Baioneta, a arma que militarizou o camponês russo

Até o início do século 20, as habilidades de combate com baioneta da Rússia eram consideradas as melhores da Europa Foto: ITAR-TASS

Até o início do século 20, as habilidades de combate com baioneta da Rússia eram consideradas as melhores da Europa Foto: ITAR-TASS

A baioneta estreou nos exércitos europeus no final do século 17 como uma espécie de “arma de destruição em massa” primitiva. As armas de fogo da época eram pouco precisas e apresentavam diversos problemas técnicos. Mas a baioneta imediatamente revolucionou os rifles pesados e ineficientes nos quartéis da Europa.

No final do século 17, surgiu uma novidade no continente europeu que iria mudar drasticamente a dinâmica e eficácia do combate de infantaria: a baioneta. Esse punhal fixo montado abaixo do cano de um rifle permitia que um soldado em terra lutasse contra um adversário de perto quando o uso de qualquer arma de fogo já era impraticável.

As tropas preferiam recorrer ao gatilho e balas, acumulando rapidamente uma grande quantidade de corpos em ambos os lados. Mas um esquadrão de infantaria armado com rifles e baionetas não só conseguia resistir contra os ataques de cavalaria, mas era também capaz de montar ataques que poderiam acabar com setores inteiros das tropas inimigas.

Os soldados russos se familiarizaram com a baioneta no início do século 18, e comprovaram de cara os benefícios dessa lâmina fixa montada abaixo do cano da arma. A inconsistência do calibre e falhas de disparo muitas vezes tornavam os rifles obsoletos e ineficazes no campo de batalha, especialmente para as tropas compostas por trabalhadores rurais.

Mas um rifle com uma baioneta afiada era muito parecido com o tridente usado pelos camponeses russos desde a infância. Enquanto o soldado de infantaria europeia tentava fincar a baioneta no peito do inimigo, com seu rifle mantido na altura do ombro, os granadeiros russos atacavam no “estilo camponês”, empunhando o objeto na posição vertical contra a barriga. Quando a baioneta penetrava, eles largavam a coronha do rifle e impulsionavam a baioneta. Além disso, o modelo triangular da baioneta russa tornava a arma mais fácil de penetrar em roupas grossas e deixar feridas profundas e de difícil cicatrização. “A bala é tola; a baioneta, uma boa companheira”, disse certa vez o famoso general russo Aleksandr Suvorov, que enfatizou a necessidade de habilidades de luta entre os cadetes do exército.

 

A luta de baioneta era o último e mais sangrento recurso de batalha Foto: RIA Nóvosti

Enquanto os rifles de cano liso do final do século 18 tinham alcance de até 100 passos (cerca de 75 metros), a infantaria de Suvorov cobria essa distância em 30 segundos, permitindo que o inimigo desse apenas um voleio antes de ser massacrado pelas ondas de tropas russas.

Em algumas ocasiões, seus protégées venciam forças muitas vezes maiores em número e armas. “O inimigo tem mãos como nós, elas só não sabem manusear a baioneta”, escreveu Suvorov. Antes da campanha italiana contra os franceses, em 1799, ele supervisionou pessoalmente o treinamento de baioneta para o Exército austríaco aliado, que também contava com técnicas de combate corpo a corpo.

Napoleão cobrara uma vitória contra as forças russo-austríacas na Batalha de Austerlitz, em 1805, mas o general francês elogiou mais tarde as habilidades dos inimigos russos. “Os russos lutaram contra seus adversários um por um. Eu vi como soldados lutavam sozinhos com tanta confiança, como se tivessem o apoio de um batalhão”, afirmou.

 

Na batalha de Borodinó, que aconteceu nos arredores de Moscou em 1812, os russos tomaram posições-chave do Exército francês com a ajuda de baionetas. Foto: RIA Nóvosti

Na batalha de Leipzig, em outubro de 1813, alguns soldados do Regimento de Salvaguarda Finlandês foram cercados por forças inimigas superiores. Os granadeiros revidaram com baionetas fixas até que apenas um soldado continuasse vivo. Ferido 18 vezes, ele foi preso e, em seguida, citado por Napoleão como um exemplo de habilidade de combate próximo para o seu exército.

Na Guerra da Crimeia, nos anos de 1854 e 1855, os britânicos e franceses experimentaram a fúria da carga de baioneta russa durante o cerco de Sevastopol.

A Rússia pode não ter vencido a guerra, mas o efeito de suas lâminas foi uma memória persistente para os vencedores. Doze anos depois, O Reino Unido e a França até pressionaram a organização russa da Sociedade Internacional da Cruz Vermelha a convencer as autoridades militares russas a abandonar o uso de golpes de baioneta contra o estômago. A Rússia concordou formalmente com o pedido, mas seus soldados muitas vezes continuavam a lutar usando o estilo antigo.

Até o início do século 20, as habilidades de combate com baioneta da Rússia eram consideradas as melhores da Europa, apesar de não haver orientações escritas – as habilidades eram passadas de soldado para soldado.

A baioneta russa também encontrou aplicação na nova era de fuzis de disparo rápido e até foi adotada em alguns dos principais rifles alemães na Primeira Guerra Mundial. Mas a baioneta foi gradualmente suplantada por variantes, que seriam amplamente introduzidas no Exército Vermelho – antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial interromper essa reforma.

A rapidez do ataque nazista à União Soviética indicou que ainda havia muito espaço para a baioneta no campo de batalha quando a guerra eclodiu. O soldado soviético Ivan Ischenko, por exemplo, matou sete alemães em combates corpo a corpo perto de Kirovograd, em 1944, usando sua afiada baioneta russa.

Depois da guerra, o Exército soviético finalmente adotou a faca baioneta, que foi lançada com o novo fuzil de assalto Kalashnikov. A antiga arte marcial se espalhou para além do ambiente militar como uma variação de esgrima, com carabinas e baioneta. Não durou muito mais do que uma década, no entanto, e foi retirada a pedido do Comitê Olímpico Internacional, que considerava a modalidade excessivamente agressiva e militarista.

 

Aleksandr Verchínin é doutor em Ciências Históricas e pesquisador sênior do Centro de Análise de Problemas.

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