Shkval, o míssil submarino dentro de uma bolha de gás

Torpedo é capaz de criar uma bolha isolada debaixo do mar Source: Press Photo Source: Russia Beyond the Headlines - https://www.rbth.com//defence/2014/05/26/shkval_the_underwater_missile_inside_a_gas_bubble_36941.html)

Torpedo é capaz de criar uma bolha isolada debaixo do mar Source: Press Photo Source: Russia Beyond the Headlines - https://www.rbth.com//defence/2014/05/26/shkval_the_underwater_missile_inside_a_gas_bubble_36941.html)

Em 1977, a Marinha soviética adotou um torpedo que podia viajar debaixo d'água a uma velocidade de 370 km/h. Ainda envolto em sigilo, o Shkval ganhou ampla atenção do público durante um escândalo de espionagem em 2000.

Apesar dos avanços tecnológicos nas guerras convencionais, os ataques de torpedos por submarinos continuaram sendo a principal ameaça para os navios e tripulações até mesmo na segunda metade do século 20.

Embora armados sobretudo com torpedos, os submarinos tinham que adentrar a área de ataque sem seres detectados, assim como sempre fizeram. No entanto, novos recursos antissubmarino e antitorpedo permitiram aos navios de superfície e submarinos inimigos lidar com muito mais eficácia com as ameaças que vinham por baixo.

Como os submarinos soviéticos da década de 1960 e 70 eram inferiores aos modelos norte-americanos em termos de ruído, os engenheiros russos desenvolveram o projeto de uma arma nova e revolucionária para igualar as chances de sucesso. Desenvolvido ao longo de uma década, o Shkval finalmente entrou em serviço em 1977.

Com a sua ainda inigualável velocidade de 370 km/h, o Shkval era duas vezes mais rápido que os torpedos tradicionais em parafuso, que continuam a ser o principal armamento submarino nas frotas mundiais.

Essa vantagem de velocidade foi obtida com um motor de foguete e usando supercavitação – o “nariz” em forma de cone do torpedo cria uma bolha de gás ao redor de toda a sua superfície quando em alta velocidade – para reduzir o atrito na água.

Depois de o torpedo ser lançado do tubo, o seu piloto automático usa um foguete de combustível sólido para alcançar o curso e profundidade necessárias durante a aceleração de modo a formar a bolha de gás. Quando o combustível do motor de partida acaba, a seção traseira do torpedo é descartada, e o motor principal, movido por um combustível hidroreativo à base de lítio, entra em ação.

O torpedo corre então em alta velocidade por 15 quilômetros, com apenas a ponta em contato com a água – como se estivesse "perfurando" o mar.

Apesar de a supercavitação impedir o uso eficaz de um sistema de direcionamento na arma, isso é mais do que compensado pelo seu poder explosivo: o equivalente, em TNT, a uma explosão nuclear de 150 quilotoneladas, garantindo a destruição de um submarino inimigo ou navio de superfície dentro de um raio de um quilômetro.

Presente na maioria dos submarinos nucleares soviéticos, o Shkval 533 milímetros era considerado igualmente eficaz tanta na ofensiva, como também arma de defesa em caso de ataque submarino.

Capaz de viajar seis quilômetros em um minuto, o Shkval poderia rapidamente virar a mesa sobre o agressor. Embora os submarinos norte-americanos tivessem a vantagem da furtividade ao se aproximar e lançar o ataque inicial, o torpedo de alta velocidade poderia ser disparado antes de qualquer medida evasiva. Assim, enquanto um submarino em fuga era incapaz de corrigir os dados de orientação para torpedos já na água, o poder de fogo do Shkval garantia um contra-ataque devastador.

Essa arma única permitiu à Marinha soviética compensar a menor discrição de seus submarinos, até que essa defasagem foi eliminada no início de 1980.

O Shkval foi revelado ao mundo em um caso de espionagem em 2000, quando o ex-oficial da Marinha dos EUA, Edmond Pope, foi julgado e condenado na Rússia pela obtenção de informações secretas sobre a arma. Mesmo assim, o Shkval ainda é uma arma sem análogos conhecidos.

 

Iúri Ossókin é especialista em Política Externa russa do início do século 20.

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