Primeira Guerra Mundial

Atraso industrial da Rússia forçou o país a adquirir aviões no exterior durante toda a guerra Foto: ITAR-TASS

Atraso industrial da Rússia forçou o país a adquirir aviões no exterior durante toda a guerra Foto: ITAR-TASS

Considerada uma das maiores potências aeronáuticas da época, a Rússia não conseguiu estabelecer a supremacia aérea devido ao baixo nível de desenvolvimento da indústria nacional.

Na iminência da Primeira Guerra Mundial, o governo imperial russo decidiu organizar sua aviação militar: até 1917 a esquadrilha nacional deveria contar com 300 aeronaves. O projeto foi considerado estratégico e teve como gerente um líder reconhecido, o Grão-Duque Aleksândr Mikháilovich, parente direto do czar Nicolau 2º.

No momento da entrada da Rússia na guerra, o exército contava com pequenos aviões de produção francesa utilizados em missões de inteligência. Tratava-se do monoplano leve Nieuport-4 e do biplano Farmans, cujas velocidades não passavam de 115 km/h e não podiam levar mais de 30 kg de carga. Havia alguns aeroplanos mais potentes, como o Morane-Parasol, que atingia velocidades de até 125 km/h e alcançava 4.000 metros de altitude, o bombardeiro pesado Iliá Muromêts e os primeiros hidroaviões do mundo, projetados por D. Grigôricha, capazes de operar em terra e na água.

Entretanto, o atraso industrial da Rússia forçou o país a adquirir aviões no exterior durante toda a guerra, principalmente da Grã-Bretanha, França e Alemanha. A produção total de aeronaves russas, mesmo no favorável ano de 1916, não excedeu 40 exemplares por mês, que mesmo assim eram equipados com motores e outros itens estrangeiros. O grande bombardeiro Iliá Muromêts, orgulho nacional, era equipado com motores fabricados no exterior e uma série de equipamentos produzidos na Rússia sob licença.

Além dos problemas de ordem técnica, os generais russos não tinham uma noção clara da utilização militar das aeronaves e os pilotos eram pouco experientes. O resultado dessa soma de erros foi desastroso: nos três primeiros meses da guerra, a aviação russa perdeu a maioria de seus aviões.

Novos planos

A supremacia aérea da Alemanha era incontestável. No início de 1916, enquanto o exército russo possuía 360 aeronaves, os alemães contavam com 1.600 unidades. Diante dessa situação, o estado-maior do exército russo decidiu nivelar os números, ordenando no final de 1916 a aquisição de 1.384 aviões e 1.398 motores.

Essa medida equacionou o poderio aéreo dos dois exércitos, mas não chegou a eliminar a enorme pressão que a Rússia sofria com o aumento das perdas nos combates aéreos.  Os aviões alemães continuavam a dominar não apenas em quantidade, mas em qualidade também. Em uma reunião extraordinária, o comando do exército russo ficou chocado ao saber que o número total de aeronaves tinha despencado para 199 nos batalhões do exército e 64 nas bases aéreas.

Os estrategistas calculavam que seriam necessárias 10.065 novas aeronaves até o início de 1918 para cobrir todas as perdas ocasionadas por combates aéreos e acidentes. Diante desse requerimento, a Administração Central Técnico-Militar teve de admitir que um número tão grande de aeronaves não seria possível de fabricar no país.

No início do século 20, a indústria aeronáutica russa era basicamente concentrada na iniciativa privada. A pequena desenvoltura deste setor na época não foi capaz de entregar uma produção dimensionada às necessidades de um conflito de escala global. Diante do crescente papel da aviação nas principais questões estratégicas, o governo imperial russo decidiu criar uma grande fábrica estatal para produção de aviões e motores na cidade de Kherson. O governo esperava que a cidade se tornasse o principal centro de desenvolvimento da indústria aeronáutica russa, mas, com o início da revolução bolchevique em fevereiro de 1917, os planos para o desenvolvimento da indústria nacional aeronáutica foram esquecidos durante muitos anos.

 

Publicado originalmente pela Rússkaia Planeta

 

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