Ebola é praticamente impossível de ser controlado, diz cientista russo

Além de Libéria, Guiné e Serra Leoa, foram registrados casos na Nigéria e em Hong Kong Foto: Reuters

Além de Libéria, Guiné e Serra Leoa, foram registrados casos na Nigéria e em Hong Kong Foto: Reuters

Para infectologista enviado à Guiné, apesar do aumento no número de casos mortalidade vem diminuindo.

Em entrevista à Gazeta Russa, Mikhail Schelkanov, colaborador do Instituto de Pesquisa em Virologia Ivánovski, disse que apesar de o número de pessoas infectadas com o vírus ebola na África Ocidental continuar a crescer e a propagação do vírus ser praticamente impossível de controlar, a situação na região melhorou nos últimos dias.

No início de agosto, Schelkanov e o principal infectologista da Rússia, Víktor Maleev, foram enviados para a Guiné a fim de combater a epidemia.

Qual a situação epidemiológica atual na região?

Schelkanov: Anteriormente, apenas os casos mais graves eram monitorados, mas agora, graças ao diagnóstico precoce, os infectados passam a receber a atenção dos médicos muito mais cedo. Em função disso, a mortalidade devida ao ebola está diminuindo [anteriormente, a taxa de mortalidade era de 90%, mas agora baixou para cerca de 50% - nota do editor].

O serviço de diagnóstico do hospital Donka [o maior hospital público da Guiné], em Conacri, está bem organizado, em grande parte devido ao fato de o laboratório ser chefiado pelo doutor Maleev, graduado em uma universidade russa. Ele se formou na Academia Estatal de Medicina Veterinária de Moscou [na academia são estudados os procedimentos de diagnóstico das infecções virais, algumas das quais, como no caso do ebola, são transmitidas dos animais para os seres humanos – nota do editor].

Como é seu trabalho na Guiné?

Em primeiro lugar, prestamos assistência científica e metodológica aos especialistas locais. Particularmente, ajudamos a melhorar o diagnóstico do vírus, e eu acredito que a nossa interação tem ajudado. Em segundo lugar, prestamos consultoria aos especialistas locais sobre o próprio vírus ebola [o vírus foi estudado na Rússia – nota do editor].

Também estivemos em um dos hospitais de campanha, onde prestamos consultoria aos médicos sobre questões clínicas e febres hemorrágicas. O fato é que as abordagens clínicas para o tratamento desses tipos de febre são basicamente comuns a todas elas. E como na Rússia existe, por exemplo, a febre hemorrágica da Crimeia, nós possuímos experiência na área.

Outro de nossos objetivos é garantir a segurança dos cidadãos russos e dos funcionários da embaixada do país na Guiné. 

Em sua opinião, é possível deter a epidemia?

Isso é difícil de fazer por duas razões fundamentais. A primeira é que essa infecção está associada ao foco natural (o foco natural da doença é a paisagem caracterizada por clima e vegetação, onde circulam agentes etiológicos, vetores e reservatórios naturais de uma infecção). É praticamente impossível controlar o processo de circulação do vírus em focos naturais nas áreas de florestas da Guiné, Serra Leoa e Libéria.

A segunda razão fundamental se oculta nas condições socioeconômicas desses países. A África Ocidental é um dos territórios mais pobres do mundo. Absolutamente não existem serviços epidemiológicos e sanitários no sentido usual dessas palavras.

Adicione a isso a inépcia administrativa de muitos países da África Ocidental e o alto nível de corrupção, que até mesmo impede colocar em prática de forma competente as medidas de controle da epidemia: por um dólar e meio, uma pessoa infectada pode sair do cordão epidemiológico (ou cordão sanitário).

Também é importante levar em consideração as particularidades das crenças locais. Especificamente, o costume de a aldeia inteira abraçar o falecido durante o funeral, antes de colocá-lo na sepultura. Tudo isso não contribui para um fim rápido da epidemia.

Porém, é preciso enfatizar que, apesar de tudo, medidas começaram a ser implantadas. Por exemplo, todos os que morrem no hospital Donka são obrigatoriamente cremados no local e não são devolvidos aos parentes.

Determinadas medidas estão sendo tomadas seguindo as diretrizes do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde. Além disso, os governos dos países da África Ocidental finalmente entenderam que não se deve esconder o número pessoas infectadas. Nos últimos dias, já pudemos observar certa guinada na situação.

Em breve terá início o ano letivo na Rússia e os estudantes da Guiné irão retornar para as instituições de ensino. Como é possível minimizar o risco de propagação do vírus?

Por enquanto o problema não foi resolvido, mas existe uma experiência útil da empresa Rusal, que antes de enviar os seus empregados para a Rússia, primeiro os transporta para Casablanca (Marrocos), onde eles permanecem por três semanas [tempo equivalente ao período de incubação do vírus – nota do editor]. Lá eles trabalham remotamente e somente depois voam para a Rússia. Não sei se será possível fazer algo semelhante com os estudantes. Provavelmente não, porque isso depende de dinheiro.

Isso significa que a Rússia irá proibir a entrada de cidadãos provenientes das regiões perigosas?

Algo assim seria improvável, mas a saúde deles será monitorada. Quando os estudantes chegarem à Rússia, eles ficarão em observação ao longo dos dois primeiros meses, aproximadamente. Por enquanto não posso dizer como. Mas com certeza isso acontecerá.

Contexto atual

De acordo com um balanço divulgado no dia 6 de agosto, 932 pessoas morreram desde o início da epidemia. A taxa de mortalidade é de aproximadamente 50%, muito inferior à observada durante as epidemias anteriores, quando esse indicador chegava a 90%.

Segundo os últimos dados disponíveis, cerca de 1.700 pessoas contraíram a doença, levando o atual surto a ser considerado o mais forte desde a descoberta do vírus, em 1976.

Além de Libéria, Guiné e Serra Leoa, foram registrados casos na Nigéria e em Hong Kong.

Por enquanto, não existe uma vacina contra o Ebola e, em função disso, uma série de pesquisadores teme que o vírus possa ser usado como arma biológica.


 

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