Scud, um míssil destinado à clonagem universal

R-17 na região de Leningrado, em 1982 Foto: ITAR-TASS

R-17 na região de Leningrado, em 1982 Foto: ITAR-TASS

O soviético R-17, vulgarmente conhecido como Scud, começou a ganhar destaque no mundo ocidental durante a primeira Guerra do Golfo, em 1991, quando foi usado contra as forças norte-americanas pelo Exército iraquiano de Saddam Hussein. No entanto, essa arma confiável e acessível é amplamente empregada em diversas partes do mundo desde os anos 1960, e foi até convertida em um veículo de lançamento espacial do Oriente Médio.

Nenhum outro míssil balístico foi tão visto em ação em conflitos do século 20 e 21 quanto o soviético R-17. Mundialmente conhecido como Scud, essa arma acabou sendo copiada e modernizada tantas vezes que, em alguns momentos, tornou-se até irreconhecível. Calcula-se que cerca de 3.000 desses mísseis de curto alcance tenham sido disparados em conflitos mundiais ao longo dos últimos 50 anos.

Devido à sua simplicidade, confiabilidade e baixo custo, o R-17 já figurou nos arsenais de mais de 30 países e foi amplamente fabricado sob licença ou simplesmente copiado. Os primeiros testes do R-17 aconteceram em 1957, após dois anos de desenvolvimento, com o objetivo de substituir os mísseis nucleares táticos soviéticos de primeira geração R-11. Estes, por sua vez, eram derivados do modelo nazista V2, o primeiro míssil balístico do mundo, do quais mais de 1.300 foram disparados contra Londres na Segunda Guerra Mundial.

No entanto, por causa da melhor eficiência de combustível, o R-17, ao contrário do R-11, manteve-se em alta por mais de 20 anos, mesmo não necessitando de grandes manutenções. Esta e outras inovações ajudaram a atingir o alcance máximo de 300 km em sua primeira modificação, embora fosse menor e mais leve do que R-11. Era capaz de carregar ogivas explosivas ou nucleares, e podia acertar um alvo em um diâmetro de 600 metros. A variante com armas nucleares foi a principal arma das forças de foguetes da URSS, enquanto as unidades convencionalmente armadas eram geralmente exportadas.

Entre a década de 1960 e 1980, os mísseis Scud foram enviados em grande número para os parceiros internacionais da União Soviética: cerca de 1.000 mísseis foram vendidos para países como Egito, Iraque, Coreia do Norte, Cuba, Vietnã, Líbia e Síria. Muitos começaram a produção unilateral por meio da obtenção de licença ou simplesmente copiando a arma. Em 1984, a Coreia do Norte começou a produzir o seu equivalente, o Hwasong-5, dos quais centenas foram exportados para terceiros, incluindo Emirados Árabes, Líbia, Egito e Paquistão, que, por sua vez, produziam as suas próprias versões do míssil.

Variantes estrangeiras

Em 1987, o Iraque aperfeiçoou a produção do R-17 com a fabricação do míssil Al-Hussein, que tinha maior alcance por conta da carga reduzida. Bagdá também exportou essa tecnologia, em especial para o Brasil, que, em 1988, começou a produzir um míssil semelhante sob o nome S-300.

Um desdobramento do programa Scud iraquiano foi a modificação do míssil para o lançamento de satélites de 150 kg para o espaço. Engenheiros iraquianos utilizaram uma versão alongada e de duas fases do Scud, em torno do qual foram instalados quatro aceleradores compostos por motores de foguetes baseados no R-17. Em 5 de dezembro de 1989, o primeiro veículo transportador espacial  do Iraque decolou da base de lançamento de Al Anbar, a 225 km a sudoeste de Bagdá. O veículo subiu 25 km antes de explodir aos 45 segundos de voo. O programa foi então interrompido pela eclosão da primeira Guerra do Golfo.

 

Sistema de mísseis R-17, em 1968. Foto: ITAR-TASS

Entre outros clones e encarnações do Scud, houve também uma modificação egípcia, que foi usada pela primeira vez na Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973, e disparada contra as forças israelenses em uma das travessias do Canal de Suez. Apenas sete soldados israelenses foram mortos, mas, o próprio fato de mísseis balísticos egípcios serem implantados ​provou ser um dissuasor eficaz, uma vez que representavam ameaça para os alvos estratégicos. Essa perspectiva fez com que os israelenses ficassem mais inclinados a aceitar o cessar-fogo.

Inimigo em chamas

Durante a guerra no Afeganistão, entre 1979 e 1989, os soviéticos também usaram mísseis R-17 contra as forças Mujahideen entrincheiradas em posições protegidas nos desfiladeiros. Por causa da precisão variável da arma, ela foi disparada em conjuntos e, geralmente, a não mais de 30 quilômetros de distância –um tiro de “alcance curto” para uma arma tão pesada. A destruição eficaz presenciada foi mais resultado do combustível inflamado do que da explosão e da fragmentação da ogiva de quase uma tonelada.

As posições inimigas foram incendiadas e, invariavelmente, destruídas com 160 galões de querosene e mais de 2 toneladas de ácido nítrico concentrado. Cerca de 1.000 mísseis foram disparados durante o conflito. Durante a chamada “guerra das cidades”, em meio ao conflito Irã-Iraque entre 1980 e 1988, ambos os lados usaram Scuds contra os centros populacionais do outro, disparando um total de cerca de 600 mísseis. Até o final das hostilidades, a infraestrutura e as cidades da província iraniana de Khuzestan foram quase completamente destruídas. O Iraque também ficou severamente destruído por causa dos mísseis, inclusive a capital Bagdá.

O R-17 foi ainda muito utilizado durante a primeira Guerra do Golfo, em 1991. O Iraque lançou 40 mísseis contra o território israelense, e outros 46 na Arábia Saudita. Para a sorte da população civil, esses mísseis caíram em áreas pouco povoadas, e as baixas foram mínimas. Em Israel, duas pessoas morreram, e 11 ficaram feridas. No entanto, um Scud atingiu um quartel militar dos EUA na cidade saudita de Dhahran, provocando a morte de, pelo menos, 26 soldados americanos e ferindo quase 100. Foi a maior perda das forças de coalizão em um dia durante a Operação Tempestade no Deserto.

Paralelamente, os mísseis superfície-ar americanos Patriot conseguiram interceptar com sucesso apenas 20% dos Scuds, apesar de sua ampla implantação. Em um dos episódios do conflito, 26 Patriots não foram capazes derrubar um R-17 – um saldo extremamente favorável para os iraquianos, considerando que cada Patriot custava três vezes mais do que um Scud.

 

R-17 durante desfile militar em Nagorno-Karabakh, em 2012 Foto: ITAR-TASS

Até hoje, o Scud e seus muitos derivados ainda estão em serviço em diversos lugares do mundo. Em termos de preço, simplicidade e confiabilidade, o R-17 permanece incontestável, e sua adaptação e produção interna é uma realidade para os países que anteriormente não tinham tecnologia e base para fabricação necessárias para produzir uma arma tão complexa. Assim, essa arma conquistou seu lugar por décadas de conflito global como a “Kalashnikov dos mísseis balísticos”.

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